Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

REINÍCIO

 

Tocar os teus cabelos

Os teus ombros

E deslizar

Tão lesta

E sabiamente

Por entre os dias todos

Que perfazem

Dos anos o avesso

No meu gesto

Que o tempo

Ao saber-te

Tão amado

Avance no passado

E o presente

Em vez de caminhar

Rumo ao futuro

Seja o trilho

De novo palmilhado

Agora do limite

Ao recomeço.

 

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 00:21
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Sábado, 14 de Maio de 2011

POR MÃO PRÓPRIA - Responde: JOÃO DE MELO

 

Coloque-se a infância/ no meio de uma ilha. / Acorde-se a distância/ no olhar. / Tome-se nas mãos a neblina/ dê-se o coração/ à voz do mar.

S.M.C.

 

DESABAFO: A voz inclina-se sobre a atenção compassiva de quem ouve. Olha bem para quem falas. Nunca digas nada que os outros não possam ou não devam dizer de ti. Alternativa: abre uma pequena cova na terra, murmura aos ouvidos da terra aquilo que só ela sabe ouvir.

 

SUGESTÃO: O caminho mais curto entre a hipótese e a vontade de ir e chegar seja onde for.

 

DISPARATE: Quando um político diz: «Não, não é verdade, eu nunca disse isso» – comete-o em duplo; ele mente acerca da mentira dita, disparata sobre um disparate por si cometido e assim sucessivamente.

 

ESCÂNDALO: Em certos casos e para certas pessoas, resulta de uma simples inversão entre os vícios privados e as públicas virtudes. Noutros casos e para outras pessoas, o escândalo é uma forma natural e até um modo de vida aparentemente honesto.

 

APLAUSO: Costuma ser o reconhecimento público de um mérito; se o reconhecimento é interesseiro, o aplauso torna-se letal como um veneno doce que, em vez de animar, leva consigo a alma do aplaudido.

 

EXPECTATIVA: Menos grave do que uma doença chamada ansiedade, por sua vez menor do que a doença da angústia – sendo esta a única expectativa de quem não sabe o que espera, nem o que o desespera.

 

PREOCUPAÇÃO: Espécie de enxaqueca provocada por um estado de vigília, de vigia e algo que nos aflige.

 

EMOÇÃO: Um arco que se eleva junto de nós, um sistema de vasos comunicantes que provoca a ascensão dos nossos fluidos até ao olhar comovido por um rigoroso sentido da alma.

 

AMOR: Imagem sobre alguém ou alguma coisa que idealizamos, como forma de sublimar a oposição entre o objecto do desejo e a realidade do que ele emana.

 

SAUDADE: Momento de pausa que serve para reconhecer a existência do tempo, para evocar o que nele deixámos suspenso, e depois vir de regresso a tudo o que no tempo não se repete.

 

SONHO: Pequena utopia que, ao contrário desta, não se destina a mudar o mundo dos outros, mas sobretudo o nosso.

 

MEDO: Nada é maior em nós do que a ideia e o facto da morte. Com fé ou sem esperança, a morte é a evidência suprema do homem. Mesmo o santo, porque crê, tem esse difuso mas absoluto medo dela. A fé não depende da inteligência, mas não passa de um acto inteligente que em si disfarça aquilo que nos confunde na morte. Ela é o fim, mas não a finalidade da vida.

 

INTIMIDADE: A parte carnal dos sentidos embalados no sentimento e no segredo do outro – do outro que faz parte de nós, daquilo que em nós e nele é eterno à medida de ambos.

 

FIGURA PÚBLICA MAIS: Há uma coragem específica e uma grandeza natural na pessoa pública de sentido positivo. As pessoas não sabem nem sequer imaginam o que essa coragem lhe exige.

 

FIGURA PÚBLICA MENOS: Pode ser definida exactamente como a anterior, com excepção da responsabilidade ética e moral que a tal coragem impõe. Sentido negativo da figura pública: pior que a inutilidade, o senso ilegítimo, o desmerecimento, a injustiça que premeia a figura pública – sem que ela mesma saiba porquê, para quê.

 

CALENDÁRIO: Alguém pensou que o tempo, sem esta medida da sua própria fragmentação, seria um caos, uma desordem. O calendário prova não só que o tempo existe como prova que, sem uma ordem de medida, seria eterno, estranho e nunca possuído pelo homem.

  

Autoria e coordenação: Soledade Martinho Costa

In Notícias Magazine/1999 

 

Nota. – Eu sei, João, que vai ficar surpreendido ao deparar com este seu texto. É com muito prazer que volto a publicá-lo. Acredito que gostará de o reler. O tempo passa (os anos!) e a memória traz-nos as recordações. Lembra-se das quintas-feiras à noite na Associação Portuguesa de Escritores, quando um grupo de jovens se reunia para tentar vencer no campo da Literatura? Mulheres, apenas eu. Comigo e com os outros, o João. Depois de vários meses a caminhar para a Rua do Loreto, resolvemos desistir. Saímos da «Comissão do Autor sem Editor» na mesma noite. Alguns conseguiram realizar o seu sonho, outros, perderam-se de nós. Digo nós, porque cá estamos, com os nossos livros editados. Nesses anos, quem adivinhava que o João iria receber, um dia (além de outros cinco importantes prémios literários), o Grande Prémio do Romance e Novela da APE (atribuído à obra «Gente Feliz com Lágrimas», que continua a ser o meu livro predilecto)?

Não nos temos falado ultimamente. Mas tive conhecimento, pela Jacinta, que continua em Madrid, como conselheiro cultural na Embaixada de Portugal. Bem sabe como admiro a sua obra. A minha amizade permanece. Intacta. A minha admiração por si, também. Com carinho, guardo as cartas que me enviou para Santiago do Cacém, recorda-se? Estava a despontar o meu livro preferido…

Beijinho, João, até um destes dias!

S.M.C.

                                                              

 

publicado por sarrabal às 00:25
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Segunda-feira, 2 de Maio de 2011

SEGREDOS - O «JORNAL DAS TRASEIRAS»

  

(Ao VERGÍLIO PIRES)

 

As traseiras da minha casa, na rua onde moro, em Alverca do Ribatejo, não parecem as de uma cidade. Continuam iguais às traseiras que sempre foram, quando Alverca do Ribatejo era a pequena vila que conheço desde a infância. Por essa época, a parte «nova» da vila contava, apenas, com a Avenida Capitão João de Almeida Meleças e a minha rua, paralela à avenida. Nesse tempo, existiam ainda algumas quintas. O resto, era o campo espraiado até à estação dos comboios.

 

Na minha rua, pouco ou nada mudou nestes anos todos, que já são muitos. Por eles passou a minha infância, a infância dos meus filhos e agora a infância dos meus netos. As traseiras não sofreram alterações. Continuo a abrir a janela do meu quarto ou as janelas da marquise e a contemplar os mesmos quintais, divididos por muros baixos, encostados uns aos outros, e a agradar-me do que vejo: a grande e velha figueira – várias vezes cortada e outras tantas renascida –, as laranjeiras, as nespereiras, os limoeiros e as plantas que enfeitam de flores os canteiros de muitos desses quintais mal desponta a Primavera.

 

Pelas varandas, janelas, terraços e marquises, as vozes dos vizinhos, também elas conhecidas de muitos anos. Com a teima de algumas, a chamarem-me «menina»! E o mais engraçado, é que gosto. Sabe-me bem ouvir essa ternura tão sincera vinda de pessoas que muito estimo e que me fazem falta. Que me vão fazendo falta, melhor dizendo, conforme esse mimo se vai calando, em conformidade com a ordem natural das coisas.

 

Habituei-me a essas vozes desde sempre. Por elas, tempos atrás, sabia quase tudo o que se passava na terra, ou mesmo fora dela, sem necessidade de ler o «Notícias de Alverca» ou o «Jornal de Alverca», editado pela Junta de Freguesia.

 

A este «jornal falado» dei o nome de «Jornal das Traseiras». Por ele tinha conhecimento de quem ia casar e o dia do casamento; de quem se tinha divorciado; de quem tinha falecido; de quem fora mãe de um menino ou de uma menina; de quem havia sido internado no hospital; de quem tinha tido «alta»; da data da chegada dos familiares emigrados no estrangeiro; se os filhos ou netos tinham tido boas notas na escola; se os medicamentos estavam ou não a dar resultado; se iam à farmácia, à feira, ao mercado, ao «correio», ao médico da Caixa…

 

Das varandas para as janelas, das janelas para as varandas, terraços e marquises, havia um número considerável de «jornalistas». Sem sair de casa, sabia o preço do safio ou da pescada, do feijão verde, das batatas, dos morangos ou das cerejas, mal estas apareciam no início de Maio. Ouvia também pequenos relatos de telenovelas, ou se o filme do serão anterior tinha agradado ou não.

 

As vozes das traseiras traziam-me, diária e pontualmente, frases como estas, trocadas entre si – visto as «jornalistas» serem, maioritariamente, mulheres: «Vou fazer o almoço. Até logo!»; «Vou acabar de arrumar a cozinha!»; «Vou passar a ferro!»; «Apanhei uma constipação que nem posso!»; «Hoje ainda chove!»; «Disseram no telejornal que no Alentejo estão mais de 40 graus!»; «Então, Francisca, estás melhor?»; «Olá, João, tás bom?»; «A minha neta acabou o curso. Já é doutora!». E era assim. Digo era, porque já não é.

 

A «directora» do «Jornal das Traseiras», a dona Cesaltina, sabia melhor do que ninguém pôr as outras «jornalistas» em plena e fecunda produtividade noticiosa. Às vezes dizia para comigo: «Se a dona Cesaltina um dia nos falta, lá se vão as notícias e a alegria das traseiras!»

 

E é isso. A vida não falha. O destino de cada um de nós está nas suas mãos. Assim aconteceu com a dona Cesaltina. Na varanda, quando o Inverno se instalava, sentava-se, em dias de Sol, a conversar com o marido, o senhor Alfredo, tão atentos um ao outro, que mais pareciam dois namorados. No Verão, pela tardinha, ou após o jantar, sentavam-se, igualmente, em amena conversa, recebendo a brisa que vem da serra ou do Tejo, quando é caso disso. A voz e as gargalhadas da dona Cesaltina deixavam adivinhar uma coisa muito rara hoje em dia, chamada alegria de viver. Mas também a alegria tem o seu prazo de validade. Quando não é o caso de ser distribuída por cada um de nós de forma tão reduzida, tão escassa, tão abreviada, que quase não se dá por ela.

 

Num dia de Dezembro a dona Cesaltina recebeu uma notícia. De todas a pior que se pode dar a uma mãe. A mais sofrida, a mais dolorosa de quantas este Mundo tem para oferecer: a da morte do filho mais novo, a trabalhar na Holanda.

 

«O Jornal das Traseiras» emudeceu durante vários meses. Dona Cesaltina deixou de aparecer na varanda. Ao voltar, vestida de negro, como o senhor Alfredo, falava baixo com o marido e com as vizinhas. Perdeu parte da sonoridade da voz e com ela a alegria. Não tornei a ouvi-la rir. Com o passar do tempo, sorria, apenas, de quando em quando. Aos poucos fui deixando, também, de ouvir as «notícias» a que estava habituada. Mas a vida continua, por maiores que sejam os desgostos e as lágrimas choradas. Mesmo quando uma mãe vai ao cemitério depor flores na campa de um filho.

 

Nesse aspecto, sim, as traseiras mudaram. Deixaram de ter a vivacidade e a graça que tinham. É verdade que os anos passam. E passaram alguns. Os suficientes para começarem a aparecer alguns rostos novos e desconhecidos nas janelas, nas varandas, nos terraços e marquises das casas. Na plateia deste teatro em que vivemos, há que ceder o nosso lugar. Há que partir quando chega a hora.

 

Poucos anos após o falecimento do filho, foi a vez do senhor Alfredo, o marido da dona Cesaltina. Ataque de coração. Passei a ver a dona Cesaltina na varanda, mas sempre calada. O luto do filho, que nunca tirou, parecia mais negro, agora, junto com o luto pelo marido, Não voltou a sentar-se na cadeira, ao Sol, quando era Inverno, ou a apanhar a brisa do fim da tarde, vinda da serra ou do Tejo, quando era Verão. O «Jornal das Traseiras» tinha chegado ao fim.

 

Nestes últimos tempos notei a ausência da dona Cesaltina. Porta da cozinha fechada, janelas de persianas corridas. Os vasos com o desalento das plantas abandonadas. Os estendais despidos da roupa costumada. Soube que estava doente e internada num hospital em Lisboa. Passaram alguns meses. Não voltou. Dizem-me que está numa cadeira de rodas e vive em casa da nora.

 

O silêncio que se instalou nas traseiras é hoje cortado pelo rumorejo do vento nas copas das árvores, principalmente nas ramadas da velha figueira que fica dois andares abaixo da janela do meu quarto. Oiço a tristeza desse silêncio trazido até mim na ausência das vozes. Na ausência da alegria na voz da dona Cesaltina. Faltou a «directora» do «Jornal das Traseiras» e as restantes «jornalistas» abandonaram, aos poucos, a «redacção». Já não há notícias trocadas das varandas para as janelas, das janelas para as varandas, para os terraços e marquises. Só este silêncio das vozes conhecidas e estimadas se deixou ficar, guardado pelo ladrar dos cães que moram nos quintais, divididos por muros baixos, encostados uns aos outros.

 

Por vezes, tenho a sensação de que mudei de terra, de casa, de rua – embora as minhas traseiras permaneçam iguais. Só o vento para me fazer acreditar que a grande e velha figueira continua a existir, assim como as laranjeiras, as nespereiras, os limoeiros… E as flores, que teimam em salpicar de colorido os canteiros dos quintais quando chega a Primavera.

 

Soledade Martinho Costa

                                  

 

                            Pelourinho de Alverca do Ribatejo (1530)

 

publicado por sarrabal às 22:06
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