Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

HISTORINHAS - A ESTRELA E A LUA

  
Ainda o Sol dormia, quando no céu uma estrela piscou os olhos de espanto. O que seria aquilo lá em baixo na Terra, que não se recordava de ter visto antes? Aquela fita serpenteada e luzente, idêntica à sua própria luz, ao alumiar, com as irmãs, a cortina da noite? Sim, porque ela bem via, sempre que se mirava no espelho do mar, que brilhava, brilhava, igualzinha àquele ponto que contemplava agora da janela da sua casa. «Só logo, mal volte a escurecer, poderei perguntar à senhora Lua o que se passa ali, naquele sítio da Terra que do céu costumo alumiar todas as noites», pensou, a lembrar-se do Sol, prestes a despertar.
 
E a estrela teve apenas tempo de saudar a luz do dia antes de se meter dentro de casa e fechar a janela para ir dormir.
 
A luz do dia, essa, buscou logo todos os cantos para se instalar. Tudo lhe servia. Na praia, os buracos dos rochedos. Nos jardins, a frescura da terra entre os pés dos crisântemos e dos aloendros. Nas casas, os ninhos nos beirais, vazios de andorinhas. No povoado, os quartos onde os meninos ainda adormecidos sonhavam sonhos bonitos antes de acordar para seguirem a caminho da escola.
 
No céu a estrela que do alto conhecia bem o povoado, põe-se de novo à janela. E numa voz feita de brilho, não se contém. Ei-la a chamar a lua, sua companheira de vigília até de madrugada:
- Senhora Lua! Ó senhora Lua!
 
  
 
A lua responde prontamente ao seu chamado:
- O que foi, Estrelinha, alguma novidade? – Pergunta ela.
- Oh, sim, gostava de saber o que se passa lá em baixo, naquele ponto da Terra que costumo alumiar todas as noites. Gostava que me dissesse o que vem a ser aquela fita serpenteada e luzente que não me lembro de ter visto antes.
A lua sorri, complacente.
- Então, Estrelinha, já esqueceste? Estamos no Inverno. O que vês lá em baixo luzente, a copiar a tua luz, é simplesmente o rio, que vai cheio, porque a chuva chegou!
- Ah, senhora Lua, tinha-me esquecido…
E a estrela pergunta desta vez:
 - Como é que sabe tantas coisas, senhora Lua sábia?
- Olha, Estrelinha, eu não sei tantas coisas como julgas. Nunca o saberei. Mas tento. Sabes, viver é aprender constantemente…
E lá ficam as duas, nessa noite, à conversa no céu. A lua e a estrela curiosa.
 
Soledade Martinho Costa
                                               
 
 Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”
Ed. Publicações Europa-América
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Sábado, 24 de Janeiro de 2009

COISAS DA VELHA DO ARCO - COINCIDÊNCIAS

 
De há uns tempos para cá, tenho andado atenta a alguns anúncios ou pequenas notícias lidas em jornais ou aqui ou ali, ou ouvidas na TV, quase sempre no telejornal. Delas retenho pormenores que me têm chamado a atenção e despertado o sorriso, perante as partidas que as palavras nos pregam, a originar a ironia e a graça, consoante a forma de lhes descobrir o absurdo, a incongruência ou a coincidência que levam ao humor. Basta um pouco de atenção para encontrarmos com facilidade estes pequenos «tesouros» que as palavras, sabiamente, nos oferecem.
Fica um breve resumo:
 
Nomes e Profissões:
 
Pedro Pinheiro – assentador de soalhos
Elisa Salpico – empregada a dias
José Bulha – advogado
Carlos Bacalhau – ginecologista
António Faísca – electricista
Pedro Escuto – repórter de guerra (TV)
Alexandre Gallo – elemento da comissão de investigação sobre o nitrofurano nos aviários (TV)
Pena dos Reis – delegado do Ministério Público
José Cura – maestro argentino (colaborou no programa de apoio aos doentes com leucemia)
 
Pequenas Notícias:
 
Em Matos, Cheirinhos, os habitantes queixam-se de maus cheiros devido a uma empresa de transformação de lixos (telejornal).
 
Um médico, durante a consulta, deu uma bofetada a um menino de cinco anos que lhe chamou «totó». A criança chama-se Nuno Ladino.
 
Na noite de ontem registaram-se facadas e desordem na Rua do Crime, em Faro (telejornal).
 
A acidentada, Custódia Perfeita, era surda (telejornal).
 
Caiu uma placa na Rua da Firmeza (telejornal).
 
Nos Açores, houve uma inundação na Rua da Ribeira (telejornal).
 
Durão Barroso recebe o grande Cancelário da Confraria do Vinho do Porto. A esposa, Margarida Sousa Uva, ligada a uma família de produtores de vinho, acompanhou-o durante a cerimónia.
 
Em Mesão Frio, por motivo das baixas temperaturas, muitos automobilistas ficaram retidos na estrada devido ao gelo (telejornal).
 
 
A terminar, palavras para quê?
 
 
É um anúncio à portuguesa, com certeza…
 
 
 
Soledade Martinho Costa
publicado por sarrabal às 00:47
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Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

O LIVRO À MÃO - "O PASTOR DAS CASAS MORTAS"

 Daniel de Sá
 
«Foi Manuel Cordovão que ficou a guardar-lhe as memórias quando a Aldeia Nova da Serra envelheceu.» Assim começa o segundo capítulo desta novela da autoria de Daniel de Sá, escritor açoriano, natural da Ilha de São Miguel e a residir na cidade da Maia (concelho de Ribeira Grande).
 
Numa escrita límpida e fluente, a que já nos habituou, abordando um tema concreto que nos preocupa (a desertificação das nossas aldeias), Daniel de Sá descreve nesta sua última obra a vida de Manuel Cordovão, um pastor nascido numa aldeia beirã que, ao longo dos anos, não esquece aqueles que nela viveram, ali construindo a sua vida, a tornar possível uma vivência comunitária rural activa, amiga e solidária.
 
Manuel representa o elo que teima em reter as memórias dessa vida passada, como pertença de um património que guarda na sua própria memória, tentando aceitar e compreender as mudanças, embora sejam elas as causadoras da sua saudade, das suas recordações, da sua mágoa.
 
Manuel Cordovão sabe que o caminho para a perda dessa mesma vida comunitária reside na procura da estabilidade económica, que tem o peso e a força que faz mudar as consciências por muito apego que se tenha à terra: «O caudal das partidas sem retorno não parecia ter dique que o retivesse ou açude que o demorasse. Iam-se os mais novos e alguns dos que o não eram já, para Lisboa ou França ou Alemanha. Tal como na Aldeia Nova da Serra, também em quase todos os povoados menores só se viam velhos ou quem estava em vias de o ser, mulheres sempre à espera de carta, e crianças a crescer para serem grandes e terem pernas de andar para longe.»
 
Com um grau de inteligência pouco comum, Manuel Cordovão vive um amor de infância impossível, confessado ao longo das anotações que vai coligindo na sua agenda e que servem de caminho ao desenvolvimento da narrativa. Um amor que se manteve fiel ao longo dos anos a uma colega da escola primária, Maria da Graça, mas a obedecer, submisso, às regras familiares impostas, sem que qualquer atitude de ambos viesse contrariar essas regras ancestrais e impeditivas: «Tinha chegado a pensar que aquela paixão esmoreceria quando se tornasse adulto. Imaginara que os anos o tornariam muito diferente, que com todas as pessoas aconteceria isso ao subir a ladeira da idade. Afinal, pouco mudado se via. A criança que fora teimava em manter-se viva. Talvez o grande drama da morte de um adulto fosse isso…Um homem não morre sozinho (…) estão todas nele, as várias idades (…). Essa a tragédia, esse o destino: todas as idades e todos os sonhos a morrerem num só momento e num só homem.»
 
É também a solidão da serra, que motiva a sensibilidade e a imaginação quando se tem apenas a Natureza por companhia: «Talvez nunca ninguém tenha baptizado pedras, mas Manuel deu nome a muitas. De tanto viver com elas, chegou ao ponto de lhes falar. De lhes dar os bons-dias e desejar boa noite. Com ar sério, com sentimento a sério. Precisava delas para se sentar, para subir mais alto e avistar mais longe, para se deitar à sua sombra. E a gente ama aquilo de que precisa e dá nome àquilo que ama.»
 
Mas a mesma teima em manter a aldeia viva, recordando os rostos, os gestos, as palavras, sabendo, embora, da sua morte anunciada, não deixava Manuel Cordovão passivo: «Foi pela casa da Rita que Manuel Cordovão começou a tentar manter a aldeia com ar de estar ainda viva, ou pelo menos em condições de receber a vida, se a vida voltasse algum dia a precisar de abrigar-se nela.»
 
Por último, uma réstia de esperança que se antevê, sabendo-se que não passa de uma ilusão. De algo inatingível mas que domina a vida dos homens que não perderam o hábito de sonhar: «A felicidade viera atrasada quase meio século, mas acabara por chegar. E a aldeia nunca lhe parecera tão habitada como agora, só com Maria da Graça, lá em baixo, à sua espera.»
 
A certeza de ser o pastor das casas mortas daquela aldeia por si amada, teve-a no momento em que sentiu que a sua forma de amar englobava as pessoas, as casas e a serra que o viu nascer, num amor tão grande e tão intenso como a aceitação de ser, daí por diante, o único habitante da Aldeia Nova da Serra: «…Agora, Manuel era senhor da aldeia inteira. (…) …foi à sua e às outras casas e, com rama seca de giesta, acendeu (…) a lareira de todas elas.»
 
O livro, que Daniel de Sá dedica «Às mulheres e aos homens que ainda acendem o lume nas últimas aldeias de Portugal», tem a chancela da “Ver Açor”. Da bibliografia do autor fazem parte livros de ensaio, teatro, ficção e crónicas históricas.
 
“O Pastor das Casas Mortas” deixa-nos a convicção de que ninguém pode ficar indiferente perante uma aldeia que deixa de ter vida. A vida dos homens que nela viveram, que morreram ou partiram em busca de uma vida melhor, porque embora retirem da terra o alimento, «nem só de pão vive o homem». Este livro pode considera-se um apelo, uma acusação, uma romagem, mas também a esperança de que possa haver solução para que as nossas aldeias continuem a fazer parte não do nosso imaginário, mas da certeza de estarem bem vivas para melhor as podermos preservar e amar como herança que nos foi legada.
 
 
Soledade Martinho Costa

 

 
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Domingo, 18 de Janeiro de 2009

BORDA-D'ÁGUA - A APANHA DA AZEITONA II (ANTIGAS TRADIÇÕES)

  
 
Tarefa agrária das mais importantes, a estender-se de Novembro até Janeiro, a apanha da azeitona, por lugarejos, aldeias e vilas, sobretudo se a safra é pequena, continua a processar-se por varejo manual, como antigamente, embora hoje simplificada por acção mecânica.
 
Apanha da azeitona, Monchique, Algarve.
 
Assim se repetem, no desfiar dos anos, ritos e tarefas, risos e confraternização, nascidos de um tempo que não se apaga na memória das gentes. Todavia, se do presente pouco há a dizer, do passado não. Por isso se lembra aqui algumas das tradições de outros tempos das quais restam ainda alguns rituais que teimam em sobreviver.
 
 
Na Beira Baixa os «azeitoneiros» eram chamados diariamente para a colheita da azeitona pelo toque de búzios. Ao chamamento reuniam-se homens e mulheres munidos dos respectivos apetrechos indispensáveis à safra: escadas; cambos ou cambãos (pau com gancho para apanhar os frutos); joeiras ou cirandas (espécie de peneiras para separar o fruto das folhas); sacos; panais (panos que se estendem junto às oliveiras onde caem as azeitonas) e o varejão (vara grande para varejar as oliveiras), assim se dirigindo para os olivais, levando também os cestos da merenda. A hora do almoço e do jantar assim como o final da actividade diária eram igualmente anunciados pelo toque do búzio.
 
Apanha da azeitona, Pedrógão, Castelo Branco.
 
Terminada a safra o proprietário do olival ou olivais obsequiava então – como se faz ali ainda hoje – os ranchos com uma refeição, geralmente uma ceia composta por «uma sopa de feijão grande com hortaliça» (uso que permanece), «caldeirada de bacalhau» (substituída por um guisado de borrego ou de cabrito) e «papas de carolo», nunca faltando «as filhoses e o vinho» – tudo isso mantido actualmente de um modo mais restrito e familiar.
 
 
Acabada a refeição, organizava-se uma pequena festa com bailarico, que continua, por vezes, a efectuar-se. Por essa época, finais dos anos sessenta, sempre que aparecia uma visita no olival levada pelo patrão, principalmente quando se tratava de pessoa de certa posição social, uma das raparigas do grupo, escolhida entre as menos tímidas, munia-se de um raminho de oliveira com algumas azeitonas, misturado com flores silvestres e oferecia-o ao recém-chegado, quase sempre acompanhado com uma quadra que lhe dissesse respeito. No caso de a visita aparecer no lagar, acontecia outro preceito: com um pano dirigia-se à pessoa e, simbolicamente, limpava-lhe os sapatos. Usos que já lá vão.
  
 
Limpeza da azeitona utilizando uma ciranda (peneira feita de junco).
 
Quer na ida para o olival ou no regresso e durante a apanha da azeitona não faltavam também os descantes – cantigas lembradas e recuperadas hoje pelos ranchos folclóricos. Aqui fica uma delas: «Varejai, varejadores/Apanhai, apanhadeiras/Apanhai bolinhas d’oiro/Que caem das oliveiras». E ainda esta: «A oliveira do adro/Tem a folha revirada/Que lha revirou o vento/Numa manhã de geada» (ambas do Teixoso, Beira Baixa).
 
Oliveira.
 
Em Ançã (Beira Litoral), onde chamavam «cabras» às azeitonas que caíam fora dos panais de serapilheira, hoje substituídos pelos «panões», feitos de outros materiais – que cobrem a área total ao redor das oliveiras, sendo por isso menor o trabalho das mulheres –, os apanhadores cumpriam o uso de «penhorar» quem passava pelo olival. Uma das raparigas dirigia-se à pessoa levando um raminho de oliveira com algumas azeitonas agarradas e dizia-lhe uma quadra. Esta, no caso de ser um homem: «Aqui vai esta «penhora» /Que da minha mão se oferece/Ela não é como eu quero/Porque o senhor mais merece».
 
 
A pessoa respondia por vezes também em verso, não deixando de oferecer algum dinheiro que os apanhadores iam juntando para no final da safra oferecerem um presente ao patrão. Nesta altura formava-se um cortejo com música, a rapariga mais bonita do rancho à frente, seguindo até à casa do lavrador. À chegada estalavam os foguetes e oferecia-se o tradicional presente que consistia num cartucho com café, outro com chá, um outro com açúcar, biscoitos, amêndoas e azeitonas, levado num tabuleiro forrado com uma toalha de renda enfeitada com raminhos de oliveira.
  
 
Chamava-se ao ritual «penhorar o patrão». Em troca, depois dos abraços, o grupo entrava na casa, sendo-lhe servida uma refeição de sopa, bacalhau com batatas e vinho branco e tinto. Os trabalhadores sentavam-se à mesa, enquanto eram servidos pelos patrões, mulher e marido, a lembrar as Saturnais romanas, quando os escravos eram servidos à mesa pelos seus amos. A festa terminava com um bailarico que durava até altas horas, aberto pelo lavrador que escolhia para seu par uma das raparigas do rancho. Este cerimonial festivo repetia-se noutras localidades.
 
Pote e bilha de lata para armazenar azeite.
 
Uma outra tradição que se mantém, pelo menos na Beira Baixa e na Estremadura, diz respeito às «tibornas», manjar particularmente apreciado na época da safra da azeitona, sobretudo quando os lagares começam a «andar» (trabalhar), recordando a importância cultural e económica que lhes coube por tempos passados, quando grandes lagares de azeite funcionavam em pleno pelas quintas na sua maioria agora arruinados, companheiros de desdita de velhos e abandonados moinhos.
 
«Tiborna».
 
As «tibornas» mais não são do que fatias de pão aquecido na própria caldeira do lagar, colocadas num prato, polvilhadas com açúcar e regadas depois com azeite novo. O nome «tiborna» aparece também ligado à doçaria («tibornas» de Vila-Viçosa) ou feitas em casa, quando se coze pão, com este bem quentinho, mal sai do forno, molhado num prato com azeite novo, alhos e sal. Quem gosta junta-lhe um pouco de açúcar.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”,Vol.VIII
Ed. Círculo de Leitores
 
 
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Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

DIA DE SANTO AMARO - «O VARRER DOS ARMÁRIOS» NA ILHA DA MADEIRA

 Santo Amaro
 
Na ilha da Madeira celebra-se o dia de Santo Amaro (15 de Janeiro) de maneira particularmente festiva e cerimoniosa, colocando-se na mesa iguarias idênticas às do dia de Natal.
 
Casas tradicionais da ilha da Madeira.
 
Além de ser a data em que se desmancham os presépios ou lapinhas, decorre um pouco por toda a ilha da Madeira, no dia dedicado a Santo Amaro, um peculiar uso também ele alegre e festivo: «o varrer dos armários».
 
 
O ritual, recuperado em diversas localidades da ilha, varia, contudo, em relação à data da sua realização. Caso da Camacha, em que «o varrer dos armários», por tradição, tem lugar no dia de Santo Antão (17 de Janeiro), e de Câmara de Lobos, onde é celebrado no dia de São Sebastião (20 de Janeiro).
 
Aprender na escola a fazer a vassourinha e a pá.
 
Consiste a função em se juntarem nestes dias pequenos grupos de homens e mulheres – actualmente mais os jovens ligados a ranchos folclóricos e as crianças das escolas –, a fim de percorrerem as casas dos familiares, vizinhos e amigos (à semelhança dos «janeireiros» ou dos «reiseiros»), para entoar cânticos alusivos, acompanhados por bombos e violas.
 
Vassourinhas e pás nas mãos das crianças.
 
Munidos de uma vassourinha e de uma pá, para varrer os ditos, acontecendo que, por vezes, o fazem mesmo «para dar sorte», costumam (ou costumavam) levar uma saca destinada a arrecadar pequenas ofertas, geralmente bolos e doces.
 
A arte do vime, artesanato da Camacha.
 
Este costume serve, principalmente, para estreitar laços de boa vizinhança e de convívio, para se trocarem ditos e graças, sendo também motivo para se oferecer aos «vassoureiros» ou «varredores» (que em certas localidades continuam a apresentar-se mascarados), «a mesa posta com bolinhos e bebidas finas».
 

 

Festa de Santo Amaro, Camacha.
 
Na Camacha, a festa de Santo Antão, também designado ali por Santo António de Abade, começa na «igreja antiga», festivamente enfeitada com camélias, açucenas e verdura, como o alegra-campo. Há missa e procissão, seguindo-se no adro da igreja o «ofertório» com produtos da terra e animais. Logo depois, no próprio adro, é a vez dos «tocares e dos cantares tradicionais do varrer dos armários».
 
Lapinha de Natal, ilha da Madeira.
 
Os grupos começam então as suas visitas pelas casas, fazendo parte do preceito os anfitriões mostrarem aos visitantes as lapinhas, que são «desmanchadas nas casas após o santo Antão», enquanto os «vassoureiros», em troca, deixam nas casas «varridas» além das pagelas do santo, a vassoura ou a pá como presente, com a data do ano em curso.
 
Lapinha de Natal, ilha da Madeira.
 
«O varrer dos armários» é considerado como o prolongamento e encerramento das festas de Natal.
 
 
                          Rancho Folclórico da Casa do Povo da Camacha.
 
 
Canto tradicional dos «varredores» cantado no dia de Santo Amaro em diversas localidades da ilha da Madeira:
 
 

 

Vamos varrer a lapinha,
Deixai-nos entrar, Senhora,
Trazemos connosco a pá
E também uma vassoura.
 
Viemos de lá tão longe,
Do pé da terra dos alhos,
Trouxemos a vassourinha
Para varrer os armários.
 
Santo Amaro é bonito
É bonito não se o deixa
Para provarmos o vinho
Com cebolas de «escabecha».
 
Trazemos também connosco
Uma saca e uma pá.
Abra-nos a porta, Senhora,
Que queremos varrer já.
 
          
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol.I
Ed. Círculo de Leitores.
 
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Sábado, 10 de Janeiro de 2009

DIA DE SÃO GONÇALO DE AMARANTE

"São Gonçalo e os Peixes", Anadia, Diocese de Aveiro.
 
Diz a tradição que «no dia do seu baptizado, ao entrar na igreja, ergueu os braços para a imagem de Jesus Crucificado, o que a todos encheu de espanto. O facto repetia-se sempre que o menino era levado à igreja».
 
Igreja e ponte de São Gonçalo sobre o rio Tâmega, Amarante.
 
Depois de receber educação cuidadosa, vai para Braga onde é ordenado sacerdote. É-lhe então entregue a paróquia de São Paio de Riba (Vizela). Anos depois empreende uma longa peregrinação a Roma e à Terra Santa. Quando regressa, catorze anos passados, resolve percorrer toda a região de Entre Douro e Minho para efectuar as suas pregações. Conhecido pela sua bondade e beneficência, instala-se em Amarante, fazendo da sua casa o refúgio para os pobres e doentes das redondezas.
 
Ponte de São Gonçalo, Amarante.
 
São-lhe atribuídas a construção da Capela de Nossa Senhora da Assunção num rochedo sobre o rio Tâmega – onde foi enterrado e que deu mais tarde lugar ao Mosteiro de Amarante – e a edificação de uma ponte sobre o mesmo rio, que terá ajudado a construir com as suas próprias mãos, para evitar os perigos de naufrágios.
 
Altar-mor da Igreja de São Gonçalo, Amarante.
 
Após a sua morte, ocorrida ao que se supõe a 10 de Janeiro de 1262, espalha-se por toda a parte a fama dos seus milagres, já acontecidos em vida, o que leva até ao seu túmulo verdadeiras multidões. Beatificado em 16 de Setembro de 1561, o seu culto foi aprovado para Portugal pelos papas Júlio III e Pio IV e para toda a Ordem Dominicana pelo papa Clemente X em 1671.
 
Claustros do Convento de São Gonçalo, Amarante.
 
Na versão popular, São Gonçalo, o Piedoso, antes de efectuar a sua romagem à Terra Santa, terá confiado a paróquia a um seu sobrinho também sacerdote. Quando regressou, coberto de pó, esfarrapado, de barba branca, a denunciar os anos decorridos, bateu à porta da sua antiga casa, mas foi escorraçado. O sobrinho tinha-o dado como morto e apoderara-se de todos os seus bens. Fez então uma cabana junto do rio Tâmega e ali, rezando, fazendo aos outros o bem que podia, acabou São Gonçalo os seus dias.
 
Amarante à noite.
 
O povo fê-lo o advogado dos ossos fracturados, dos males da vida conjugal e dos casamentos das «velhas». Crença que provém de São Gonçalo ter casado religiosamente alguns casais de uma aldeia chamada Ovelha que viviam «maritalmente». Daí, designarem-no como o «casamenteiro dos de Ovelha», que passou depois à versão «casamenteiro das velhas». Por muitas se contam também as lendas e tradições que lhe são atribuídas. É celebrado em Amarante no segundo domingo de Janeiro, numa pequena romaria, e com grandes festejos no primeiro sábado e domingo de Junho.
 
Soledade Martinho Costa
                                                São Gonçalo
 
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. I
Ed. Círculo de Leitores.
publicado por sarrabal às 01:10
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Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

«O MEU MENINO É D'OIRO» - HERÓIS DO 5º I - O RAPTO (2º Episódio)

 

 
 
Estávamos na aula quando finalmente ouvimos o toque da saída. Saímos da escola apressadamente e a Luzia foi com um homem muito estranho, todo vestido de preto e com cara de pau. Depois foram-se embora num carro preto.
- Isto é estranho! – exclamou a Madalena.
Nessa semana a Luzia não foi à escola, até que a Marta disse:
- Vamos a casa dela para ver se ela está doente.
Quando chegámos a casa da Luzia, a mãe da Luzia disse-nos que ela tinha ido para casa de uma amiga, mas percebemos que estava a mentir porque se fosse para casa de uma amiga não tinha faltado à escola e além disso a mãe dela tinha preocupação nos olhos.
Quando acabou a sexta-feira montámo-nos nas bicicletas, trouxemos sandes e água e fomos por Arruda à procura da Luzia. Procurámos por Arruda inteira e nada da Luzia. Ao fim do dia, quando estava a chegar a casa ouvi um gemido por detrás de uns arbustos e vi a Luzia toda amarrada e com uma venda na boca e ao lado dela estava…a Madeleine MaCann!!! Corri para desamarrá-las mas só senti uma forte pancada na nuca e desmaiei.
Quando acordei no dia seguinte estava num descampado e dois homens a guardar-nos.
Como deram pela minha falta os meus amigos foram a minha casa e a minha mãe disse-lhes que eu estava desaparecido. Eles iam procurar-me quando a Rafaela viu amoras e quando ia para comê-las caiu em cima dos dois homens. A Rafaela aleijou-se no pé. Os meus amigos saltaram todos para cima dos homens, deram-lhes na cabeça com uma pedra, tiraram-lhes as armas e chamaram a polícia. Quando a polícia chegou prendeu-os e a Luzia, eu e a Madalena dissemos:
- Só damos valor à liberdade quando a perdemos.
 
Rafael, o escritor (10 anos) – texto não corrigido.
 
 
 
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Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

DIA DE REIS - A VIAGEM DOS TRÊS REIS MAGOS

 
 " Adoração dos Reis Magos", André Gonçalves, Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra.
 
Segundo se supõe, os Magos, certamente gentios, adoravam o verdadeiro Deus, conhecendo também algo da religião do Antigo Testamento. Viviam, tudo o indica, no plano elevado do espírito, preparados no amor a Deus e à verdade que buscavam, os fortalecia e alentava, pois só assim se compreende que tenham iniciado uma tão longa viagem a terra estranha, onde o perigo constantemente os ameaçava.
 
"A Adoração dos Magos", Pieter Bruegel, Museu Real de Belas Artes, Bruxelas, Bélgica.
 
Da sua verdadeira proveniência, com rigor e exactidão, pouco se sabe, nem os documentos antigos nos garantem coisa alguma. Uma das hipóteses para a sua pátria provável será a Arábia, célebre pelo incenso e pela mirra. Numa outra versão, por certo mais lendária, os Três Reis Magos seriam três irmãos vindos não apenas do Médio Oriente, mas também do Egipto e da Índia.
 
"Adoração dos Reis", Gregório Lopes, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.
 
Em várias catacumbas romanas é frequente a representação dos Magos em pintura, embora sem identificação de nacionalidade ou de carácter pessoal. Na catacumba romana de Priscila, numa pintura do século II, aparecem de cabeça descoberta, transportando os seus presentes, junto a Nossa Senhora. Umas vezes figuram com longas capas ou mantos e outras de túnicas curtas e com gorros frígios (da antiga região do Centro da Ásia Menor) nas cabeças, sempre em grupo de três.
 
"Adoração dos Magos", Bento Coelho da Silveira, Museu de São Roque, Lisboa.
 
Mito ou veracidade, terá existido um livro, pertença de um povo radicado no Oriente, no qual se falava numa estrela e nos presentes que deveriam ser oferecidos a um Menino que viria a nascer.
 
"Adoração dos Magos", Sandro Botticelli, Galeria Degli Uffizi, Florença.
 
Foram então escolhidos doze dos mais sábios homens desse povo, ligados à observação dos astros e ao estudo dos mistérios celestes, da adivinhação e da interpretação dos sonhos, que se constituíam numa respeitada classe sacerdotal da Média (antiga região da Ásia) e da Pérsia, para que se encarregassem de vigiar e aguardar a estrela anunciada.
 
 
Este facto vem confirmar as palavras de São Mateus: «Os Magos são homens sábios, zelosos, executores da justiça e da virtude, investigadores curiosos dos fenómenos celestes e praticantes sinceros da religião e do culto verdadeiro de Deus».
 
"Adoração dos Reis Magos", Vasco Fernandes, Museu Grão Vasco, Viseu.

 
Apelidados de Magos, a sua vida a partir daí foi passada a orar e a esperar. Se um deles falecia, logo era substituído por um dos seus filhos, assim acontecendo até ao dia em que, finalmente, uma estrela surgiu no céu diferente das outras em tamanho e luz. Por sua indicação seguiram os Magos até Belém, na Judeia, onde adoraram a Cristo recém-nascido, num tosco estábulo, deitado sobre palhas, entre pastores e mansos animais.

 
"A Adoração dos Reis Magos", Leonardo da Vinci, Galeria Degli Uffizi, Florença.
 
O número de Magos foi entretanto reduzido de doze para três, por São Leão, o Grande – papa que salvou Roma da invasão de Átila, rei dos Hunos, povo bárbaro das margens do mar Cáspio. Por seu lado, Tertuliano, doutor da Igreja, acrescentava, no século III, à sua designação de Magos o título de Reis.
 
"Adoração dos Reis Magos", atribuido ao Mestre da Adoração de Machico, Museu de Arte Sacra, Funchal, Madeira.
 
Lenda ou realidade, a história dos Três Reis Magos permanece viva no imaginário, na fé e na alegria dos povos, ante a repetição cíclica da sua tradicional imagem, anualmente festejada, adorando o Menino-Deus, entre rebanhos e pastores.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
             Relicário contendo os crânios dos Três Reis Magos, Catedral de Colónia, Alemanha.
 
 
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