Terça-feira, 29 de Março de 2011

COMPARAÇÃO

 

Abrem as violetas

Num afago

Os seus vestidos roxos

De ametista

Na sombra aveludada

Dos canteiros.

 

Tão recatadas

Tímidas

Singelas

Que mais parecem

Meninas de outros tempos.

 

Dotadas donas

Cândidas donzelas

Gentis e pudicas

E crédulas e finas

Entre o bordado

O francês e o piano.

 

Damas formosas

Dotadas e airosas

Espartilhadas

Apertadas todo o ano

Nas rendas dos vestidos

E nos enfeites a seda de retrós.

 

Muito discretas

Pálidas, franzinas

Com caracóis

Caídos em bandós

E botõezinhos

Perfilhados nas botinas.

 

Obedientes

Prendadas

Pacientes

Fadas do lar

À espera de casar

Atrás da cassa

Franzida das cortinas.

 

Soledade Martinho Costa

 

publicado por sarrabal às 00:35
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Quarta-feira, 23 de Março de 2011

POR MÃO PRÓPRIA - Responde: FERNANDO CARVALHO RODRIGUES

  

Dos oceanos desvendar segredos/ escalar montanhas/ conquistar desertos/ fazer da vida rumo/ descoberta./ Prender em cada passo/ um novo Mundo/ lançar no espaço o sonho/ em mão aberta.

S. M. C. 

 

DESABAFO: É um cansaço da infinita pequenez.

 

SUGESTÃO: Um livro de prodígios.

 

DISPARATE: É fechar as ruas com notícias de raiva, onde aparece o Escândalo como o instante de lâminas afiadas.

 

APLAUSO: É a insuportável claridade do Sol e a Expectativa duas mãos esticadas até ao destino, equilibrando-se nos interstícios da luz de uma Preocupação em que o homem fica quieto, à espera que o tempo devolva um coração roubado à voz da Emoção do corpo que não encontra na alma a urgência de um só suspiro.

 

Quanto ao Amor é um relâmpago retirado aos céus da Saudade que são as pedras apanhadas nos rios da infância.

 

Um Sonho é a ausência do corpo no turbilhão das horas, entre o mel e o céu.

 

MEDO: É ninguém saber o medo e a Intimidade a incerta felicidade dos homens.

 

FIGURA PÚBLICA MAIS: É infalível e é, então, Deus.

 

FIGURA PÚBLICA MENOS: A fome, a peste e a guerra, que nos chegam num Calendário que é a pressa de partirmos para, provavelmente, nunca chegarmos ao tempo: um gato enroscado, fechadinho numa caixinha de luz.

 

Autoria e coordenação: Soledade Martinho Costa

In Notícias Magazine/1999

 

Nota. - Recordo com gosto um episódio passado durante um jantar no Hotel Tivoli, em que fui «par» do Prof. Fernando Carvalho Rodrigues. Ainda antes de o jantar começar a ser servido, diz-me o Prof. ser capaz de «lançar um satélite» ali, sobre a mesa, servindo-se de uma caixa de fósforos – que não tínhamos. Chamado o empregado, a resposta foi negativa. Carvalho Rodrigues segredou-me um «até já» e saiu da sala. Voltou com uma caixa de fósforos das grandes. Momentos depois, anuncia ao meu ouvido: «Preste atenção; aqui vai o satélite!». E foi mesmo: um fósforo foi lançado no «espaço», na vertical, uns bons centímetros acima da toalha de mesa. Segredos «do pai do satélite português», que todos nós estimamos e admiramos.

É verdade que Carvalho Rodrigues não sabe cantar como Pavarotti. Mas também não é menos verdade que Luciano Pavarotti não percebia nada de satélites! De Nossa Senhora da Lapa, falarei outro dia. Da canoa também. Fica a promessa com um abraço.

 

S.M.C.

 

                    

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Sexta-feira, 18 de Março de 2011

SEGREDOS - «ENTÃO, PIQUENA?»

 

(À memória da Rosalina)

 

Se não nos tivesses deixado, festejarias hoje mais um aniversário. Aquele que me levaria a telefonar-te e a cantar os «parabéns a você», mal atendesses do outro lado – como fizemos durante tantos e tantos dos nossos aniversários. Lembro-me daquele ano em que não o fiz, por esquecimento (embora dias antes não me saísses do pensamento), e tu me telefonaste no dia seguinte a dizer que tinhas ficado triste e eu me desfiz em desculpas tão sinceras quanto a nossa grande, sólida, inigualável e bonita amizade.

 

Nos outros dias – falávamos tanto! – as nossas conversas começavam sempre da mesma maneira (e foste tu a iniciadora): «Então, piquena?». E eram horas de conversa. Desabafos, notícias, segredos, projectos, confissões e risos, muitos risos. Não sabíamos, então, que a doença que tanto temias tinha um encontro marcado contigo. Inadiável. E foi ela, a terrível doença que te levou. Primeiro um seio, depois o outro. E tu ias morrendo dia a dia. E eu, sem mais palavras para te animar, para te confortar, para te dizer que «a esperança é a última a morrer» – porque, no teu caso, não era verdade. Não havia esperança.

 

E inventava palavras, ditadas pelo meu coração, que não existiam no meu vocabulário. E sorria-te a dizer que estavas bonita, que te ficava bem o lenço que tapava a ausência do teu cabelo loiro. E sorria-te a dizer como seria bom o nosso encontro durante as férias no Algarve no Verão seguinte. E sorria-te a falar no teu primeiro neto, prestes a chegar. Sorri-te sempre, até ao momento em que as lágrimas, sem que tu as visses, vinham ocupar o lugar do meu sorriso. Até ao dia em que já não houve sorriso. Em que o meu coração já não precisou de inventar mais palavras.

 

Não consegui falar de ti nos aniversários que se seguiram á tua ausência. Não fui capaz. Hoje sou. A vida ensina-nos a saber esperar. A saber aguardar a hora da serenidade que nos ajuda a falar das tristezas, das desilusões, das mágoas e dos medos. Dos rostos e das vozes que não voltaremos a ver nem a ouvir. E eu tenho nos meus ouvidos a tua voz e na memória dos meus olhos o teu rosto.

 

Fazes-me falta. Tanta falta! Nos dias mais sombrios, quando o cansaço da vida preenche o vazio que nos rodeia, que bom seria pegar no telefone e falar contigo. Mas ninguém vive sempre, querida Amiga, ninguém. Por isso, talvez as nossas conversas, qualquer dia, continuem noutro lugar, onde haja telefone e eu atenda, e do outro lado escute a tua voz, e a nossa frase de tantos anos, dita por ti: «Então, piquena?»

 

Soledade Martinho Costa

 

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Quinta-feira, 10 de Março de 2011

POR MÃO PRÓPRIA - Responde: RUY DE CARVALHO

 

Ser do palco o senhor/ e ser seu escravo/ e saber dele só amor e dano/ e ser seu lume/ génio/ fama/ é ser maior que as ovações:/ há nomes/ onde nunca cai o pano.

S.M.C.

 

DESABAFO: Tenho alguns desabafos. Não percebo porque é que os homens se degladiam, se matam, se destroem. Não sabem conversar, deixaram de dialogar. Os tempos evoluem, há muito mais possibilidades de saberem o que fazem. Interesso-me pelo bem-estar do meu semelhante e fico muito desiludido com a humanidade. Quando se acusa, ainda, uma juventude que se droga, verificamos que a maioria procurou a felicidade. Se entrarem numa «droga boa», que é a da Cultura, do tratamento espiritual, de ler, ir aos espectáculos, a palavra desabafo deixou de ter o sentido que lhe dou neste momento: o de um desabafo triste. Mas sou optimista. Tenho muita esperança.

 

SUGESTÃO: Peço ao povo português que cultive e fomente mais as coisas do espírito. A riqueza verdadeira de cada país é aquilo que foi ficando da sua própria cultura. Sugiro também que o afecto seja uma realidade. Que toda a gente se saiba beijar com afecto. Há muita gente que nunca deu um beijo de amor. Há filhos que não dão beijos aos pais. Sugiro às pessoas que tratem, que reguem o jardim maravilhoso do afecto. Tudo se resolve com afecto, com simpatia, com um bom sorriso. É uma sugestão…

 

DISPARATE: No nosso país é um disparate a nossa cultura não ser apoiada, desde a mais simples, artesanal, até à erudita. A arca do tesouro de cada país é a sua cultura. Um país que busca o sentido espiritual é, com certeza, muito rico no sentido material. É disparate não apoiar aquilo que vale a pena. E «tudo vale a pena quando a alma não é pequena». Disparate é quando a alma começa a ser pequenina e não apoia o que é grande, porque julga que é pequeno…

 

APLAUSO: Para o actor, o aplauso é fundamental. Tem a ver com a nossa vida. É a minha recompensa. Tenho sentido muito esse aplauso. Na cara, porque me têm beijado muito. Fiz o meu trabalho com modéstia, por amor. Diz o povo «quem corre por gosto, não cansa». Canso, canso, mas com muito gosto! Se alguém pode estar a ser aplaudido neste momento, sou eu.

 

EXPECTATIVA: Há qualquer coisa que se desenha no nosso futuro. Não gostava de me ir embora desta vida para a outra – onde tenho muitos amigos –, sem ver algumas das minhas expectativas realizadas. Em meados do século  podemos atingir os 120 anos! E estamos com reformas aos 65 anos…Um homem e uma mulher não podem reformar-se com essa idade. Que se reformem quando disserem «não posso mais», mesmo que seja aos 90! E há muita gente com 90 anos ainda útil

 

EMOÇÃO: Emociono-me bastante. Qualquer coisa põe-me lágrimas nos olhos. Estou muito sensível. Quando vejo uma criança com fome, fico muito preocupado. E tento convencer o meu neto a não deixar comida no prato. Há meninos que eram capazes de comer a espinha que ele deixa. Comiam-na! E ele deixa uma espinha cheia de peixe. Há milhões de pessoas neste mundo que nada têm e que nós esquecemos todos os dias, sem querer. Um colega de quem era muito amigo, o Fernando Curado Ribeiro, dizia-me poucos dias antes de partir: «Sabes, emociono-me muito, choro muito, comovo-me muito. As coisas impressionam-me. A desumanidade, a frieza com que nos tratamos uns aos outros…» Mas também me emociono nos momentos felizes. Nesses, a lágrima vem, mas o sorriso fica na cara.

 

AMOR: Está no meu coração. Está em tudo em mim. Não quero dizer que às vezes não peque, e não faça juízos da minha falta de amor. Quando não sou capaz de dar dinheiro aos arrumadores de carros, por exemplo. Se der, talvez esteja a ajudar a matá-los. O discurso do «coveiro» no Hamlet, ainda hoje se mantém. Aquelas perguntas que o «coveiro» faz à «caveira». Aquele pensamento é sublime. É uma ajuda amorosa aos homens. Sem o amor, não se vive.

 

SAUDADE: Sou um homem de saudades, mas não sou um saudosista. Tenho muitas saudades de muita gente, de muitas coisas. Dos meus pais. De todos os meus queridos, que já partiram. Saudades de África. Das gentes de África. Dos cheiros. Dos sítios por onde andei. Saudades dos meus colegas – espero encontrar uma Companhia lá em cima, para fazermos depois o Teatro que gostamos. Quando sinto saudades de um amigo, de um familiar, trago-o à memória e mato saudades.

 

SONHO: É o que diz o nosso querido Gedeão: «Sempre que um homem sonha, o mundo gira e avança». Misturou o sonho com as coisas materiais e chamou-lhe «pedra filosofal». Devemos manter o sonho vivo e sonhar todos os dias. Até ao último momento. Principalmente, os sonhos que o acordar nos oferece, que são muitos…

 

MEDO: Quanto mais conhecemos a vida, mais medo temos. Às vezes, não por nós, mas pelos outros. Há vários tipos de medo. O medo profissional, também tenho. É um medo por respeito às pessoas. Medo de falhar, de ser ridículo. Sobretudo, tenho sempre medo de prejudicar alguém. O nosso povo começa a ter medo de andar na rua, de sair à noite, ir ao teatro, ao cinema…Temos de dominar o medo. Com medo que as coisas piorem.

 

INTIMIDADE: As pessoas não me privam da minha intimidade. Ando na rua sem perder a minha intimidade. Tenho «passe» para andar no Metro, no eléctrico, no autocarro…Sou um cidadão normalíssimo. Não fujo ao encontro com as pessoas. Vivo com os outros, preciso deles. Mas prezo muito a minha intimidade familiar. 

 

FIGURA PÚBLICA MAIS: Gorbatchev. Tenho uma grande admiração por ele. Um verdadeiro democrata com ideias socialistas. Um homem que deu uma volta no mundo. Que pôs a palavra democracia no sentido certo que ela tem: o respeito pelos outros. Que deitou abaixo um muro que dividia os homens. Nas suas ideias, não há divisões de ideias. É o homem que me marcou.

 

FIGURA PÚBLICA MENOS: O Ayatollah Khomeyni. Um radicalista horroroso. Sou um homem religioso, sou cristão. Tenho muita honra nisso, sigo Cristo, sou um católico assim-assim, mas radicalismos religiosos, em nenhuma religião admito. Não se pode perseguir um escritor, só porque discorda de nós! Foi uma sombra no mundo e deixou as suas sombras. O seu espírito infernal ficou.

 

CALENDÁRIO: Agradeço todos os dias que vão passando. Espero que os futuros sejam melhores, sempre. Não sou um homem do passado. De efemérides. Se não fosse a minha família, não guardava nada de mim. Tempo? Deixo passar, deixo passar…

 

Autoria e coordenação: Soledade Martinho Costa

In Notícias Magazine/1999

 

N. - Entrevista gravada em casa de Ruy de Carvalho. A nossa amizade vem do tempo do nosso comum e saudoso Amigo José Álvaro Vidal, iniciador da mais importante obra social de Alverca do Ribatejo, chamada CEBI.

Uma família bonita, uma família feliz, uma família que adorei conhecer melhor nessa amena tarde de Junho, ainda em vida de Dona Ruth.

Agradeço (agora virtualmente!) a Ruy de Carvalho ter respondido a este inquérito, e a humildade de ter lido alguns dos poemas do meu livro «Poemas do Sol e da Cal», quando da sua apresentação na Sociedade Portuguesa de Autores. Igual agradecimento vai para seu filho, João de Carvalho (meu amigo e vizinho, aqui, em Alverca do Ribatejo), que leu, durante o seu lançamento, um dos textos do meu livro «6 Histórias numa História de Todas as Cores» (cujos direitos autorais reverteram para o CEBI).

Um beijinho afectuoso para si, Ruy, outro para o João e Esposa (os vossos filhos estão uns homens, e lindos!). E cá vou continuando a vê-los aos dois, nem tanto pessoalmente, mas pela Televisão – como não podia deixar de ser!

 

S.M.C.

                                

 

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Terça-feira, 8 de Março de 2011

PARA ENFEITAR OS TEUS CABELOS

 

(À Maria Eugénia) 

 

No nosso sangue crescem rosas

E no amor

E na saudade;

As rosas que murcham sobre o gelo

Da nossa distância

 

E neste dia

Crescerão sempre rosas

 

Se os nossos corações se estrangulam

Nas grades

Onde morre a liberdade

E se fatigam

 

Neste dia

Cresceram sempre rosas

 

E se o Inverno é longo

É dentro de nós

Que mergulham as raízes

Pelas quais os homens

Se alimentam

 

Se o Inverno é longo

E as vozes se cansam

É porque

O nosso caminho é único

- o amor

 

Neste dia

Cresceram sempre rosas

 

Irei buscá-las

Às planícies mais longínquas

Às montanhas menos acessíveis

Aos abismos

À amizade

E à distância que nos une

 

Neste dia crescerão

Sempre rosas, rosas

Muitas rosas sobre o nosso amor

 

Para enfeitar os teus cabelos.

 

Agostinho Neto

 

(8 de Março de 1956)

 

 

N. - Poema  escrito quando Agostinho Neto se encontrava detido na Cadeia da Relação, no Porto, onde cumpriu um ano e meio de cativeiro por razões políticas. Em 1958 casa com Maria Eugénia. O poema encontra-se publicado no livro «Sagrada Esperança».

 

E porque hoje, dia 8 de Março, se comemora o Dia Internacional da Mulher, coincidindo com a data do seu aniversário, aqui lhe deixo, Maria Eugénia, um beijinho de muita amizade! Mais logo, visto que se encontra em Lisboa, vamos conversar um bocadinho - como é nosso hábito, aliás, quer esteja em Portugal ou em Angola. O Luís Miguel envia-lhe parabéns e a sua afilhada Soledade Eugénia deixa-lhe mais duas rosas!

S.M.C.                                                                                                                                                            

                     

  

                                            

 

                                                               

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Terça-feira, 1 de Março de 2011

COISAS DA TERESINHA - OBJECTIVOS À VISTA!

 

 

A Teresinha cresceu. Tem agora 10 anos. Acabou o Ensino Básico e passou para o 5º ano do 2º Ciclo. Frequenta o Externato João Alberto Faria, em Arruda dos Vinhos, a cerca de 12 quilómetros de Alverca do Ribatejo, onde reside, mais precisamente na freguesia da Calhandriz. Gosta da nova escola, arranjou novas amigas, e, sobretudo, está feliz porque o irmão, o Rafa, estuda no mesmo colégio, onde frequenta o 7º ano.

  

Vá para onde for, a Teresinha leva consigo o «Magalhães», seu companheiro inseparável. E escreve, escreve, escreve… Desde há meses. Diz estar a escrever uma série juvenil: «É uma colecção de sete volumes!». Informou-me. Achei por bem argumentar: «E não será muito, Teresinha?». Olhou-me resoluta, resposta pronta: «Não, Avó, são mesmo sete!». Pois, então, que sejam sete. Esperemos…

  

Os pais gostam de ler, a Teresa desde sempre se habituou a ter em casa uma biblioteca com estantes que vestem as paredes e vão até ao tecto. Nas prateleiras de baixo, mais à mão, estão agora, ao lado dos muitos livros infantis, os livros juvenis dela e do irmão.

 

Não há dúvida de que o ambiente familiar propicia este género de comportamentos nas crianças. A avó escreve, o avô paterno também escrevia, a Teresinha tem vivido estes seus 10 anitos rodeada de livros, a ouvir falar de livros, a escutar histórias e depois a lê-las. O facto de dizer que quer ser escritora, é capaz de não chegar. É preciso mais. Mas pode afirmar-se que a Teka tem muita imaginação e redige bem o português. E tanto que o ambiente familiar proporciona estas vocações algo precoces, que a prima, a Soli, com os seus 8 anitos, afirma convicta: «Quando for crescida, quero ser jornalista!». A situação é idêntica à da Teresa: há influências no ar…

 

A Teresinha não deixou, entretanto, de usar os seus neologismos: linguar (lamber), atchingar (espirrar), ou as frases: «Vou mostrar-me ao espelho» e «Tenho tantos quefazeres!». O gosto de cantar e dançar perante o «seu público», também não o perdeu. Andou na ginástica, na dança moderna, na patinagem artística, aprendeu a andar a cavalo e nestas últimas férias a fazer surff. Por agora, depois das aulas, pratica natação. Há apenas uma novidade, que não chega bem a sê-lo, uma vez que o gosto já o demonstrava quando tinha menos idade: a roupa que veste e como se veste. A combinação das cores e os acessórios: lenços, malinhas, chapéus, óculos escuros, incluindo o que escolhe para calçar. Um destes dias, pediu à mãe uma máquina de costura. «Quero começar a fazer a minha própria roupa e preciso muito dela!». Foi a justificação. «Mas não quero ser modelo, quero ser estilista!». Acrescentou.

 

Eu sei que a moda está na moda. As jovens querem ser modelos, querem vestir bem (ou mal). No caso da Teresinha, ela vai mais longe, e afirma com segurança: «Quero marcar presença no mundo da moda!». Sim, que a Teresinha não faz as coisas por menos! O que mais me espanta é que não se fica por aqui nos seus objectivos. Vai ainda mais longe: «Também quero marcar presença no mundo da literatura e no mundo da política!».

 

Que dizer desta Teresinha, decidida no que respeita aos seus objectivos quanto ao futuro, quando ainda há dias usava fraldas e chupeta?! Só isto: como o tempo passa, como os anos voam!

 

Marcar presença no mundo da moda é, pois, um objectivo da Teresinha. Não é impossível, se ela quiser e souber. Marcar presença no mundo da literatura, também pode ser que aconteça, nunca se sabe. Pelo menos, já deu os primeiros passos: três histórias de sua autoria foram publicadas aqui, no Sarrabal. Resta a tal série juvenil, na qual trabalha, infatigavelmente, «mas que não tem ainda título», conforme diz. Agora, marcar presença no mundo da política é que me deixou perplexa: «Teresinha, na política, porquê?». Perguntei-lhe. «Ora, avó, por causa do ambiente, da arquitectura. Já viste o estado de certos prédios, dos muros, dos jardins? Do lixo que está em todo o lado?». Concordei. «Pois é aí que eu quero mandar. Quero acabar com a falta de limpeza, com o desmazelo dos prédios. Quero ruas e jardins bonitos e limpos e viver com asseio e beleza!»

 

Ai, Teresinha, se tudo fosse assim tão fácil como são os teus sonhos de menina, Portugal era o paraíso! Mas, sim, repito: quem sabe, logo se verá…

 

A Soli, também ela grande defensora do ambiente e da reciclagem, sabe dos propósitos da prima e aplaude. E gosta das histórias da Teresa. Quando publiquei aqui a primeira das suas três histórias, a Soli afirmou  num entusiasmo: «Vou ao blog da avó ler a tua história da cabeça aos pés!». Que elogio maior podia a Teresinha receber da prima?

 

Estão a crescer, as minhas netas, as minhas «imperatrizes». Será que a Xana, irmã da Soli, com um aninho e meio feitos, quando andar pela idade da irmã e da prima também vai dizer que quer ser escritora ou jornalista? Que quer ser estilista ou marcar presença na política? Que outros objectivos, diferentes destes, pretenderá ela atingir? Uma coisa é certa: já gosta de livros. Talvez seja meio caminho andado. Como já disse: quem sabe… É esperar, para ver.

 

Soledade Martinho Costa

 

                                                  

                                     

 

publicado por sarrabal às 16:26
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