Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

POEMA RENASCIDO

 

 
Se Abril voltasse
A percorrer as ruas
E com ele na mão
Um cravo rubro
Os anseios que nascessem
Nesse dia
Trariam a certeza
De que os homens
Nem sempre procuram
A magia
Que faz dormir em paz
As consciências.

Se o outro Abril
Não passou de um sonho
Se respiramos hoje
Esta amargura
E os cravos se tornaram
Cor de bruma
A seara continua
A oferecer ao vento
O dourado do manto
E a formosura.

A murmurar, talvez
Que o Norte anda à deriva
Sem rota, sem leme ou timoneiro
Mas que resiste em nós.

A segredar ao coração
A tempo inteiro
É urgente ir em busca da bonança
E deixar que o Sol rompa o nevoeiro.

A fé não está perdida
É urgente ir em busca do poema
Que se fez canção
E fez bandeira
Em nossa voz
Agora adormecida
À espera de a ouvirmos
Renascida
Cantada noutro tom
Em vez primeira.
 
Soledade Martinho Costa
publicado por sarrabal às 00:56
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Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

COISAS DA VELHA DO ARCO - A «CARRAÇA»

 
Viviam na mesma casa há já uns anos. Tinham vindo do Norte. Coisas de negócios, falências, necessidades, originaram a sua vinda para o Sul (Algarve). Objectivo? Reorganizarem a vida, que dinheiro já tinham tido com fartura. Marido e mulher, dois filhos, na casa dos vinte e poucos anos, e os pais do primeiro.
 
Laurinda, a mulher do Saraiva, com quarenta e três anos, bonita, vistosa, cabelo negro, curtíssimo, olhos grandes, da mesma cor, rosto com traços a fazerem a inveja de muita mulher. Arranjada, decotada, moderna, sexi. Como tinha aptidão para a cozinha, arranjou trabalho num hotel como cozinheira. O Saraiva, que fora empreiteiro nos bons tempos, conseguiu trabalho no mesmo ramo. O filho acompanhou-o. A filha casou logo depois e o problema dela ficou resolvido. Voltou para o Norte. O pai do Saraiva, casado pela segunda vez, estava aposentado.
 
Laurinda, apanhado o jeito de conversar comigo, fazia-me confidências sempre que vinha, nas folgas, limpar as escadas e os patamares. O casamento estava por um triz. Durava há vinte e cinco anos. Já não aguentava mais. Os problemas tinham surgido logo após o casamento: o marido eram noitadas, mulheres, dinheiro esbanjado, copos. Maus-tratos físicos, não. Psicológicos, muitos. Tinha ciúmes da Laurinda, criticava-lhe o vestir, o calçado, as pinturas. No Algarve as coisas não melhoraram. Pelo contrário. Laurinda chegava a sair de casa a meio da noite, em pijama, para ir acabar o sono (se é que o tinha começado) em casa de pessoa amiga. «É uma tristeza a minha vida! – Dizia-me. E acrescentava decidida: - Vou deixá-lo. Arranjo casa e vou-me embora. E já o devia ter feito há muito tempo!»
 
O Saraiva sabia dos propósitos da mulher. Chorava junto de quem tinha paciência para escutá-lo. A Laurinda era a mulher da sua vida. Nunca tinha amado outra mulher daquela maneira. «Se ela me deixar, mato-me, pode ter a certeza!», confessou-me certa vez. Impressionaram-me as suas palavras e as suas lágrimas. Implorou-me que intercedesse por ele junto da Laurinda. Falei com ela. Respondeu-me: « É o costume. Ele faz sempre a mesma coisa. Chora, diz que se mata, mas é mentira. Gosta agora de mim! Se gostasse não me fazia a vida num inferno. Ajudava nos gastos da casa e não se embebedava!»
 
Fiquei confusa. Tantas tinham sido já as confidências, que acreditei na Laurinda. Certo dia contou-me que tinha arranjado casa: «Finalmente, vou ter uma vida descansada! – Afirmou.»
 
O filho foi com ela. Na casa que deixou ficaram os sogros e o marido. Tempo depois, os sogros voltaram para o Norte e o Saraiva ficou sozinho. Nas conversas que tinha dizia que deixara de beber. Chegou a oferecer a um dos seus amigos duas garrafas de aguardente de medronho «porque já não fazia sentido tê-las em casa». Homem de olhos tão verdes como nunca vi, começou a andar mais aprumado. Volta não volta, afirmava: «A bebida é que me fez perder a mulher. Por isso, acabou-se!».
 
Com um pé dentro, outro fora do desemprego, habituado durante anos a ser patrão, o Saraiva não tinha grande vocação para empregado. Por esta altura, foi fazer um trabalho numa propriedade em Monchique. Chegada a hora do almoço, a pessoa que o contratou convidou-o a acompanhá-lo ao restaurante. Conhecedor da situação do Saraiva no que tocava a bebida, mandou vir uma garrafa de água e outra pequena de vinho. E logo o Saraiva: «Ó senhor engenheiro, mande vir antes uma garrafa de litro. É que dias, não são dias!»
 
E enquanto o senhor engenheiro bebeu metade de um copo de vinho tinto, o Saraiva bebeu o restante. Ao saber disto, pensei: «Lá se foram as boas intenções do Saraiva.». Com efeito, ninguém o vê a cair de embriagado, mas que tem sérios problemas com a bebida, isso tem. Coisa que vem de longe. Ainda que afirme (como é costume em casos similares) «não ser um alcoólico».
  
Noutra ocasião em que encontrei o Saraiva, diz-me ele para meu espanto: «Hoje vou almoçar a casa da Laurinda!» Dias volvidos anuncia-me, alegre que nem um passarinho: «Esta noite não dormi em casa. Fiquei em casa da Laurinda!»
 
Será possível, perguntei a mim própria. Só tive resposta quando a Laurinda me confirmou que sim. «Mas, então… – Argumentei.» Diz a Laurinda a rir: «Mas há lá pessoa mais maluca do que eu? Não há! Pois é. Vai lá comer e tem direito a sobremesa e a café! Já me apareceu com a roupa para eu dar um jeito e esta parva que está aqui tratou-lhe de tudo. É uma autêntica carraça. Está bem como bem. Melhor do que nunca!»
 
Concordei. Entretanto, o Saraiva acabou por deixar a casa onde habitava sozinho. Tempo depois voltei a falar com a Laurinda. Confirmou novamente: «Ah, pois, agora almoça, janta e dorme lá em casa. É o que eu digo, não tenho juízo! Mas que hei-de fazer? Apareceu-me com a mala da roupa e mais uns sacos. O meu filho cedeu-lhe a cama e tem lá dormido. E não me dá um tostão. Na outra casa ainda pagava uma parte da renda, agora nem isso. Eu sempre sou muito parva! Mas já lhe disse a ele: olha que é por pouco tempo. Trata da tua vidinha, porque qualquer dia ponho-te a tralha toda na rua. Já o avisei!»
 
Cá para mim, devem ser os olhos verdes, verdes, do marido – ainda que não seja propriamente um «gato». E também os vinte e cinco anos de casamento. E também os filhos. E também o neto que vai chegar por um destes dias. E também o amor, quem sabe o afecto, que liga ainda a Laurinda ao Saraiva, por mais que ela diga que não.
 
Se o Saraiva não sair de casa da Laurinda, como parece ser sua intenção, a Laurinda só tem uma hipótese: começar de novo à procura de casa. O problema está em que o Saraiva costuma dizer: «Eu, por aquela mulher, vou até ao fim do Mundo!».
  
Dadas as circunstâncias, acredito. Assim como acredito que deve haver poucos casos como este. Mais. Supondo que a Laurinda arranje uma casa «no fim do Mundo», com a prática que o marido tem em «falar-lhe ao coração», quando a Laurinda lá chegar, já o Saraiva lá está à espera dela!
 
Soledade Martinho Costa
 
 
 
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ESCOLHA

 

 

Não me digam dirás
Pois não direi.
 
Não me digam farás
Pois não farei.
 
Serei eu só
A decidir por mim
O que digo
O que faço
Aonde irei.
 
Não me digam mais
Se disser só.
 
Não me digam logo
Se é agora.
 
A mim me cabe
Com pressa
Ou com demora
A escolha da carta com que jogo.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “Reduto”
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Sábado, 11 de Abril de 2009

PÁSCOA - O RITUAL DAS AMÊNDOAS (ANTIGAS TRADIÇÕES)

 
Pela sua configuração, supõe-se que as amêndoas simbolizem a consagração do ovo, constituindo um presente alimentar cerimonial dos mais populares e específicos da doçaria da quadra pascal.
 
Na Figueira da Foz, antigamente, desde o início da Quaresma até ao Domingo de Ramos, aquele que fosse o primeiro a chamar «padrinho» ou a «pedir as amêndoas» a quem encontrasse ao sair de casa tinha direito a recebê-las no domingo de Páscoa. Costume idêntico regista-se ainda hoje em Monsanto (Beira Baixa), praticado pelos mais idosos que, à laia de brincadeira, lembrando tempos antigos, dizem ao encontrar alguém conhecido após as «aleluias», na noite de Sábado Santo: «Belamente se passou a Quaresma, passe para cá as amêndoas!» – como era costume dizer então.
 
 
Outro jogo/ritual da Quaresma com o nome «gancho dos compadres», acontecia nas aldeias do concelho de Alenquer (Estremadura), consistindo a praxe em duas pessoas (geralmente um rapaz e uma rapariga), na Quarta-Feira de Cinzas assumirem o «contrato» de ficarem «compadres». Como assentimento, enganchavam os dedos mindinhos de ambos. A partir desse momento sempre que um deles fosse o primeiro a ver o outro, dizia: «Contratar, contratar, ao almoço e ao jantar, quando eu te mandar rezar, reza!» Repetia-se isto tantas vezes quantas as que acontecia encontrarem-se. Havia quem chegasse a esconder-se para apanhar o «compadre» ou a comadre» de surpresa e somar pontos.
 
 
O jogo era interrompido na Quinta e na Sexta-Feira Santa, para recomeçar no Sábado Santo e terminar no domingo de Páscoa.
Se ganhava o «compadre», a «comadre» oferecia-lhe um folar, se acontecia o contrário, era o «compadre» que oferecia amêndoas à «comadre».
 
Em Afife (Minho) era hábito nesta quadra as raparigas oferecerem ovos aos rapazes, pedindo-lhes em troca um presente de amêndoas.
 
 
Na Sertã (Beira Baixa) eram os rapazes a oferecer em primeiro lugar as amêndoas às raparigas, para que estas lhas retribuíssem depois com bolos especialmente feitos para esta ocasião.Também em Nisa (Alto Alentejo) se cumpria o ritual de serem os rapazes a oferecerem às namoradas um pacote de amêndoas na Semana Santa. O cerimonial desta oferta repetia-se em Estremoz (ainda no Alto Alentejo), na Quinta-Feira Santa depois da missa, à porta da igreja.
 
 
Refira-se, por isso, o antigo uso verificado em Beja (Baixo Alentejo) na Quinta-Feira Santa, durante a cerimónia do «lava-pés» («lava-pedes» no dizer local). Nesse dia, as senhoras da melhor sociedade levavam à igreja salvas de prata com amêndoas – os «caroços de alcorça» –, recheadas com ovos-moles ou com chocolate, destinadas a treze idosos do lar da Misericórdia. Os pobres recebiam ainda vestuário completo, uma esmola em dinheiro e uma «maçã de alcorça» (ou alcorce) em tamanho natural. As treze «maçãs» (tal como o número de idosos a simbolizar Cristo e os Apóstolos), eram dispostas numa salva de prata, sobre uma credência apropriada para o efeito. No final da cerimónia cada idoso oferecia a sua «maçã» ao mesário, em casa do qual, nesse dia, todos eram recebidos para jantar, como mandava a tradição.
 
Ainda em Beja, as «amêndoas de alcorce» eram distribuídas aos «anjinhos» para que se «aquietassem e seguissem sossegados nas procissões».
 
 
AMÊNDOAS COBERTAS DE MONCORVO
 
 
 
Brancas e grandes, só de açúcar, ou castanhas com chocolate ou com cacau e canela, têm grande fama as amêndoas cobertas de Moncorvo.
 
Confeccionadas e vendidas durante todo o ano, principalmente na Páscoa, obedecem a um fabrico artesanal trabalhoso. Tempos atrás, misturavam-se as brancas com as castanhas em pacotinhos. Hoje, as confeiteiras ou «cobrideiras», raramente fazem estas últimas devido à morosidade da sua elaboração. Basta dizer que cinco quilos de amêndoa coberta representa um mês de trabalho com a duração de sete a oito horas por dia.
 
 
Com origem na doçaria conventual, confecciona-se utilizando a «bacia», em cobre, suspensa sobre o «caco», recipiente de barro (geralmente um pote ou fogareiro) com brasas dentro, ardendo em borralho, de modo a manter a «bacia» com uma temperatura moderada.
 
A antiga «partidela».
 
As operações são várias. Primeiro procede-se à «partidela», hoje por processo mecânico, seguindo-se a introdução do miolo da amêndoa em água fervente para «despelar o grão». Após «pelada» e seca vai ao forno para torrar levemente. Seguidamente, é separada para retirar a amêndoa partida, só depois sendo colocada na respectiva «bacia».
 
O trabalho moroso da fabricação da amêndoa coberta.
 
À parte faz-se uma calda de açúcar em «ponto de fio» (considerada «a base do segredo»), que as «cobrideiras» vão deitando lentamente sobre as amêndoas, mexendo sempre, conforme o preceito, de baixo para cima e de cima para baixo, utilizando quatro dedais em cada mão (dedais de costura), deles resultando os biquinhos que revestem a cobertura das amêndoas, a revelar, desde logo, a sua proveniência.
 
Em movimentos certos e lentos, mantendo uma temperatura constante, ao fim de uma semana o miolo da amêndoa apresenta a chamada «carapinha branca». Nessa altura dá-se-lhe o nome de «amêndoa peladinha». Até ficar totalmente coberta demora um mês ou mais, após iniciada a confecção.
 
As amêndoas de chocolate e as de cacau e canela são as «amêndoas cobertas», ou seja, as amêndoas brancas revestidas depois com uma camada destes dois ingredientes.
 
Em Moncorvo, faz parte da praxe nos casamentos, disporem-se sobre as mesas dos convidados amêndoas cobertas, embrulhadas em tule, que são oferecidas também à noiva.
 
 
A confecção tradicional destas amêndoas em casas particulares esteve praticamente perdida há uns vinte anos. Hoje, pode dizer-se que não chega para as encomendas, tanto do mercado nacional como do estrangeiro.
 
De acrescentar-se que as amêndoas só apareceram quando o açúcar foi introduzido na Europa. No século XIV já era cultivado em toda a zona mediterrânea.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol III
Ed. Círculo de Leitores
 
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Terça-feira, 7 de Abril de 2009

SEMANA SANTA EM BRAGA - OS «FARRICOCOS»

 

 Sé de Braga.

 

Pela sua importância no contexto das cerimónias litúrgicas que ocorrem um pouco de norte a sul de Portugal durante a Semana Santa, não podem deixar de registar-se as que têm lugar em Braga, onde o conjunto impressionante e único das procissões, particularmente as nocturnas, faz acorrer àquela cidade milhares de fiéis vindos de todo o país, mas também peregrinos oriundos de Espanha e de outras partes do Mundo.

 

  

 Procissão do Senhor Ecce Homo.
 
Assim acontece na Quinta-Feira Santa com a Procissão do Senhor Ecce Homo, popularmente designada por Procissão do Senhor da Cana Verde, a lembrar as palavras proferidas por Pôncio Pilatos aos Judeus: «Eis o homem», quando lhes mostrou Jesus Cristo coroado de espinhos, com uma cana verde nas mãos a servir-lhe de ceptro. Nesta procissão incorporam-se, obrigatoriamente, todos os irmãos da Irmandade da Misericórdia.
 
«Farricocos» 
 
À frente, descalços e encapuçados, caminham os «farricocos», vestidos com túnicas negras até meio da perna (os «balandraus»), uma corda atada à cintura, outra a cingir-lhes a testa e a cabeça, sobre uma espécie de capuz com dois buracos para os olhos.
 
 
Chamados igualmente «os homens dos fogaréus», transportam um cabo de madeira, altíssimo, na ponta do qual balança uma bacia de cobre contendo pinhas a arder em chama viva. São acompanhados por outros «farricocos» com cestas cheias de pinhas destinadas a alimentar os fogaréus.
  
  
Em tempos recuados competia aos «farricocos» a tarefa incómoda de «lançar as pulhas», ou seja, de divulgar ou caluniar publicamente os mais íntimos segredos de cada família, a coberto da escuridão e do disfarce, atingindo, indistintamente, quem calhava. Outras vezes, após a procissão, espalhavam-se pelas ruas, noite dentro, causando medo a quem com eles se cruzava.
 
 
Havia também os «farricocos» que se limitavam a fazer soar as «matráculas», após o silenciamento dos sinos, na intenção de chamar os fiéis ao culto ou a lembrar-lhes a confissão e a penitência – tal como se faz ainda hoje em Braga e noutras localidades durante o dia de Quinta-Feira Santa.
 
 
Na sua origem pagã, estes homens tinham por missão anunciar às pessoas, pelas ruas, utilizando as «matráculas», a passagem dos condenados, relatando os crimes por eles cometidos. Posteriormente cristianizados, os «farricocos», associados depois ao relato das «pulhas», limitam-se, actualmente, a tocar as «matráculas», mantendo a tradição litúrgica, e a fazer parte dos cortejos processionais desta quadra.
 

 

Na cidade de Braga, destaca-se ainda, na Sexta-Feira Santa, a Procissão do Enterro do Senhor, instituída em Portugal desde os finais do século XV. Tocante manifestação de fé e recolhimento, nela seguem os irmãos da Misericórdia e de Santa Cruz, encapuçados, a arrastar compridas varas; os cónegos, levando na mão uma tocha acesa e envergando os respectivos mantos negros, com caudas de três metros (seguras por «caudatários», garotos que não conseguem impedir que parte do manto arraste pelo empedrado das ruas) e crianças, umas vestidas de anjos, (transportando símbolos alusivos à Paixão: cruzes, cálices, coroas de espinhos, lanças, cordeiros), outras representando figuras de santos, caso de Nossa Senhora das Dores com as sete espadas cravadas no peito.

 

Nesta procissão as «matráculas» vão caladas e os fogaréus apagados, assentes no ombro dos «farricocos», sempre descalços e encapuçados.
 
Procissão do Enterro do Senhor.
 
O impressionante silêncio que se verifica à passagem do cortejo contribui, decisivamente, para pôr em evidência este desfile humano, sentido e penitente, interrompido apenas, a espaços, por uma voz que se destaca a entoar, perante o recolhimento da multidão: «A el libitum lamentabile»;«Heu, heu, Domine,heu, Salvator Noster!».
          
                                            Procissão do Enterro do Senhor.
 
A Procissão Teofórica – nome que provém de Teofania, designação antiga da Epifania dos cristãos – faz igualmente parte do ritual litúrgico bracarense desta quadra. Efectua-se na Sexta-Feira Santa no interior da Sé (e só ali), ao redor das naves, onde uma hóstia consagrada e a bíblia são metidas num caixão, levado aos ombros pelos Cavaleiros do Santo Sepulcro, assinalando o final da Paixão de Jesus Cristo, cerimónia acompanhada por cânticos medievais.
 
                                                         Procissão Teofórica
 
Neste cerimonial, os cónego vestem paramentos negros e cobrem a cabeça com os amictos, em sinal de luto. Trata-se de um pano rectangular de linho, com uma cruz no meio e fitas em duas pontas, que serve para cobrir também os ombros e o pescoço do sacerdote.   O amicto começou a ser usado no século VIII, sobre a alva (vestimenta de pano branco), sendo utilizado em certas ocasiões para com ele o sacerdote cobrir a cabeça quando ia ou vinha do altar. Hoje, é a primeira veste sagrada e fica por baixo da alva. Significa a fé, base e fundamento das virtudes que devem guindar o sacerdote.
  
 Interior da Sé de Braga.
 
As procissões da Semana Santa foram introduzidas no arciprestado de Braga entre 1500 e 1510.
 
Soledade Martinho Costa
                                                
 
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. III
Ed. Círculo de Leitores
 
 
publicado por sarrabal às 19:16
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Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

SEGREDOS - O «PRETO»

 
Estava na minha casa do Bom Velho de Cima (friso sempre o «de Cima», porque há também o «de Baixo») apenas há uns dias quando apareceu por lá um cão desconhecido. Acontece muitas vezes. São cães abandonados, ou que fogem ou que se perdem por entre o matorral e os atalhos a encurtar caminhos pelas matas ou vinhedos, que levam às aldeias. Alguns acabam por regressar ao ponto de partida, outros, perdido o faro e a orientação, vão ficando por aqui ou por ali, entregues ao abandono e à fome.
 
Com um pouco de sorte juntam-se aos demais cães que tomam conta das aldeias e, mais um menos um, não dá grande ralação aos habitantes desses lugares perdidos entre serras, montes e vales. Onde não come um, podem comer dois, esta é a verdade. Felizes aqueles que encontram mão amiga para os socorrer. Aí, é certo e sabido que esquecem o lugar de onde vieram, dispostos a viver uma nova vida.
 
Foi assim que o tal cão por ali ficou, aceite pelos outros rafeiros residentes, mais rosnadela, menos rosnadela. Ainda arredio, olhava-me de longe. Não se aproximava nem quando lhe colocava o prato com comida. O rabo, trazia-o ele entre as pernas, tão escondido que mal se via. Sinal da sua tristeza e do seu medo. Todo preto, e tão feio de corpo e de focinho, como eu nunca vira outro cão igual. Nem cheguei a ver depois.
 
De início, eu acabava por retirar a comida sem que o animal nela tivesse tocado. Permanecia parado, a uns acautelados metros, com a fome estampada no focinho. Mesmo assim, sem se aproximar. De vez em quando estalava uma zaragata com os outros cães, mas ele, embora assustado, não arredava pata.
 
Um dia, finalmente, aproximou-se da comida e o prato ficou limpo. Achei que tinha um ponto a meu favor. Baptizei-o sem originalidade: «Preto», por ser totalmente preto o seu pelo. Assim passei a chamá-lo e assim passou a ser conhecido na aldeia. Nesta altura já ele me seguia os passos, embora a uns metros, poucos. Começava a habituar-se às pessoas e ao ambiente da aldeia.
 
Um dia, uma habitante do Bom Velho de Cima, ali nascida e criada, já bastante idosa, viu o «Preto». Ao olhá-lo, a senhora Mabília, benzeu-se, como era seu hábito em diversas ocasiões, cruzou depois as mãos sobre o ventre e disse sem o desfitar:
- Credo! É um pobre de um penitente. Mas tão feio…Dê-lhe carinho, minha senhora, dê-lhe carinho, que está a fazer uma esmola.
Fiquei impressionada com as suas palavras. Nas aldeias é assim.
 
O tempo foi passando e o «Preto» começou a vir comer juntamente com os outros cães – era eu ainda a cozinheira dos rafeiros da aldeia. Sentados à espera da comida, sem brigas, sem ladrar, comia um de cada vez, mantendo-se os restantes, ordeira e pacientemente à espera da refeição. Assim os habituei.
 
Por opção minha, o «Preto» era o primeiro a ser servido. Deixava quase sempre um resto de comida no prato. Acostumado que estava a passar fome, comia sempre menos do que os outros. Por esta altura já o «Preto» abanava o rabo quando me via, facto que veio marcar mais uns pontos a meu favor. Mais pontos marquei quando uma tarde se deitou no chão, a meus pés, barriga para cima, rebolando-se na terra, à espera de uma festa. Entretanto, tinha sido desparasitado, tomado um banho e mão amiga tirara-lhe as carraças, tipo piercing, que lhe enfeitavam as orelhas. Continuava feio, muito feio, mas o pelo baço apresentava agora um semi-brilho.
 
Fiz-lhe uma cama num velho palheiro abandonado, onde dormia as sestas e à noite. Mas bastava pressentir-me ou ouvir a minha voz, para o «Preto» aparecer de imediato. Se o chamava, corria na minha direcção, vindo quase sempre do palheiro. Diziam-me algumas pessoas que «o animal era já muito velho». Coisa de que não duvidei.
 
Passou entretanto o tempo da minha permanência no Bom Velho de Cima. Perto de três meses, pelas minhas contas. Tinha chegado a altura do regresso. Comecei a preocupar-me com o «Preto». Foi então que pedi às pessoas que residem mais perto de mim, que não deixassem de lhe dar água e algum alimento. Que sim, «ficasse eu descansada», assim fariam.
 
No dia da partida, o «ti» António Maçarico diz-me, com um certo à-vontade, lá da porta:
- Atão, porque é que a senhora não leva o cão consigo?
- Ora, senhor António – Respondi. – Porque se eu quisesse um cão já o tinha arranjado.
- Mas a senhora dá tanto mimo ao «Preto», dá-lhe comida, fez-lhe casa no palheiro… – Continuou.
- Pois sim. Mas o cão não é meu. Apareceu por aqui e limitei-me a tratá-lo. Não me sinto na obrigação de o levar comigo. Agora é a vossa vez de ajudarem o animal. – Rematei.
 
Foi com pena que deixei o «Preto». Já no Algarve pensava muitas vezes nele. Continuava preocupada, confesso. E com razão. Passara pouco mais de um mês quando telefonei para o Bom Velho De Cima. E logo a notícia: o «Preto» tinha morrido. Deram com ele morto dentro do palheiro. O «Preto» descansara  do seu fadário. Fora feliz por uns escassos três meses. Imagino que tivesse passado fome e sede. Imagino que não tivesse voltado a ouvir uma palavra de carinho. Imagino (porque não?) que lhe tivesse faltado a minha presença, a minha voz, os meus cuidados. O «Preto» poderá ter morrido debilitado por falta de alimento. Acredito. Mas ninguém me convence que não terá morrido de saudades. Mais do que a falta de alimento (ele até já estava habituado), foram elas, as saudades, que mataram o «Preto».
 
Soledade Martinho Costa
  
 
 
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