Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

ABRE-LATAS - ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESCRITORES - FILHOS E ENTEADOS (II)

  

A dar continuidade ao post anterior, devo confessar que nestes últimos tempos (três meses) tenho andado às voltas, a pensar no verdadeiro motivo que terá levado a Associação Portuguesa de Escritores, na pessoa do seu presidente da Direcção José Manuel Mendes, a não divulgar pelos associados a existência da petição «Eu não sou Cúmplice – Meninos Escravos do Gana». Se a Associação divulga o apelo da Cruz Vermelha (Haiti), ou o pedido de livros para Timor, porque razão cala a petição a favor dos meninos do Gana?!
 
Pensei, voltei a pensar, até que tive um palpite. Palpite que me leva até 2003. Posso mesmo dizer, sem margem para erro, que se trata não de um palpite, mas de uma certeza. Porque mais do que simples dedução, estou em crer que a não divulgação da petição não passou de pura retaliação sobre a minha pessoa. Porquê? Ora, vejamos:
 
Nunca fiz da ida às escolas uma segunda profissão – ao contrário de uma conhecida autora juvenil, que afirmou, publicamente, visitar cerca de 300 escolas por ano. Mas tenho prestado o meu contributo como autora convidada em escolas e bibliotecas, fomentando junto das crianças e adolescentes o gosto pela leitura, pela escrita, o amor aos livros e a divulgação de nomes de autores que lhes têm dedicado parte ou a totalidade da sua obra. O último, o de Irene Lisboa (tão esquecido!), cuja biobibliografia dei a conhecer aos mais jovens em seis sessões repartidas por seis bibliotecas da capital a convite da Câmara Municipal de Lisboa.
 
Colaborei com as Câmaras Municipais de Vila Franca de Xira, Loures, Lisboa, Condeixa, Pombal, e Santiago do Cacém. Digo colaborei, porque o tempo é escasso e eu tenho prioridades: trabalhos em mãos por terminar, músicas à espera das letras, a família e, principalmente, os meus quatro netos – além de não me encontrar sempre no mesmo local: umas vezes estou em Alverca do Ribatejo, outras na aldeia do Bom Velho de Cima (Condeixa) e outras ainda no Algarve.
 
Considero a ida às escolas um trabalho importante, gratificante, mas que nos «rouba», por vezes, um dia inteiro. Principalmente, quando se trata, quer numa escola ou numa biblioteca, de realizar uma sessão de manhã e outra à tarde. Assim, resolvi «meter férias».
 
Estas sessões desde há anos que são pagas. Tempo houve, em que o não eram. Nesses anos os escritores «deviam sentir-se honrados com o convite e a divulgação das suas obras», ficando por aí a recompensa da sua colaboração – quase sempre com a escola ou a biblioteca visitada a aguardar a oferta de, pelo menos, um livro desse autor.
 
Um grande nome da nossa Literatura contou-me ter sido convidada para efectuar uma palestra em certa universidade. No final, ofereceram-lhe…um ramo de flores! «Com o trabalho que tive e a viagem, foi uma decepção. Os escritores não vivem do ar!» desabafou.
 
Entretanto, as Câmaras Municipais decidiram começar a pagar honorários aos escritores. Medida justa e que se impunha. Trata-se da prestação de um serviço cultural. Por norma, o autor é pago no final da sessão, ou das sessões, sempre que efectua duas sessões no mesmo dia – embora, neste caso, o pagamento não seja a dobrar. Em troca do recibo verde, o cheque é entregue por alguém destacado pela respectiva Câmara para acompanhar a sessão de animação de leitura.
 
Falta dizer que colaborei, também, com a Câmara Municipal de Sintra. É aqui que quero chegar. É aqui que se fundamenta o meu palpite. Mais exactamente, a minha certeza quanto ao motivo da não divulgação da petição «Eu não Sou Cúmplice – Meninos Escravos do Gana» pelos associados da APE.
 
De há uns anos a esta parte (não tenho a informação de datas), a Câmara Municipal de Sintra estabeleceu um protocolo com a Associação Portuguesa de Escritores. Esse protocolo («Os Escritores vão à Escola») implica que fique a cargo da APE convidar autores com obra destinada à infância para visitarem as escolas desse concelho.
 
Com outros autores, fui convidada pela Associação em 2002 e 2003. Em 2002 visitei quatro escolas entre Março e Abril. Em 2003 visitei três no mês de Janeiro. Ao contrário do ano anterior, achei por bem receber os meus honorários após efectuadas as três visitas. Já com o recibo verde enviado, acontece que não os recebi. Tempo depois informei-me junto da APE. Que sim, iria receber o cheque que me era devido. O tempo passou. Foi passando. Insisti. A dada altura a secretária da APE informou-me que «o senhor doutor (José Manuel Mendes) decidira pagar quando TODOS os escritores terminassem as visitas». Isto queria dizer que os primeiros escritores que se deslocaram às escolas de Sintra (o meu caso) teriam de esperar alguns meses até que o seu trabalho fosse pago.
 
Achei a ideia de José Manuel Mendes pouco aceitável. Menos ainda quando fui informada pela Câmara Municipal de Sintra que pagava à APE, antecipadamente e na totalidade, o valor da verba destinada ao trabalho dos escritores que se deslocavam ás escolas do seu concelho – exactamente, para que fossem pagos a tempo e horas.
 
Protestei. Exigi o pagamento. Várias vezes. Fiz barulho. Só não fiz o cálculo aos juros a vigorar nessa altura... Enfim, enfrentei José Manuel Mendes. Mas este levou a sua atitude ditatorial por diante. Embora com a verba cativa, só recebi o cheque meses depois. Como é evidente, caí no seu desagrado. Por outras palavras, passei a fazer parte da sua «lista negra» de estimação. Não voltei a receber convites da APE desde 2003. Os pequenos (e os grandes) ditadores, não gostam de ser contrariados.
 
Quando me lembrei deste incidente, fez-se luz. Daí, o tal palpite, a tal certeza. Estava encontrada a explicação. Como «persona non grata», ao assinar os e-mails enviados ao presidente da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores, em nome da Comissão da petição, o desfecho só podia ser um: a não divulgação da mesma pelos associados, conforme era pedido. Pouco interessou o seu teor humanitário, o importante era que se fizesse retaliação sobre a minha pessoa. E foi feita.
 
Conheço mal José Manuel Mendes. Não conheço, sequer, a sua obra. Mas sei que a sua actividade se divide (e multiplica) por diversíssimos cargos e tarefas. Da única vez que nos cruzámos, recordo um episódio com alguma graça passado em Condeixa-a-Nova. Durante os meses de Verão realizavam-se ali as «Noites Culturais de Condeixa» que, entretanto, passaram a ter lugar em Conímbriga. Numa delas, José Manuel Mendes deslocou-se a Condeixa para efectuar um recital de poesia. O espaço que a Câmara disponibiliza para este género de iniciativas situa-se num bonito pátio interior da própria Câmara, onde são colocadas as cadeiras destinadas à assistência.
 
Além da população da pequena e rural vila de Condeixa, acorrem a este tipo de eventos pessoas provenientes das aldeias em redor. Nessa noite o programa incluía música e bailado. Por fim, o recital. José Manuel Mendes começou por dizer poemas de diversos autores, incluindo os seus, e terminou com a leitura de poemas…em francês! Não sendo a assistência, propriamente, a mais indicada, não será difícil adivinhar o resultado.
 
Se refiro aqui este episódio, não o faço como represália (acredite quem quiser), mas por ter achado e continuar a achar essa escolha de autores franceses absolutamente descabida e pretensiosa. Não tive a oportunidade de me manifestar na altura. Tenho a oportunidade de o fazer agora. Não a perdi. Fica a pergunta: será esse o caminho que José Manuel Mendes, enquanto presidente da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores – portanto no que concerne à Literatura – preconiza para a tão apregoada descentralização cultural no nosso país? Provavelmente. Se calhar eu é que estou errada. Ou, então, ando distraída. Acontece.
 
Soledade Martinho Costa
 
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Domingo, 21 de Fevereiro de 2010

ABRE-LATAS - ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESCRITORES - FILHOS E ENTEADOS (I)

                                                    

 
Meses atrás, fui a iniciadora da petição «Eu não sou Cúmplice – Meninos Escravos do Gana». Na altura, convidei mais cinco elementos para integrar a Comissão, entre eles três escritores.
 
Contactei, então, a Associação Portuguesa de Escritores, na pessoa do seu presidente da Direcção José Manuel Mendes. Fi-lo duas vezes, ambas por e-mail. O primeiro enviado em 20/11/2009, dando conhecimento da petição e pedindo a colaboração da APE: «Tomamos a liberdade de solicitar a colaboração da APE, no sentido de angariar assinaturas destinadas a um abaixo-assinado que tem por objectivo ajudar as crianças escravas do lago Volta, no Gana.» O segundo, em 28/11/2009, repetindo a informação e o pedido: «Encontra-se em online a petição «Eu não sou Cúmplice» (seguia-se o link). Solicitamos a V. Exª que a divulgue pelos membros dessa Associação. Os escritores portugueses devem tomar conhecimento. Assiná-la e divulgá-la é uma obrigação moral de todos nós. Juntamos o texto da petição». Até hoje não obtive resposta.
 
É de lamentar que José Manuel Mendes tenha ignorado esta solicitação de um membro da APE (assinei pela Comissão), a justificar, plenamente e a todos os níveis, que os membros da Associação Portuguesa de Escritores fossem informados da urgência que se impõe tomar perante este caso gritante de genocídio e impunidade praticados sobre crianças indefesas.
 
Se a assinatura da petição por cada um de nós significa não ser cúmplice deste drama, desta crueldade sem limites que se abate sobre as crianças do Gana, direi que José Manuel Mendes ao silenciá-la, praticando um acto prepotente, ditatorial e censório, mais não faz do que ser cúmplice desta atrocidade que nos envergonha como seres humanos.
 
Na minha caixa de correio electrónico, encontro, diariamente, dois ou três e-mails enviados pela Associação Portuguesa de Escritores. As informações são  diversificadas. Daí, a minha surpresa, decepção e desagrado, ao constatar que a divulgação de uma petição como a que atrás se refere, não tenha sido feita, quando a APE divulga, prontamente, tudo o que aparece lá pelas bandas da Rua de São Domingos à Lapa.
 
Sou membro da Associação Portuguesa de Escritores desde 1973. Pago, no início de cada ano, pontualmente, as minhas quotas. Sou do tempo em que, para ser sócio da APE, era necessário ter, pelo menos, um livro publicado e dois sócios preponentes. No meu caso, foram eles o escritor Fernando Reis e o poeta Ruy Cinatti. Hoje, ignoro se vigoram estas condições.
 
Sei, isso, sim, dos escritores (nomes consagrados) que deixaram de ser membros da Associação. Por desentendimentos, desinteresse, ou por não concordarem com o «clima» e as directrizes, políticas ou não, que são ali tomadas.
 
Nunca dá bom resultado ver a mesma pessoa a exercer determinado cargo anos a fio. Há quanto tempo ocupa José Manuel Mendes o lugar de presidente da Direcção da APE? Precisamente, há 18 anos. São demasiados anos. A rotatividade é sempre desejável. Já tivemos alguém que ocupou durante 48 anos a cadeira do poder. Não desejamos réplicas.
 
Dir-se-à (a quem convém) que não se apresentam candidatos à eleição. É natural. Poderemos, assim, encontrar a resposta certa para fazer o balanço desta quase vintena de anos: o afastamento de nomes consagrados da nossa Literatura de uma Casa que sempre foi lugar privilegiado da Cultura Portuguesa.
 
A atitude censurável de José Manuel Mendes leva a que recorde outros tempos da APE. Tempos em que grandes nomes das nossas Letras faziam da Associação local de encontro e de confraternização. Entrei aquando da vigência de José Gomes Ferreira (o meu cartão de sócia tem a sua assinatura). Acompanhei os mandatos de Maria Velho da Costa (com a qual colaborei), de Manuel Ferreira (meu grande Amigo), de Urbano Tavares Rodrigues. Todos eles a exercerem o seu mandato dentro do tempo considerado certo.
 
Tenho a certeza que na vigência de qualquer um destes escritores a petição «Eu não sou Cúmplice» teria tido o melhor acolhimento e divulgação. Não foi o caso. No entanto, a APE, com a concordância de José Manuel Mendes, acolhe e divulga textos como este (por motivos óbvios, omito qualquer identificação de obras e autores):
 
«Caros amigos
No dia dos meus anos resolvi dar-vos um presente: o meu segundo livro de poesia. (…) Como não faz sentido fazer uma sessão de lançamento de um livro “virtual”, convido-vos a visitarem o site (…). O vosso feedback é, naturalmente, desejado.»
 
Como este:
«Solicito à APE a divulgação do facto de eu ter ganho o 3º prémio na modalidade conto, no concurso nacional “Arte para a Dignidade”. (…) Por ser uma notícia de interesse cultural peço a difusão da mesma.»
Este:
«A biblioteca do (…) e (…) têm o prazer de convidar para a inauguração da exposição de pintura de (…). CC estará a pintar ao vivo, onde cada quadro terá um pensamento seu.»
Ou, ainda, este:
«Desta vez estarei na (…) para o lançamento do meu livro (…). Gostaria de vos ver por lá (…). No entanto quem não puder comparecer e queira adquirir um exemplar agradeço que me responda a esta mensagem com o vosso nome completo, morada. Cada exemplar tem o valor de 10 euros mais os portes de envio. Aguardo por todos vós ou das vossas mensagens. Jinhos com carinho.»
Aconselho, vivamente, José Manuel Mendes a ser mais cuidadoso. Em boa verdade, sempre se trata de proteger o nome de uma Associação de pessoas que sabem escrever. Caso contrário, resta-lhe a opção de contratar um revisor, ou alguém que saiba corrigir um texto, de modo a que fique «escorreito», em bom português. Só depois deverá tomar a iniciativa de enviá-lo aos sócios da APE.
 
É confrangedora a maneira demasiado «descontraída», mercantil ou rudimentar destes textos, que não fazem, propriamente, o orgulho de uma classe, ou a dignificação de uma Associação de Escritores. Mas são estes que costumo receber.
 
José Manuel Mendes, presidente da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores só não publicou este texto:
 
«Sei dos muitos casos gritantes de crueldade exercida sobre as crianças em todo o Mundo. Sei da impossibilidade de lhes acudir. Mas sei que posso acudir aos Meninos Escravos do lago Volta no Gana. Basta escrever aqui apenas o meu nome. A minha assinatura representa a Esperança para milhares de crianças prisioneiras, com 3, 4 e 6 anos de idade. Meninos que trabalham 14 horas por dia na pesca do poluído lago Volta, escravos dos pescadores que os compram por 30 euros. Que morrem no lago, porque muitas dessas crianças não sabem nadar. Eu vou ajudar a salvá-las. Porque quero pôr termo a este genocídio.
Os Meninos Escravos do lago Volta trabalham 14 horas por dia durante os 7 dias da semana. Pagam-lhes com fome e maus-tratos – têm o corpo coberto de cicatrizes. Todos eles sofrem de doenças graves. Não lhes assiste, sequer, o direito a sentar-se.
Sei que desde 2005 vigora no Gana uma lei que proíbe o tráfico humano. Mas a lei não se cumpre. Não quero ser CÚMPLICE deste crime! Não quero ser CÚMPLICE desta impunidade!
O meu nome vai ajudar a libertar estas crianças. Para que, quem pode, tome decisões. Para que um massacre destes não volte a acontecer no Gana nem noutra parte do Mundo.
O meu nome representa a imagem das Crianças Escravas do lago Volta como se fossem filhos meus!»
 
Vários escritores assinaram esta petição (que continua activa), mesmo sem o apoio da APE. Muitos mais poderiam assinar se tivessem conhecimento dela.
 
Não há dúvida: uns são filhos, outros, enteados – caso indesmentível dos Meninos Escravos do Gana.
 
Nota – Voltarei ao assunto no próximo post.
 
Soledade Martinho Costa
publicado por sarrabal às 21:49
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Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

MEDITAÇÃO

   

 
Quando os meus passos
Forem correntes de aço
A agrilhoar
Os momentos que respiro.
 
As minhas mãos
Pombas que dormem
Sobre o dorso de corcéis
Em anseios de céus e de horizontes.
 
Os meus olhos
Rios sem porto nem viagem
Onde o reflexo das imagens
Rejeite a palavra nua das manhãs.
 
A minha voz 
Fonte de cativo canto
A negar poemas que senti
Na estrada onde passei.
 
Serei
Para mim
Uma desconhecida
Pois nem sequer meu nome decorei.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro «A Palavra Nua»
 
 
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Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2010

CARNAVAL RURAL - CARETOS DE PODENCE - A TRADIÇÃO E OS TRAJOS

 
Das variadíssimas manifestações carnavalescas efectuadas de norte a sul do País merece particular referência aquelas que continuam a manter-se fiéis às suas vertentes tradicionalmente ruralistas, quer em função da sua situação geográfica, quer pelo envolvimento das personagens que lhe estão associadas – as populações locais.
 
Os habitantes desses lugares representam o suporte genuíno de toda uma ritualidade, por vezes complexa, que nada tem a ver com os padrões modernos dos Carnavais com objectivos turísticos, embora, e talvez por isso mesmo, enfermando de pouca ou nenhuma divulgação, nem mesmo, tão-só, a nível do (re)conhecimento da sua tradição.
 
                  
  
Desse grupo, de algum modo restrito, faz parte o Carnaval de Podence (Macedo de Cavaleiros), em terras do Nordeste Transmontano, onde a quadra carnavalesca é festejada de forma a fazer lembrar as suas remotas origens, representadas ali numa encenação vincadamente pagã.
 
Neste ritual são visíveis as raízes que ligam o Carnaval de Podence às antigas festas dos Romanos, as Lupercais, efectuadas no dia 15 de Fevereiro, segundo uns em louvor de Pã, deus dos rebanhos, da fecundidade e dos pastores ou cabaneiros, enquanto outros sustentam que seriam realizadas em honra de Luperco, também ele deus pastoril da protecção dos rebanhos contra os lobos.
 
Consideradas das festas mais importantes da antiga Roma, eram particularmente marcadas pelo desfile, nas ruas, de grupos de homens seminus que fustigavam com peles de cabras, imoladas nessa ocasião, as mulheres que encontravam no caminho, num rito punitivo, tendo por intenção torná-las fecundas.
 
 
  
Ritual a perpetuar-se no Domingo e Terça-Feira de Carnaval, graças à actuação dos «Caretos de Podence», quando, pelas ruas, correm atrás das mulheres – principalmente das novas e solteiras – para «chocalhá-las», isto é, para abraçá-las lateralmente e com movimentos rápidos de semi-rotação da cintura fazer com que os chocalhos que transportam à cinta lhes batam repetidamente nas nádegas.
 
Os «caretos» (rapazes solteiros) constituem-se como as figuras principais da festa, os seres quase fantásticos destes rituais lúdicos e pagãos, transmitidos de pais para filhos, desconhecendo-se, no fundo, a sua verdadeira origem e significado.
 
Simbolicamente associados, na crença popular, «ao espírito do mal», ou a tudo aquilo que se afigure misterioso – forças sobrenaturais e ocultas, curandeiros, bruxos, poderes diabólicos e ao próprio Satanás – auferem de total impunidade durante esse curto período, apenas dois dias, embora costumem fazer uma aparição no Domingo Magro.
 
 
Em qualquer lugar em que se encontrem é sempre grande a algazarra que provocam, uma vez que comunicam entre si e com os circunstantes apenas por berros, numa linguagem que ninguém entende. Correm frequentemente atrás de quem calha e dançam e saltam como verdadeiros seres invasores e causadores de toda uma desordem e abuso instaurados a que não é possível, nem se deseja, afinal, pôr termo.
 
Os fatos dos «caretos», extremamente garridos, são guardados e vestidos, muitos deles, geração após geração, constituindo uma verdadeira relíquia para a família que os possui. Confeccionados na própria aldeia, são feitos de colchas antigas, de lã ou de linho (hoje já raras), tecidas em teares caseiros, cortadas depois ao jeito de fato: calças e casaco com gorra ou capuz. As três peças são quase totalmente recobertas com fieiras de franjas de lã de carneiro, tingidas de diversas cores, ao gosto de quem os faz ou veste, embora as cores tradicionais sejam o vermelho, o amarelo e o verde.
                  
Somente para as franjas, também elas feitas em tear, são necessários (dizem) sessenta novelos de lã. Um fato de «careto» pode orçar, actualmente, em mais de 400 euros – com as franjas de lã tradicionais substituídas por lã de fibra, sem contar com a dificuldade em encontrar e comprar uma colcha antiga…
 
 
Como adorno, ostentam à cintura, presos num cinto de couro, fiadas de chocalhos e sobre o peito, cruzadas, as «bandoleiras», igualmente em couro, por vezes com uma ou duas campainhas. O número de chocalhos, hoje, é variável, conquanto o preceito consistisse em doze chocalhos de latão, «se o fato fosse rico», ou apenas oito, «no caso do fato ser mais pobre». Na mão levam um pau ou bengala de madeira de freixo ou castanheiro, que lhes serve de apoio quando saltam ou correm ao som dos chocalhos. Antigamente, usavam uma bexiga de porco ou uma pele de coelho cheia de ar que empunhavam para bater, ritualmente, em quem com eles se cruzava, costume ainda mantido por um ou outro.   
 
 

 A designação «caretos» resulta da palavra «careta» ou «máscara», sendo as de Podence, como, de resto, o são todas as máscaras deste género, terríficas. Trata-se de máscaras rudimentares, feitas de latão ou folha-de-flandres, pintadas de vermelho ou negro, com um nariz pontiagudo e três aberturas para os olhos e a boca. Em tempos mais antigos as máscaras eram feitas também de cabedal ou de madeira primorosamente esculpidas.

 
 
As praxes do Carnaval de Podence obrigam a que as crianças do sexo masculino (até aos 11, 12 anos) se mascarem como réplicas dos «caretos» adultos, embora menos elaboradas e se comportem à sua semelhança. Conhecidos por «facanicos», acompanham, nas suas andanças e brincadeiras, o grupo dos rapazes solteiros. Certamente, a forma encontrada para que a figura dos «caretos» se não perca, antes se reforce no objectivo de preservar e garantir a continuidade desta tradição carnavalesca.
                          
  
No conceito popular, só o «careto» possui os poderes propiciatórios, profilácticos e expurgatórios no momento da viragem do ciclo agrário - a passagem do Inverno para a Primavera. Poderes exercidos sobre os campos, purificando-os, e a tornar fecunda a produção das terras ao afugentar delas as «forças nocivas ou os espíritos das trevas, que as invadem e empobrecem». Desta forma se perpetuam remotos cultos gentílicos de vegetação e fertilidade, que podem mesmo ir mais longe, considerando que ao «careto» se atribui o poder de «eliminar qualquer mal da Natureza e da própria comunidade».
          
E se da Antiguidade lhe vem a Festa dos «Caretos», de lá virá também, supostamente, a designação de «lares» dada em Podence às grandes lareiras sobre as quais se cozinha ainda hoje em panelas de ferro. Quem sabe, a fazer lembrar os deuses Lares – simbolizados por pequenas estatuetas –, colocados nos altares domésticos de cada casa romana, dia e noite alumiados.
 
      
  
Ao redor dos «lares» reúne-se a família, sentada nos bancos de madeira – os «escanos» –, a dar voz à ceia e aos serões do tempo frio, aconchegada no calor do lume, quando a água gela nas fontes e deixa de fazer ouvir a limpidez do canto.
  
Igreja de Nossa Senhora da Purificação de Podence.
 
Na manhã de Quarta-Feira de Cinzas, despidos os fatos de «careto», que se usaram até Terça-Feira de Entrudo, todos comparecem à missa na Igreja de Nossa Senhora da Purificação. A partir desse dia é considerado pecado ouvir-se um chocalho – em Podence os animais não  costumam usá-los; só os «caretos».
 
Soledade Martinho Costa
                                                      
                                          
  
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. II
Ed. Círculo de Leitores
 
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Domingo, 7 de Fevereiro de 2010

CRÓNICAS DE PORCELANA - SOLI E A SOLIDÃO

 
  
No final das férias do último Verão, a família juntou-se, depois do jantar, num serão na sala da casa do Algarve. A Soli, que nas férias goza do privilégio de deitar-se mais tarde, estava presente. Brincava com os puzzles que gosta de trazer para a sala. A tranquilidade era absoluta e a conversa decorria, amena, a fazer passar o tempo, sempre agradável quando a família se reúne.
 
A dada altura, a Soli, sem que ninguém o houvesse sugerido (como acontece muitas vezes), começa na sua arrumação: peças dos puzzles dentro das  caixas, sinal de que o entretenimento tinha chegado ao fim. Reparei, mas mantive-me calada. Logo depois, a Soli anuncia:
- Vó, vou ter com a mamã.
- Porquê, Soli? – Perguntei.
- A mamã está sozinha. – Foi a resposta.
- Porque a mamã, naturalmente, quis estar sozinha. Por isso, não nos fez companhia… – Argumentei.
- Pois, Vó. Mas a mamã «deve estar com muita solidão».
- Pode não estar. A mamã, se calhar, preferiu ir ver televisão, ler um livro…Não me parece que «esteja em solidão»…
E a Soli a insistir:
- Mas tenho mesmo de ir, Vó. Tu tens companhia, mas a mamã não tem.
E eu a insistir também:
- Repara, Soli, a mamã pode querer estar sozinha. Às vezes os adultos precisam de silêncio, de sossego, de ficar um pouco a sós com eles próprios, entendes, querida?
- Entendo. – Repondeu. E acrescentou:
- Eu estava a brincar e a pensar na mamã.
- Queres contar?
- Sim, Vó. Sabes, estava a pensar que a solidão é uma coisa muito, muito triste.
- Tens razão. Mas não é o caso da tua mamã. – Contrariei.
De nada me valeu. A Soli meteu as caixas dos puzzles debaixo do braço e levantou a carinha à espera dos beijos. Achei que não devia contrariá-la. Despediu-se de todos com mais beijinhos de boa-noite e lá foi, fazer companhia à mãe (no apartamento da porta ao lado).
 
E dei comigo a pensar: «como é que uma menina com seis anos tem consciência de que «a solidão é uma coisa muito, muito triste»?! Eu sei que as crianças escutam muitas vezes as conversas dos adultos, e nós nem damos por isso. Que vêem reportagens na televisão, que não deviam (ou deviam?) ver, sobre o abandono, a solidão dos mais idosos –  embora haja solidão em qualquer idade. Na escola o assunto «solidão» é capaz de ser abordado. Os próprios desenhos animados, por muito mal que se fale deles, têm pontos positivos. Por vezes, a chamar a atenção dos mais pequenos para algumas situações da vida. Quem sabe se já não abordaram o tema da solidão? Sei o que digo porque sou «obrigada» a ver muitas das séries infantis. Os meus netos sabem, sem margem para erro, os horários a que vão para o ar.
 
Quero dizer que as crianças, hoje, estão a par do muito que devem saber e do muito que deviam ignorar. Não sei, francamente, se poderá chamar-se «prevenção» a muitas das coisas que não deviam ver nem saber. Também é verdade que não os podemos preparar para a vida dentro de uma redoma. Por mais que tentemos protegê-los, o mundo que os cerca  encarrega-se de os elucidar. Quantas vezes da maneira menos conveniente, ou cedo demais – pensamos nós.
 
A Soli foi fazer companhia à mamã. Pareceu compreender o que quer dizer a palavra solidão. Não era o caso, mas ela assim o entendeu e vale pela preocupação que demonstrou. Pensou que a sua companhia iria atenuar ou fazer desaparecer «a solidão da mãe».
 
Acabei por ficar feliz com esse cuidado e apreensão evidenciados pela Soli. É bom sinal. Assim ela se mantenha atenta e preocupada com a eventual solidão familiar – ou alheia. Neste caso, os receios eram infundados. Um dia, podem não ser. Já Amália Rodrigues cantava «Solidão», com versos de sua autoria: «Por mim ninguém/Já se detém/Na estrada.» Daí, a esperança, a confiança que deposito no comportamento humano e cívico das crianças que vão ser os homens e as mulheres de amanhã.
 
Que a Soli nunca deixe a mãe «em solidão» – como tantos e tantos filhos que não aprenderam ainda o significado dessa palavra. Filhos que talvez um dia venham a saber o seu sentido. Quando a solidão, a cada minuto, a cada segundo que a vida lhes der para viver, lhes pesar na alma e no coração.
 
Soledade Martinho Costa
                                         
                                                              
 
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Quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

JOÃO VILLARET

 

  
Fosse janela aberta sobre um palco
E tudo ressurgia como dantes:
 
Personagens, palavras, gestos, pausas.
 
Igual ao fruto
O dom germina, nasce.
 
Da Arte
Não se procure as causas.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “O Nome dos Poemas”             
          
publicado por sarrabal às 19:42
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