Quinta-feira, 27 de Junho de 2013

COISAS DA VELHA DO ARCO - OS OUTROS Á NOSSA VOLTA

 

Já em tempos, numa crónica publicada aqui, no blog, falei nas chamadas «inconveniências infantis» – que não deixam de ter a sua graça (quando recordadas à distância), muito embora, na altura, deixem os pais, principalmente, numa situação embaraçosa.

 

Mas, a verdade, é que também há uma outra espécie de «inconveniências» praticadas pelos próprios pais. Inconveniências ou incongruências, ou outro nome que lhe queiram chamar.

 

Sobre este assunto muito haveria a contar. Todavia, limitar-me-ei a relatar três casos, passados já há alguns anos. Quem escreve, como eu, costuma apontar umas linhas quando algum assunto lhe desperta a atenção. Se não se debruça logo sobre ele, alguma razão o impediu – mas não esquece o episódio e, mais tarde ou mais cedo, volta a ele, para recordá-lo num texto, geralmente, numa crónica. É o caso. Vamos, então, ao primeiro:

 

Numa das emissões da Televisão (não me recordo qual o canal), contou-se o facto de uma criança, um menino, necessitar de ser operado, por ter grande dificuldade em articular as palavras. Dificuldade que o tornava quase mudo. Depois da cirurgia, havia muitas hipóteses de vir a falar. Com essa intenção abriu-se uma conta e a solidariedade pública (anónima ou não) fez o resto. Os pais, pessoas de fracos recursos, não podiam suportar as despesas.

 

Mas eis que surge o impensável. Tempos depois, é anunciado pela TV (lembro-me de ter sido o pivot José Rodrigues dos Santos a dizê-lo), que os pais do menino «com o dinheiro angariado, destinado à operação, haviam decidido comprar um automóvel. À pergunta porquê tal decisão, terão respondido: «assim o menino distrai mais, não é verdade?»! Que tirem os leitores as suas conclusões (por mim, desisto!).

 

O outro caso, diferente, mas igualmente insólito, a que assisti pessoalmente, passou-se numa loja de bijutaria no Algarve. Um casal entra na loja. Ela: saia travada e curtíssima, sapatos de salto altíssimo, unhas longas e vermelhas, muita pintura, muitas pulseiras, muitos anéis, muitos colares. Ele: sapato de tacão alto, camisa estampada (tipo havaiana), aberta, a mostrar um grosso fio de ouro, vários anéis e uns óculos espelhados. Enfim, cada qual deve vestir-se conforme gosta. Mas este casal dava, realmente, nas vistas.

 

Ao serem atendidos pela solícita empregada, diz a mulher: «Sabe, eu procuro um colar de contas brancas e pretas para uma menina de oito anos. Se tiver pulseira a condizer, melhor!».

 

Saí da loja sem saber se havia ou não o colar e a pulseira de contas brancas e pretas para a tal criança. Mas fiquei a pensar nas minhas netas, ataviadas com um colar e uma pulseira assim – e fiquei absolutamente arrepiada…

 

O último episódio teve lugar numa pastelaria em Condeixa-a-Nova. Também aí estive presente.

 

À espera de ser atendida, reparei que um menino, aparentando uns quatro ou cinco anitos, comia um bolo com creme, perto da mãe. Lambuzado e com as mãozitas sujas, o que fazia a criança? Arredio de cerimónias, ia limpando as mãos ao casaco de um senhor que se encontrava à sua frente, sem que este desse por isso. Embora preocupada com o que via, achei que não devia interferir. Iria dar a impressão (sobretudo à criança) que estaria a acusar o menino. A certa altura, a «vítima», apercebendo-se, finalmente, de que estava a servir de guardanapo, alertou a mãe do pequenito, desatenta à diabrura inocente do filho. Com um à-vontade inacreditável, eis a sua resposta, breve e convicta: «Ah, isso limpa-se bem!».

 

A mim, não me pareceu. Agora o pedido de desculpa que se impunha, e a chamada de atenção para a criança, que nem se apercebeu do sucedido, esses ficaram «para o tempo das calendas gregas» – enquanto o dito senhor saía do estabelecimento, visivelmente incomodado, a pensar (mais do que certo!) que o pão que havia comprado lhe havia ficado caro -  considerando o preço a pagar na lavandaria pela limpeza do casaco.

 

Soledade Martinho Costa

 

publicado por sarrabal às 21:28
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Quarta-feira, 12 de Junho de 2013

SANTO ANTÓNIO - A TRADIÇÃO DA FESTA

 

Das festividades em honra de Santo António, realizadas em Lisboa no século XVII, as touradas e o teatro eram considerados os divertimentos de maior agrado popular, com “verdadeiras multidões a deslocarem-se ao Rossio e ao Terreiro do Paço”.
  
Ali  decorria o arraial e a feira e se armavam os palanques de madeira para a Tourada de Santo António, efectuada, ao que parece, desde os finais do século XVI, primeiro no Terreiro do Paço e depois no Rossio.
  
Anteriormente, as celebrações restringiam-se aos importantes actos litúrgicos, passando depois a comportar manifestações como a tourada e outros divertimentos: cavalhadas, música, danças, pantominas e fogo-de-artifício – festejos que contavam com grande adesão popular e que cessaram após o terramoto de 1755.
  
No século XIX a tourada passou a ter lugar na Praça de Touros do Campo Pequeno, inaugurada em 18 de Agosto de 1892 (que veio substituir a Arena do Campo de Santana, demolida em 1889), enquanto os espectáculos de teatro, também eles a constituir um ponto alto das celebrações, eram efectuados no adro da Sé de Lisboa.
 
Por essa época as festas realizavam-se duas vezes no ano: em Abril – data da trasladação do corpo de Santo António para a Catedral de Pádua, que se foram resumindo aos actos litúrgicos – e a 12 e 13 de Junho, a comportar cerimónias religiosas em todas as igrejas, capelas ou ermidas sob a sua invocação ou onde existisse um altar dedicado ao santo, se bem que as grandes homenagens oficiais fossem as que se efectuavam na igreja e Casa de Santo António, à Sé, com a presença da realeza e da edilidade.
  
As cerimónias tinham início treze dias antes, com a trezena a Santo António, realizadas à tarde na Sé de Lisboa, e a distribuição de um bodo aos pobres, que se repetia no dia 12, constituído por oferendas: “fogaças, caracoladas, “condessas” e doces”. Nesse dia era tradição contemplar a família real, que recebia ainda um ramo de cravos: o “ramalhete de Santo António”.
                                                   
Reconhecido como o protector das raparigas solteiras, muitas eram, segundo a crença do povo, as fórmulas usadas para granjear os favores do santo: deitar a imagem de Santo António a um poço, mergulhar a imagem de cabeça para baixo nas águas do mar, amarrar a imagem à perna de uma mesa, deixá-la ao relento ou com o rosto voltado para a parede. Faziam-se, mesmo, petições por escrito, copiadas de vários opúsculos populares, que continham os pedidos já redigidos, conforme os casos e a preferência de cada um. Havia, até, quem fizesse dessa prática um verdadeiro ofício, copiando para o respectivo papel os pedidos dos crentes, que passavam do ”escrivão” directamente para o santo – sendo em maior número aqueles que provinham das mulheres solteiras…
 
O povo, além de se associar aos actos religiosos, rendia a sua homenagem ao santo nas ruas, largos, pátios e mercados, com bailaricos improvisados e demais folguedos, que se foram alargando a outras zonas da capital e enriquecendo em termos de animação popular, até a efeméride ser aproveitada, em 1922, para a realização das Festas da Cidade.
 
Por esses anos, organizavam-se pequenos arraiais por toda a cidade de Lisboa, onde se tocava e dançava, comia e bebia pela noite dentro, com o lume sempre ateado das fogueiras, o estrelejar de foguetes e morteiros, as iluminações de rua, os ranchos, as tômbolas, as quermesses e bazares com os respectivos sorteios (a que se juntava a Lotaria de Santo António, até hoje mantida), e os vendedores de alcachofras e manjericos a dar à cidade um aspecto diferente e festivo, embora tipicamente urbano na forma de fazer a sua festa.
  
Além dos mercados de São Bento e 24 de Julho, o local mais concorrido, característico e barulhento era o antigo Mercado da Praça da Figueira (demolido em finais da década de quarenta), ponto de reunião dos ranchos e das marchas dos bairros populares e também lugar dos bailaricos, dos petiscos rituais e da venda dos frutos da época e das plantas aromáticas propiciatórias.
  
Os chafarizes públicos espalhados pela cidade eram igualmente procurados por quem se concentrava ali em arraial, a tornar as fontes num elemento ao mesmo tempo mágico, profiláctico e simbólico-sagrado.
 
Em 1934 Santo António é proclamado pelo papa Pio XI patrono da cidade de Lisboa.

 

 

Soledade Martinho Costa
 
In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VI
Ed. Círculo de Leitores.
publicado por sarrabal às 17:35
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Segunda-feira, 10 de Junho de 2013

DIA DE PORTUGAL - DIA DE CAMÕES

«Camões», Almada Negreiros

 

Tão mágica destreza
Tão misterioso encanto
Só aos Grandes
Aos Imortais Poetas
O dom de assim escreverem
Lhes concede
O segredo que faz cantar as fontes.
 
Por isso
O copiar o jeito do teu punho
Ao segurar a caneta com que escrevo
Me tolhe o gesto
Me ruboriza a face
Ao atentar na grandeza do teu Canto
E na pobreza dos versos que te faço.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro «A Palavra Nua»
Ed. Vela Branca
                    
 
publicado por sarrabal às 13:09
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Sábado, 1 de Junho de 2013

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA - LEI

 

Se a vida nos ensina e nos constrói

Se ousados são os passos

Neste chão que pisamos sendo o nosso

Firme o apertar das mãos

Fraterna a canção que nos embala

Clara a voz nas preces que acendem clarões

Que o Sol aqueça o seu fulgor eterno

Que se vistam de cores as flores da Terra

Que se cale a pergunta que hoje faço:

 

Não chega já o espanto metralhado

A fome numa boca de criança

A seara esventrada

O ódio a crepitar na chama?

 

Se uma coisa de nada faz a guerra

Se a guerra é uma coisa abominada

Que crime imputará matar-se a guerra?

 

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 12:52
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