Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

DIA DOS FIÉIS DEFUNTOS

 

         

Nas celebrações do Dia dos Fiéis Defuntos, ou Dia de Finados, são evidentes os vestígios dos antigos rituais dos mortos efectuados pelas associações funerárias de Roma – as Columbaria – (de entre as quais, mais tarde, se formou a Igreja), que tinham a seu cargo os «columbários», locais subterrâneos guarnecidos de nichos, onde os romanos colocavam as urnas funerárias que continham as cinzas das pessoas incineradas, uma vez que na Antiguidade, Gregos e Romanos, queimavam os corpos dos falecidos, somente deles conservando as cinzas.

 

Catacumbas de Siracusa, Sicília.

 

Ao contrário, os primeiros cristãos, começaram por enterrar os seus mortos, segundo os princípios da nova fé, continuando uma tradição antiga vinda do Oriente e seguida pelos Etruscos. 

Com as constantes execuções dos cristãos (que se recusavam adorar os deuses da religião pagã grega e romana), e não possuindo estes condições para adquirir terrenos destinados aos cemitérios, foram-lhes cedidos campos por ricos proprietários também eles cristãos. Mas nem assim foram suficientes esses vastos cemitérios. Daí, começarem a ser utilizadas as catacumbas (de início pedreiras abandonadas), que depressa se transformaram em cemitérios subterrâneos, mantidos até à vigência do imperador Constantino.

 

Catacumbas de San Calixto, Roma

 

Ali se escondiam os primeiros cristãos, junto dos seus mártires, tornando-se esses lugares, principalmente a partir do século II, locais onde se efectuavam os ritos religiosos e fúnebres e enterravam os mortos. Era também nas catacumbas (do grego katá – para baixo – e tumbos – tumba, túmulo) que os primeiros diáconos procediam ao baptismo, difundiam a nova religião, entoavam os seus cânticos e relembravam a Ceia de Jesus Cristo e dos Apóstolos.

 

"A Sagrada Ceia", Leonard da Vinci

 

Escavados na rocha, com nichos nas paredes (os loculi) a diferentes alturas, ali eram deitados os corpos, com a entrada de cada nicho fechada hermeticamente com uma pedra. Nela se inscrevia o nome do morto, a idade e uma breve alusão. Um «M» na pedra queria dizer que a pessoa tinha sido marterizada, enquanto os grandes mártires apresentavam a palavra por extenso.

 

" A Doutrina do Purgatório "

 

Perseguidos, mortos e presos, com os próprios papas a serem decapitados, os cristãos continuaram a ser vítimas dos povos bárbaros que invadiram Roma. Nessa altura, as sepulturas das catacumbas foram violadas, circunstância que deu motivo aos papas para mandarem distribuir as relíquias dos corpos santos por toda a Cristandade. Sem os seus mortos e mártires, as catacumbas foram abandonadas no século V, tendo caído, entretanto, no esquecimento – se bem que redescobertas no século XVI, segundo parece sem grande relevo para tão significativo achado.

 

Catacumbas de Villa Torlonia, Roma

 

Apesar dos estragos do tempo, nas catacumbas podem ainda observar-se as primeiras pinturas de arte cristã, com as inscrições que as acompanham feitas em grego. As mais antigas (século I) apresentam, principalmente, símbolos: o pão, a pomba, a cruz, a âncora (símbolo da vida eterna) e o peixe, que representa Cristo.

 

 

O culto dos mortos no dia que lhes é dedicado, traduzido em ritos diversos, com a romagem aos cemitérios, a oferta de flores e a colocação de velas sobre as campas, é comum a todas as épocas e povos, sendo prática corrente e actual tais celebrações, costumes e crenças em todos os países da Europa, onde se acredita, embora com variantes locais, que «no dia consagrado aos mortos as suas almas, isoladas ou em grupo, visitam na terra os lugares que habitaram em vida».

 

Matriz do Pilar (Vila Rica) São João del-Rei, Belo Horizonte

 

Quanto ao chamado «altar das almas», é representado nas igrejas pelo altar de São Miguel Arcanjo (ou apenas com a sua imagem), tendo como símbolo a «balança das almas», que o Príncipe da Milícia Celeste segura na mão. Também as flores foram apenas introduzidas nos funerais provavelmente a partir do século XVIII. Até aí, somente eram permitidas nos esquifes das crianças com idade não superior a sete anos.

 

 

Um ritual que continua a verificar-se neste dia entre nós, em certos meios rurais (exemplo de Babe, Bragança), leva o nome de «caridade». Outrora, consistia em oferecer pão no final de cada funeral realizado na aldeia. Actualmente, o pão foi substituído por dinheiro (vinte e cinco ou cinquenta cêntimos) dado a cada pessoa presente ao acto fúnebre, de acordo com as possibilidades económicas da família enlutada.

 

 

 

Soledade Martinho Costa

 

In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII

Ed. Círculo de Leitores

 

 

publicado por sarrabal às 13:55
link do post | comentar | favorito
|
7 comentários:
De Eduardo Freitas a 5 de Novembro de 2007 às 11:02
É sempre saboroso ler um texto assim, com riqueza de detalhes, belas imagens e tão universal quanto regional em suas colocações! Abraços e ótima semana Sol!


De sarrabal a 6 de Novembro de 2007 às 23:50
Edu.
Embora já esteja tudo dito, penso que alguma coisa os leitores do Sarrabal aproveitem com estes meus textos. Se gostaste, ainda bem. Por mim, adoro etnografia e isso, vê-se em certos posts que escrevo.
Outra coisa: mudaste de caixa de comentários, não foi? Fui espreitar o teu blogue e não consegui deixar lá nada. Como é, vai ficar assim? Acho muito mais complicado poder comentar. Era mais fácil anteriormente. Diz alguma coisa sobre isto, está bem?
Abraço da Sol.

Uma das minhas amigas brasileiras (Elisete) é de S. Paulo, mas já vive em Portugal há 12 anos! Aos outros vou perguntar...


De zazie a 18 de Dezembro de 2007 às 10:39
São muito interessantes estes textos. Só é pena não indicar a proveniência das imagens.
De onde é aquela da balança das alminhas?

abç


De sarrabal a 23 de Janeiro de 2008 às 02:58
ZAZIE:
Gostei da sua visita ao SARRABAL. Só hoje, 23 de Janeiro, dei pelo seu comentário.
Como pode verificar, as fotos já têm legendas.
Também tinha pensado nisso, mas a sua opinião acabou por fazer o resto. Sim, porque arranjar as legendas dá trabalho e não é pouco! Mas parece-me bem. Quando puder porei as restantes nos diversos posts.
Volte sempre e dê opiniões, pelo menos, tão boas quanto esta.

Já reparou na tranquilidade que se respira no SARRABAL? Não é que não goste de uma guerrazita de vez em quando, como sabe...
Retribuo o abraço.
Soledade Martinho Costa (Sol)




De zazie a 25 de Janeiro de 2008 às 02:23
Excelente. Fiquei intrigada com aquela balança das alminhas.

Abraço e muito obrigada


De Pedro Miguel a 20 de Outubro de 2010 às 00:37
Bastante interessante este artigo sobre o dia dos Fiéis Defuntos.

De Salientar que hoje em dia já podemos enviar flores para os entes queridos no dia dos Finados defuntos através do site:





De Florista a 20 de Outubro de 2010 às 00:38
Bastante interessante este artigo sobre o dia dos Fiéis Defuntos.

De Salientar que hoje em dia já podemos enviar flores para os entes queridos no dia dos Finados defuntos através do site:





Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. A CONTRACAPA DE «O NOME D...

. O MEU NOVO LIVRO «O NOME ...

. A VOZ DO VENTO CHAMA PELO...

. ALGUMA COISA ACONTECE

. HISTORINHA - A TOUPEIRA E...

. CALENDÁRIO - AGOSTO

. LEMBRAR AMÁLIA

. PARABÉNS SARRABAL - E VÃO...

. CERTEZA

. SÃO JOÃO - O SOL E AS PLA...

. PORTUGAL A ARDER - O FOGO...

. HISTORINHA - A ABELHA E O...

. ALGUÉM SE LEMBRA?

. SANTO ANTÓNIO - AS MARCHA...

. CANTO DO VENTO

. ZECA AFONSO

. 23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL...

. DEDICATÓRIA

. SEMANA SANTA - O GALO DAS...

. CELEBRAÇÕES DA QUARESMA -...

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.links

.Contador

conter12
blogs SAPO