Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016

FELIZ NATAL E BOM NOVO ANO 2017

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 São os meus votos a todos os leitores do «Sarrabal».

SMC

publicado por sarrabal às 02:17
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OUTROS NATAIS

Cópia de Cópia de IMG_3686.jpg

Onde a magia dos Natais de outrora

O presépio dos olhos da infância

São José, a Virgem, o Menino

Figuras modeladas

Quase gente

A mostrar-se ao espanto

Dos pastores que vinham

Em fila pelo musgo dos caminhos

Para ofertar cordeiros e presentes.

 

Onde a azáfama do rumor das mãos

Nos alguidares de barro onde a farinha

A abóbora, os ovos, o fermento

Tomavam forma e gosto tão distantes.

 

Aonde o sono arredio que não vinha

Nessa Noite Sagrada em que os pinheiros

Choram saudades de bosques e de estrelas

Sob a caruma de luzes e de enfeites.

 

Onde o mistério que seguia os passos

Dos adultos no ranger das tábuas

Em nossos passos furtivos de criança

Na ânsia de encontrar em qualquer canto

De barbas e de saco o Pai Natal.

 

Quantos Natais assim em que a Família

Se reunia inteira à grande mesa

Da sala de jantar tão velha e gasta

Mas que nessa noite por magia

Transformava em cristal os vidros baços.

 

Quantos presépios retidos na memória

Quantos aromas ainda a Consoada

Quantos sons a deixar nos meus ouvidos

Os risos, os beijos, os abraços.

 

Quantas imagens cingidas na penumbra

Desta lembrança que se fez saudade

Dos rostos, dos gestos, das palavras

Na lonjura das vozes e da Casa.

 

Noite Divina em que torno a ser criança

Ante o meu olhar adulto e me desperto

Na emoção que nos traz os anos:

 

O meu Natal é hoje mais concreto

Mas muito menos belo e mais deserto.

 

Soledade Martinho Costa

 

publicado por sarrabal às 02:12
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UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - O AZEVINHO

Ilex1.jpg

A manhã alonga o passo pelos campos fora. E não se detém. Na pressa de chegar ao fim do dia nem sequer repara no tapete de azedinha e de trevilho, lado a lado, como dois bons amigos que muito se prezam. Onde está um, está o outro. O trevo-dos-prados no anseio de nascer com quatro folhas, para dar sorte à mão que o descobrir. As azedas a enfeitá-lo de amarelo, nas pétalas que fecham ao entardecer.

Mas o azevinho também marca encontro nesta altura do ano. Num emaranhado de picos e segredos, contente por se saber esperado, desponta pelas toiças a mostrar as bagas vermelhas na folha envernizada – que há-de enfeitar Dezembro, quando for Natal.

À noite, colocado sobre a mesa da Consoada, simboliza «o espírito da reunião familiar» e «a celebração da união da família». E ele sabe. E fica feliz por merecer uma tal distinção!

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 02:05
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OUTRO MILAGRE

Aleppo, Zordi Bernabeu Farrús.jpg

De pedra

Colmo

Tábuas

Papelão

Sob telhados de zinco

Ou telha vã

Eis os estábulos

As grutas

Os abrigos

Onde nascem e dormem

Os meninos nus

Há mais de dois milénios.

 

Herdeiros de um legado

Instituído por decreto-lei

Réplicas

De outro Menino

Que o Anjo anunciou

Nascido na lapinha de Belém

Não têm a seus pés

Pastores nem reis

Dormem

Dormem, simplesmente

Pelos presépios

Adorados por ninguém.

 

Nas reservas surdas

Ao apelo das florestas

No fogo das areias

Onde a terra se nutre

Das almas e dos corpos

Nos ghettos onde o leite

Nos seios seca

Ao explodir das bombas

Nos bairros marginais

Nos prédios em ruínas

Nos quartos alugados

Nos tugúrios onde não chega

A Estrela Peregrina.

 

Templos sagrados

Onde as mães

Esvaído o ulo vaginal

Debruçam sobre o ventre as mãos

Cortando aos filhos

Esquecidos

Humilhados

Sem pão

Amparo ou pátria

O cordão umbilical.

 

Talvez para que fujam

E repetido seja outro milagre

À revelia dos homens

Como então.

 

Soledade Martinho Costa

 

Foto: Zordi Bernabeu Farrús (Aleppo)

publicado por sarrabal às 01:55
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«SEARINHAS» DE NATAL

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Associadas à quadra natalícia, as «searinhas», «cabeleiras», «centeiinhas», «tacinhas de Adónis» ou «searas de Jesus», aparecem, sobretudo, nas zonas rurais, colocadas junto dos oratórios e presépios erguidos em casa, nas capelas e igrejas, oferecidas ao Menino Deus com o pedido de «boas colheitas».

 

Semeadas três semanas ou um mês antes do Natal, utilizam-se para a sua germinação bagos de trigo, milho, aveia e outros cereais, humedecidos em pequenos recipientes mantidos, quer ou não, ao abrigo da luz.

 

Mas também em terras de gente do mar (caso de Olhão, e um pouco por todo o Algarve) a tradição se mantém, procedendo-se à sementeira das «searinhas», em pratos ou taças, no dia 8 de Dezembro (com trigo, centeio, linhaça, ervilhaca ou grão-de-bico). Na véspera de Natal as «searinhas» estão prontas e «arma-se o Menino», ou seja, dispõem-se, quase sempre sobre uma mesa, coberta com uma toalha branca, bordada ou de renda,  várias caixas em degrau, de cartão ou de madeira, forradas conforme o gosto, ou enfeitadas com paninhos brancos bordados.

 

No lugar mais alto dessa espécie de trono coloca-se então a imagem do Deus Menino e pelos degraus do trono dispersam-se as «searinhas», alternadas com laranjas. Este, o presépio mais tradicional, embora surjam outras variantes ao gosto de cada um. O mesmo género de presépio verifica-se na ilha da Madeira, tomando ali o popular nome de «lapinha».

   

As «searinhas» aparecem ligadas a diversas ocasiões cíclicas festivas, religiosas ou não, caso das celebrações do Divino Espírito Santo, dos Santos de Junho (particularmente a São João) e do Carnaval – a lembrar que já na Antiguidade as mulheres da Frigia as semeavam por alturas especiais, levando-as em recipientes a germinarem ao sol, para ficarem verdes, enquanto entre nós, se apresentam, por vezes, esbranquiçadas, devido à germinação ter o seu processo em local sem luz.

 

Soledade Martinho Costa

  

 

publicado por sarrabal às 01:49
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COMO SE FOSSE HERODES O MOTIVO

«Madona e menino» (Pormenor), sandro Botticelli. 

Que foi que aconteceu

Jesus?

Eu peço que me digas.

 

Se o meu olhar agora

É mais profundo

Se a minha esperança

É quase uma saudade

E se instalou o medo

Pelo Mundo.

 

Que foi que aconteceu

Jesus

Nesta Noite de Incenso

E Liturgias?

 

Onde estão os pastores

E os seus afagos

Porque vestem de luto

Os Três Reis Magos

Que te oferecem no berço

As mãos vazias?

 

Que foi que aconteceu

Jesus?

Eu peço que me digas.

 

A razão desta angústia

Deste peso

Que em mim se fez prisão

E fez cativo.

 

Desta mágoa

Que me chega ao coração

Como se fosse Heródes o motivo.

 

Desta mágoa

Que me chega ao coração

Em línguas que não falo

Nem conheço.

 

Em línguas

Onde apenas reconheço

Em cada direito violado

Em cada morte

Em cada grito

O choro das crianças

Universal e aflito.

 

Soledade Martinho Costa

 

Tela: «Madona e o Menino» (pormenor), Sandro Botticelli

publicado por sarrabal às 01:47
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Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2016

NATAL - AS FOGUEIRAS DO MENINO

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Um dos rituais que perdura até aos nossos dias, principalmente em Trás-os-Montes, Alto Douro, Beira Alta e Beira Baixa, mas também no Nordeste Transmontano, sendo menor ou mesmo nula a sua tradição a Sul, diz respeito às «Fogueiras do Menino», «Fogueiras da Consoada» ou «Fogueiras do Galo».

 

Sob a influência da Igreja, a fogueira profana de adoração solar dos Romanos, passou a ser cristianizada e a servir de ritual cristão ao culto divino, testemunhado na quadra natalícia a Jesus Cristo – considerado o «verdadeiro símbolo do Sol que vai nascer, para iluminar todo o homem que vem ao Mundo».

 

Costume que se processa quase sempre durante a noite, cabe ainda hoje às raparigas enfeitar as igrejas para a Missa do Galo, enquanto aos rapazes corresponde a tarefa do roubo ritual do «madeiro», do «cepo» ou do «canhoto» – noutros tempos com os interessados em colaborar a serem chamados por essas aldeias com o auxílio de um búzio e a envolverem as rodas dos carros de bois com «baraços» de palha de modo a evitar o barulho, para que tudo se processasse no maior silêncio.   O transporte, conforme a tradição, continua a ser feito, por vezes, em carro roubado ou utilizado sem autorização dos respectivos donos, puxado por animais, ou empurrado pelos próprios rapazes, num específico rito sagrado, embora, actualmente, seja mais vulgar a utilização dos tractores com o respectivo reboque.  Noutros casos, a lenha é roubada dias antes do Natal, ou ao longo do ano, leiloada ou oferecida em promessa. Há mesmo quem a deposite à porta de casa, na intenção de que seja «roubada» pelo grupo que chama a si essa tarefa.

 

Nas fogueiras acesas em casa durante estes dias, verifica-se, na maioria dos casos, idêntico preceito: o de utilizar-se apenas lenha roubada, segundo a crença «para que a lenha assim ardida proteja o lar e a família».

 

Ateadas ao entardecer da véspera de Natal, as fogueiras ardem, geralmente, até ao dia de Reis, no adro das igrejas, segundo o povo «para aquecer o Menino», ficando todos os habitantes do lugar encarregues de manter o lume sempre aceso.

 

Em muitas aldeias e lugares do nosso País, as populações continuam a juntar-se ao redor das «Fogueiras do Menino» para cantar, dançar e comer filhoses, aproveitando o lume do braseiro para assar as febras do porco e saborear as batatas tostadas (cozidas primeiro em potes de barro), como se fazia (ou faz ainda) no Sabugal (Beira Alta).

 

O rito das fogueiras de Natal encontra-se espalhado em muitos países da Europa, casos da França, da Itália e da Inglaterra, entre outros.  Na Antiguidade, o ritual sagrado do fogo, ou lume novo, acontecia por ocasião do solstício do Inverno, com as fogueiras acesas, tendo por intenção que o Sol voltasse a brilhar com maior intensidade, temendo-se, particularmente nas comunidades rurais, que as trevas afastassem definitivamente a luz e o calor, situação que correspondia a um acentuado declínio da luz solar e respectiva diminuição gradual do sistema diurno, até culminar no dia menor do ano – o dia de Natal.

 

Resquícios de festas solsticiais gentílicas, muitas delas acabaram por conservar-se na tradição dos povos, a par das celebrações da liturgia cristã, ocupando um espaço importante que nos foi legado pelas religiões e civilizações antigas, cabendo-nos defendê-lo e preservá-lo, não apenas no que respeita às fogueiras de Natal, mas ainda a outros ritos e festas de carácter etnográfico cíclico, onde se misturam e confundem rituais cristãos e práticas de raiz politeísta e pagã.

 

Por outro lado, segundo alguns autores, sendo o galo considerado um animal solar, é natural que se dê o nome de «Fogueiras do Galo» às fogueiras do Natal e a designação de Missa do Galo à primeira missa da noite de 24 para 25 de Dezembro. Ainda assim, e numa forma mais simplicista, se diz também que muitas pessoas se deslocavam de lugares distantes para assistirem à Missa do Galo. De modo a evitar que voltassem a fazer a caminhada de regresso sem grande repouso e porque não tivessem onde pernoitar, acendia-se para elas o «madeiro». Aconchegadas ao seu calor passavam então o resto da noite, quase sempre muito fria, petiscavam, bebiam, cantavam ao Menino Deus e, mal a manhã rompia, voltavam a suas casas.  

 

Simbolicamente, o «madeiro» poderá representar ainda o próprio Inverno, na intenção de aquecer o Menino Jesus; o «madeiro da Cruz de Cristo» ou «o fogo que desceu dos Céus», referente à iluminação dos Apóstolos pelo Espírito Santo, sob a forma de línguas de fogo, depois da elevação de Jesus Cristo aos Céus.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII

Ed. Círculo de Leitores

Foto:  Pomares, Arganil

publicado por sarrabal às 02:03
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Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2016

CALENDÁRIO - DEZEMBRO

Ilex1.jpg

Enfrenta o corvo

O frio

No luto que o defende.

 

Há teias de cristal

A enfeitar o tojo

O leito das ribeiras

Inunda-se de luz.

 

Dezembro

Põe na mesa

O azevinho e fritos

 

Ergue o Natal

Presépios

Ao Menino Jesus.

 

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 23:29
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