Água/ serias rio ou fonte/ regato que murmura/ entre dois lírios. / Ave/ um noitibó/ escondido/ entre as dobras de um lençol. / Mas porque assim te queres/ terra e raiz/ e tanto aquece/ o matiz da tua voz/ só posso comparar-te/ ao próprio Sol.
S.M.C.
DESABAFO: É a válvula de escape das nossas emoções mais profundas e das nossas mais angustiantes inquietações ou revoltas. O desabafo permite que, às vezes, revelemos a nós próprios sentimentos que desconhecíamos existirem portas adentro. Outras vezes, com o desabafo, soltamos e revelamos a outros estados de alma que não gostaríamos de mostrar.
SUGESTÃO: Todos nós, quase todos nós, estamos disponíveis para dar sugestões. Gostamos de provocar ou fazer nascer no espírito de terceiros modos de agir que pensamos ser os mais próprios, ou no seu interesse, ou actuando menos linearmente, no nosso interesse, ou no interesse dos nossos.
DISPARATE: Cada um tem à sua conta um número maior ou menor de disparates, de despropósitos, de tolices, de desatinos, de extravagâncias sem razão. Porque acontecem? Será o que nos rodeia que nos força ou o tal «destino», que cada um deve cumprir? O disparate será um produto das nossas contradições? Há que relativizar a palavra, porque não há desacertos absolutos. Às vezes, no fundo do disparate, há algo que não é disparatado. Como na raiz de todos os acertos, nem sempre tudo nasce acertado.
ESCÂNDALO: É algo que ofende, causa indignação, origina melindre ou vergonha. Quantas vezes o progresso, o avanço da Humanidade, não começa com escândalos? Pode-se até dizer que certos escândalos geraram santidades. Há escândalos que, com o tempo, deixam de o ser. É tudo uma questão de tempo e de lugar. Na aldeia onde nasci, ainda hoje são «escandolas» comportamentos que, fora dela, são condutas normais.
APLAUSO: É o que resulta do acto ou efeito de aplaudir. Deveria ser sempre algo de consciente. O momento de grande verdade. Quem aplaude com leviandade um artista, um poeta ou um político, torna-se cúmplice de muitos erros, de muita involução. Um aplauso exprime um sentido de voto. Para quem os recebe, como artista, em palco, e sente nele autenticidade, vive momentos mágicos. Estabelece uma ligação, uma comunhão quase divina, com tudo o que o rodeia.
EXPECTATIVA: A esperança é a última coisa que deve morrer no coração do homem. E, sobretudo, da mulher, consabido que esta é mais resistente… A Igreja Católica deu-nos e consagrou, até, como modelo, a Nossa Senhora da Expectação! Uma grande parte do nosso ser e da nossa existência assenta na expectação. A esperança que não morre nos tidos como «desesperados» é que faz avançar o Mundo. Deixamos de ser gente quando perdemos a esperança.
PREOCUPAÇÃO: Sentimento triste, envolto em desassossego. Ninguém vive sem preocupações. Nunca podem estar ausentes de nós. A preocupação pode tomar conta, de forma angustiante e avassaladora, da nossa alma, se não confiarmos nas nossas capacidades e, pelo menos, um pouco, na capacidade dos outros. Preocupar-se é ocupar-se duas vezes: antes e depois de se ocupar. Preocupo-me com aquilo de que me não quero ocupar.
EMOÇÃO: É um estado de alma de tonalidade afectiva intensa, mas não permanente. Pode comover-nos, abalar-nos, gerar enternecimentos, pesar, até alegria na dor. O pôr-do-Sol na minha terra. O afogamento do «Poço Negro», executado pela mini-hídrica, em Manhouce. Os cantares da Serra. O passado e as pedras da minha aldeia… Que emoções provocam! Como é bom vivê-las, mesmo contraditórias, capazes, até, de gerarem ódios…
AMOR: Sentimento grandioso que nos faz comunicar com a vida e com tudo o que desconhecemos para além dela. Paixão, afecto, inclinação… Há o amor possessivo. Há o amor que se dedica a outrem. Há, até, o amor que devemos ter para connosco. Sem liberdade não há amor. Um Santo proclamou: «Ama e depois podes fazer tudo quanto quiseres». Para os que acreditam em Deus, Deus é amor. Importa recordar que não é verdade que o primeiro amor seja para sempre o grande amor da nossa vida…
SAUDADE: Palavra que costuma vir associada à ideia de Portugal. «Saudade gosto amargo de infelizes, doce pungir de acerbo espinho», disse o poeta. Sentimos saudade com a ausência ou desaparecimento de pessoas que amamos. Mas também com o afastamento de coisas, com estados de alma, ou até de acções. Quem não tem saudades de glórias passadas?
SONHO: «O sonho comanda a vida», diz-nos o poeta. O verdadeiro sonho, não é o que se manifesta durante o sono. É o que se tem com os olhos abertos. A mulher e o homem, no seu caminhar até Deus, já teriam desistido se não sonhassem. Partindo do princípio que Deus quer que «só quando o homem sonha a obra nasce», o Mundo sem sonho seria um descampado.
MEDO: Sentimento de inquietação perante um perigo real ou aparente. Às vezes, temos medo do que somos e do que podemos fazer de nós. Há que vencer todos os medos. Os medos que desde a origem do Mundo transportamos. A angústia é a primeira percepção do nada que somos e valemos, do nada de onde viemos e do tudo onde estamos integrados.
INTIMIDADE: Há sempre algo de nós que só a nós pertence. Quem não for capaz de preservá-lo perde resistências, torna-se vulnerável. Não deixar devassar a alma não é manter distância para com os outros. É, por vezes, na altura própria, estar em condições de pôr essas «reservas» ao serviço de si próprio e dos outros. Nada mais doloroso que suportar os que não respeitam a nossa privacidade.
FIGURA PÚBLICA MAIS: General Ramalho Eanes. As suas origens, a dignidade com que desempenhou as suas funções como Presidente da República, a sua identificação com o povo de onde emergiu, o papel que desenvolveu em momentos difíceis da vida do nosso País, fizeram com que tenhamos por ele especial consideração. Melhor que ninguém sabia expressar afecto e apreço pelos valores culturais autênticos, portugueses, manifestando por eles, sempre, a sua estima, como o fez na visita que realizou como Chefe de Estado, à minha aldeia. Serviu Portugal. E serve-o hoje com discrição.
FIGURA PÚBLICA MENOS: Um autarca da nossa região que não soube nunca compreender o amor dos outros à sua terra e a forma como procuravam servi-la. As terras e as pessoas não valerão mais que os votos? Cada um, porém, como se diz na minha aldeia «é cum santo i u é» (é consoante é).
CALENDÁRIO: O tempo e o ser andam a par. Zero tempo é igual a zero ser. Calendarizar é criar condições para fazer nascer as coisas. Deixar algo «para as calendas gregas» é admitir que nunca se fará algo. O tempo tudo faz e tudo devora. Tudo é e deixa de ser, em função do tempo. Ou, como dizia Camilo, «O tempo chega sempre, mas às vezes não chega a tempo». Mas olhar o calendário faz-nos meditar. Existiremos para além do calendário? E se alcançarmos a eternidade, como vamos passar o tempo nela?
Autoria e coordenação: Soledade Martinho Costa
In Notícias Magazine/1999
N. - Se já apreciava a voz de Isabel Silvestre, a partir deste «inquérito» comecei a apreciar, também, a pessoa maravilhosa que (facilmente) se adivinha debaixo do sorriso pronto e da simplicidade do trato e das palavras. Tornámo-nos amigas. O nosso amor à terra (embora eu seja de Lisboa), aos costumes, às tradições portuguesas, uniu-nos mais. Parece que foi ontem, Isabel, que me visitou na minha casa da aldeia do Bom Velho de Cima – com a reconstrução da casa e a aldeia a servir de pano de fundo para uma tarde de amistoso convívio e agradável conversa!
Agora, alguns recadinhos: liguei há dias para Manhouce, mas estava para Lisboa. Falei com a sua irmã. Recebi o convite para o (re)lançamento do seu livro «Memória de um Povo». Não pude estar presente em Viseu (eu sei, a Isabel veio ao lançamento dos meus…), mas lá estarei, no próximo dia 24 no novo lançamento que terá lugar em Lisboa, para lhe dar os parabéns e um beijinho de muita amizade! Do livro, falarei mais tarde, aqui, no Sarrabal…
S.M.C.
Grupo Etnográfico Cantares de Manhouce
Na fome
De acordar os olhos
Em cada madrugada
Em mim transformo
A sentença do berço
Em ameaça.
Não basta
Sentir a paz nos passos.
As malas
Estão vazias
O pensamento
Algures
Por arrumar.
Não basta
Partir ressuscitada.
Confio
Ainda
No tempo de esperar.
Soledade Martinho Costa
Caminhos de vontades/ e de glória/ onde a História acontece/ se faz lenda. / As pedras/ o silêncio/ a sombra/ a luz. / As vozes que renascem/ na memória/ o Passado/ que ao Futuro nos conduz.
S.M.C.
A palavra é como a pedra. Em conjunto, faz o muro. Sozinha, é uma pedrada. A Soledade manda-me 16 palavras. Que farei com elas? À primeira vista, pérolas soltas. Precisam de fio para fazer um colar. Mas o fio, onde está? Procuro-o. Começo pela ordem mais simples, a ordem alfabética:
AMOR/ APLAUSO/ CALENDÁRIO/ DESABAFO/ DISPARATE/ EMOÇÃO/ ESCÂNDALO/ EXPECTATIVA/ FIGURA PÚBLICA MAIS/ FIGURA PÚBLICA MENOS/ INTIMIDADE/ MEDO/ PREOCUPAÇÃO/ SAUDADE/ SONHO/ SUGESTÃO
E vejo que acertei.
E como se a roda da lotaria andasse e os números saíssem todos certos: 1, 2, 3, 4, 5… Porque as 16 palavras alinham-se, com lógica e sentido, na sua posição certa.
É evidente que AMOR é a primeira palavra do Mundo, porque sem amor não havia Mundo. Talvez houvesse penhascos, serpentes, vulcões – mas isto a que nós chamamos Mundo, o triângulo humano do Eu, Tu, Ele, não podia existir. Porque foi o amor do Eu pelo Tu que fez nascer o Ele.
E a seguir a amor vem APLAUSO. Com sinceridade, que procuramos nós no Mundo senão a aprovação alheia, isto é, o aplauso? Aplauso significa que o Mundo do Ele – a colectividade, os outros em geral – está connosco, vive em uníssono, faz estralejar as palmas das mãos para sublinhar a identidade com a nossa voz.
A terceira palavra não podia deixar de ser CALENDÁRIO. O meu amor pelos outros e o amor dos outros por mim está submetido à lei inexorável do calendário.
Bem sei que há montes de literatura para esconder isso, a dizer que a verdadeira juventude é a do espírito, e que mesmo velho se vencem campeonatos de palmas e de votos, etc, etc. Mas haverá alguém que se atreva a dizer que amor nada tem a ver com tempo? Ter muito tempo, ser muito velho, também tem encanto. Mas é outra coisa.
E aqui um DESABAFO: sinto-me fascinado pelas ilhas gregas do Dodecaneso (em grego, Dodeca significa ir). Pois durante anos tive o projecto do ir acabar numa dessas ilhas, compondo um livro de memórias e fantasia cujo título seria Dódekalenda no Dodecaneso. E, para quem não entendeu à primeira leitura, o Dó de Calenda é a dor do tempo que passa.
Algum eventual leitor perante esta tortuosa leitura do Dodekalenda (a rigor: 12 lendas), faz o comentário certo: DISPARATE! Pois veja como até essa sugestão verbal estava no seu lugar exacto!
E certa também é a posição de EMOÇÃO na ementa dos vocábulos: está onde ninguém a espera, porque é assim que ela acontece na vida: cai de súbito sobre nós, assalta-nos no caminho, cessa tão rapidamente como começou, passa pela vida como um ciclone com um rasto de destruição e dor.
E de ESCÂNDALO, por vezes. Só o inusitado e imprevisto escandaliza, e não são poucas as emoções de repercussão escandalosa.
O meu leitor, sempre eventual, está agora numa EXPECTATIVA legítima, que eu culposamente criei: a de saber quais serão as tais emoções escandalosas. E eu não respondo a esse olhar interrogativo por respeito pela minha própria INTIMIDADE, e pelo MEDO de não me fazer compreender claramente. É uma PREOCUPAÇÃO que me acompanha sempre que falo ou escrevo: o receio de que os outros entendam coisas diferentes das que quis significar
No fim de todos os caminhos os sentimentos são iguais: SAUDADE do tempo passado. SONHO para o futuro, e a SUGESTÃO de novos destinos, que possam trazer às nossas vidas o paladar das diferenças.
Disse tudo? Não.
Deixei propositadamente para o fim a referência às FIGURAS PÚBLICAS MAIS e MENOS. Para dizer o que penso devo evocar um episódio de há muitas décadas.
Os meus filhos eram garotos pequenos e eu andava nos cabeçalhos dos jornais. A RTP fez-me mesmo o mimo de, num noticiário, me chamar homem público. Quando à noite cheguei a casa, um dos pequenos perguntou: «Pai, a Televisão chamou-lhe homem público. É verdade?» Respondi: «Não sei. Pensem vocês nisso». E o mocinho; «Mas, então, Pai, qual é a diferença entre um homem público e uma mulher pública?». Não atinei na resposta. Dê-a o leitor, se puder. Talvez seja a mesma que separa a figura pública mais da figura pública menos.
Autoria e coordenação: Soledade Martinho Costa
In Notícias Magazine/1999
N. - Passei a conhecer melhor José Hermano Saraiva quando foi director (embora por pouco tempo) do jornal Diário Popular, onde colaborei, semanalmente, durante cinco anos. Anteriormente, o que nos aproximou foram os lançamentos de livros e os jantares promovidos pelas Publicações Europa-América. Troca de impressões sobre diversos assuntos ligados à Literatura, dúvidas minhas em relação a alguns trabalhos meus. Pessoalmente ou por telefone, encontrei sempre a voz solícita que me escutou, elucidou ou compreendeu. Para definir este nome grande da nossa Cultura, bastam-me três palavras: sabedoria, simplicidade, simpatia.
Um abraço grato e afectuoso, Professor!
Para sua irmã, a escritora Maria José Saraiva, fica um beijinho. Sei que vai gostar de o reler!
S.M.C.
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