Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

AS CRIANÇAS TODAS

 

 

E a chuva cantou

Na face das águas

E os rios cresceram

Galgaram as margens

E as aves de espanto

Soltaram as asas

E as crianças todas

Sob um céu de anil

Atentas

Caladas

Escutaram palavras

Vestidas de novo

Um conto de fadas

Estava-se em Abril.

 

E anões e gigantes

Bruxas e duendes

As fadas do mal

As fadas do bem

Príncipes

Pastores

Mendigos e reis

Trocaram de fato

Ideias e leis.

 

E os ventos sopraram

Varreram

Uivaram

As nuvens toldaram

O azul dos céus

E os homens todos

Atentos

Ousados

Sentiram-se irmãos

Teimaram palavras

Vestidas de novo

Chegaram os corpos

E deram as mãos.

 

E riu-se

Chorou-se

Mas uma paz doce

Ficou

Instalou-se

Ganhou direcção.

 

Hoje

A claridade

Permanece viva

Constante

Total

Perdeu-se

Ganhou-se

Como é natural

Porém

Conquistou-se

O que era vital.

 

Os anos passaram

Outros mais virão

Dizer o futuro

Quisera e não sei.

 

As crianças todas

Que entraram na História

Por nós e por elas

Em tempo o dirão.

 

Soledade Martinho Costa

 

(25 de Abril de 1985)

 

publicado por sarrabal às 01:31
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Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

REPETIR A ESPERANÇA

 

Rejeito em mim

O peso das palavras descontentes

Aquele que nos tira o sono e o engenho

De ultrapassar esta cortina

Urdida em nevoeiro

Que se abateu aos poucos

E hoje cobre por inteiro

O meu País

Meu campo por lavrar

Desprovido de espigas e sementes.

 

O Homem

Não soube semeá-las

Não houve Primavera

Só Inverno

A governar sozinho o calendário.

 

Mas é no tempo

Nesta raiz de espera

E de tormento

Que celebramos

O Sol da Liberdade.

 

Dela não retiramos o pão

Não distribuímos a riqueza

Mas respiramos

A vontade e a certeza

De repetir a esperança

De repetir os cravos

Os versos da canção.

 

Sonhar é atributo

Necessário:   

Sonho nem sempre é ilusão.

 

Os dias hão-de vingar

Vestidos de futuro

Justo, fraterno, solidário

Hão-de chegar

Num outro aniversário.

 

Celebrá-lo-emos, então

Comparável à árvore

Onde se oferece o fruto

Ao alcance tão-só

Da nossa mão.

 

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 00:19
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Sexta-feira, 22 de Abril de 2011

VOTOS DE...

 

   

... a todos os leitores do Sarrabal!

 

Soledade Martinho Costa

 

publicado por sarrabal às 02:01
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Quarta-feira, 13 de Abril de 2011

ONDE OS POEMAS

 

Que caminhos busquei

Que mos negaram

Que muros tacteei

Que mos ergueram

Que mundos descobri

Que mos calaram

Que algemas me impuseram

Que as vesti.

 

Em que espelhos

Revi a minha fronte

Em que sonos dormi

O meu cansaço

Em que chão

De escravos e de donos

Coloquei os poemas

Com que dantes

Meu punho virgem

Vestia de miragens.

 

Em que céus

De fábulas e contos

Em que sonhos

Crenças e vontades

Respiro ainda o milagre

Com que faço

Resplender

Com a luz dos diamantes

A escuridão

Dos dias calcinados.

 

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 00:43
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Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

POR MÃO PRÓPRIA - Responde: OLGA PRATS

 

Quando a noite se deita nos telhados/ e as casas adormecem sob a lua/ vem o Tejo vogar/ de rua em rua/ a perfumar a vinda da manhã. / Sonha-se então as mãos sobre um piano/ a percutir acordes de Chopin.

S.M.C.

 

DESABAFO: Pode ser um acto de desespero ou de puro egoísmo. Muitas vezes, desabafamos para cima das «vítimas» inocentes coisas que não conseguimos resolver ou vomitamos outras que não chegámos a digerir. Para um escorpião como eu, o desabafo é um alívio que tem de ser resolvido rápido, senão pode-se transformar em algo perigoso, que leva anos escondido bem cá no fundo e é expelido quando menos se espera. E nem sempre na altura certa!

 

SUGESTÃO: Gostaria de ter a sabedoria que observo tantas vezes nas pessoas que conseguem dar uma ordem mascarada de «sugestão». É uma palavra dúbia, que abre caminho para outros fazerem o que nós não sabemos ou não queremos arriscar. Tem o lado positivo de dar ideias a quem as não tem ou e simplesmente, as mantém adormecidas.

 

DISPARATE: Basta ligar o televisor e ouvimos logo uma série deles. O pior é que têm imagem! É uma palavra rica em diversificação de significado. Há os divertidos, os comprometidos, os sem graça, os com graça, os inteligentes, os positivos, os negativos e também os que são só disparates.

 

ESCÂNDALO: Não queria estar metida em nenhum. Envolve muita maledicência, falta de privacidade, invasão dos recantos íntimos das vidas de cada um. Para me tornar conhecida ou badalada, não, decididamente, não gostaria que me empurrassem para um escândalo.

 

APLAUSO: Quantas vezes sou surpreendida em plena concentração, num sinal de difícil execução, pelo ruído dos aplausos. Pode e é muito agradável ser-se aplaudido, mas, às vezes, são extemporâneos. Capazes, até, de estragar uma boa «performance». O aplauso silencioso é dos mais agradáveis. O sentir a atenção respeitosa da assistência (se possível, quanto mais silenciosa melhor) é das coisas gratificantes que um artista aprecia e retribui partilhando o prazer e também o esforço que representa pisar um palco.

 

EXPECTATIVA: É linda a expectativa de uma grávida a imaginar como será a criança que se está a forma dentro dela! Expectativa hoje estragada pelas ecografias. Mas ainda há mães que, ao fazê-las, pedem que não lhes seja divulgado qual o sexo. Recordo-me da escolha (prematura) dos nomes: se for menina, se for rapaz…

 

PREOCUPAÇÃO: É delas (preocupações) que se formam e desenvolvem as depressões, que provocam a ingestão de medicamentos, muitas vezes, para quê? Conheço pessoas que as inventam para terem com que se ocupar. É um sentimento muito inquietante, às vezes verdadeiro e até razoável, outro, perfeitamente inútil. À partida, não tem solução. Ou melhor, tem uma de que ninguém gosta: esperar.

 

EMOÇÃO: Confundo-a muito com a sensibilidade, que está sempre a ser estimulada pela minha profissão de músico. Há emoções fortíssimas ligadas à dor e à alegria, ao prazer e ao sofrimento, partilhadas, ou, simplesmente, vividas individualmente, mais introvertidas, mas não menos sentidas. Gosto de ser emotiva, digo-o sem vergonha nem pudor.

 

AMOR: Luís de Camões cantou-o, que mais posso acrescentar? Palavra tão cruelmente tratada! Conheço poucas que tanto pontapé e más interpretações tenham tido como esta e outras derivadas: amada, amante, amantizada, etc., etc.

 

SAUDADE: Palavra nossa, Portuguesa, sem tradução possível. Acompanha-me sempre que saio do meu País. Persegue-me em sonhos. A maior parte das vezes não se refere  a pessoas, mas a situações: o Pôr-do-Sol  visto  da minha varanda, a cor do mar no Outono, o riso dos meus netos, o som do meu piano, o conforto da minha cama. Ligada pela sua «repetição» ao fado, de que gosto quando a poesia serve a música e vice-versa, principalmente quando as duas são ainda melhoradas pela interpretação de quem o canta, e cito: Maria Teresa de Noronha, Carlos do Carmo, Vicente da Câmara. Com eles, a saudade liga bem com o fado, e o fado não é prejudicado pela sua velha versão das vielas e dos amores não correspondidos.

 

SONHO: Gosto do «Sonho de uma Noite de Verão», de Mendelssohn, e gosto muito dos sonhos quando são bem fofinhos, com pouca gordura e pouco açúcar. Sonhar é outra coisa. Com os olhos fechados é um tema que levaria horas a desenvolver, mas isso é para os especialistas. Com os olhos abertos gosto mais, mas a vida já me ensinou que sonhar pode ser perigoso se não se tem os pés bem assentes no chão. Hoje, porém, com tantos fenómenos estranhos a ocorrerem na Terra, o chão já não é firme para ninguém… Por isso, é melhor fazer só alguns projectos. Mesmo assim, a curto prazo.

 

MEDO: Quando sinto um arrepio frio na espinha, um zumbido nos ouvidos e uma sensação de vertigem… pode ser medo. A falta de segurança dentro da própria casa, na rua, nos transportes, pode provocar o que descrevi mais vezes do que seria para desejar.

Existe ainda um outro tipo de medo: o de falhar. É humano, eu sei, mas não gosto e quanto mais envelheço, ou antes amadureço, mais receio tenho que me aconteçam percalços, que às vezes acontecem imprevisivelmente. Como professora, também tenho medo. Ensinar é terrivelmente importante e difícil. Está muitas vezes nas nossas palavras e até nos nossos actos e atitudes o destino de jovens que confiam em nós. É complicado ter-se o sentido da responsabilidade… Dá um medo!

 

INTIMIDADE: Se pudesse enfiava-me numa armadura, mas não de ferro! Preservo muito a minha intimidade e sou suficientemente pouco curiosa para respeitar a dos outros. Era incapaz de ter uma profissão que tivesse a ver com a vida privada de cada um. No entanto, não posso negar que desligue o telefone quando me vêm contar «fofocas», um brasileirismo muito em voga que descreve bem a palavra portuguesa «bisbilhotice»…

 

FIGURA PÚBLICA MAIS: Se for política, passa mais depressa de moda e de 1ª página, do que a figura pública de alguém que dedicou a sua vida a produzir uma obra que seja intemporal e que vingue através dos tempos. Para mim, são os génios que coexistem connosco e nos ajudam a acreditar que o que é realmente bom, alguma vez vai ser reconhecido. Infelizmente, muitas vezes só postumamente são consagrados.

 

FIGURA PÚBLICA MENOS: A meteórica, com êxitos fáceis, mas efémeros.

 

CALENDÁRIO: Desde que me lembro, tenho vivido dependente de um calendário: o mês dos meus anos – sempre mais um –, os dos anos dos meus filhos, dos netos, familiares e amigos; as Festas: Natal, Páscoa, de Família – cada vez mais comerciais e menos familiares –; as datas dolorosas, que sempre se repetem também, e algumas nem com o tempo se diluem, e o dia, o dia inexorável, das épocas das aulas, dos exames, das reuniões, das audições a que, no meu caso, ainda se juntam as dos concertos – que raramente são definitivas – ; as das viagens, das férias – que de ano para ano vão encurtando –, um nunca acabar de situações que fazem passar a grande velocidade  as folhas do calendário.

 

Autoria e coordenação: Soledade Martinho Costa

In Notícias Magazine/1999

 

Nota. - A publicação deste texto constituirá, certamente, uma surpresa para si, minha caríssima Olga! E acredito que vai gostar de o reler…

Agora, uma confissão: recorda-se de me dizer que tinha feito um belo quadro com os meus posters das quatro Estações e o havia colocado no quarto das suas netas? Pois copiei a sua ideia! Escolhi um fundo amarelo-torrado e um caixilho azul, as cores predominantes do quarto do meu filho na casa do Bom Velho de Cima. Lá o coloquei. Ficou, realmente, bastante bonito! Aqui, na casa de Alverca do Ribatejo, possuo os originais: quatro quadros (sem os poemas, é óbvio) pintados a óleo sobre tela, do meu saudoso e querido Amigo, António Pimentel (Tópi para os amigos) – falecido a 24 de Abril de 1998.

Um beijinho muito afectuoso!

S.M.C.      

 

                                                

 

 

publicado por sarrabal às 00:09
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