Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

PARA UMA MENINA LÁ DA ESCOLA

 
 
És a flor do meu jardim
És o verso do meu poema
És a lua do meu céu.
 
Por isso é que te amo.
 
 
Rafael, o escritor (9 anos).
 
 
publicado por sarrabal às 21:58
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Terça-feira, 27 de Maio de 2008

COISAS DA VELHA DO ARCO - O ACORDO ORTOGRÁFICO

 

Humphrey Bogart

 

Quando da primeira tentativa de entendimento respeitante ao acordo ortográfico, fiz parte de uma subcomissão liderada pelo Grémio Literário. Lembro-me de ter conseguido, pelo menos, umas três listas de assinaturas de «não ao acordo».

 
Passados que vão estes anos, eis que voltámos ao mesmo assunto – muito embora tivessem sido, na altura, debatidos, discutidos e medidos os prós e os contras de tal intenção. Desde a anterior tentativa e até hoje nunca houve consenso. Nem sequer agora, depois da lei aprovada. Eu também não mudei de opinião. Continuo decidida a dar todos os erros gramaticais a que a mudança irá obrigar-me.

 
A verdadeira «Língua Mãe» é a nossa. A que falamos e a que escrevemos. Tenho orgulho nela. Porque não é fácil falar em português? Porque é ainda mais difícil escrevê-lo? Talvez. O certo, é que mesmo sendo difícil continua a ser uma das línguas mais faladas no Mundo inteiro! O português mais usado é, sem dúvida, o que se fala e escreve no Brasil. Gramaticalmente, muito menos complicado, ainda por cima com a sorte de os brasileiros lhe acrescentarem aquele sotaque doce, tão agradável de ouvir. Aliás, não há nenhum brasileiro que não fale bem o português do Brasil!


A nós, portugueses, que falamos e escrevemos aquilo a que poderá chamar-se o português correcto, não nos vai dar jeito nenhum andar para trás como o caranguejo. Nesse caso, porque não andaram os outros para a frente? Não seria mais lógico? «Tudo deveria ficar como está». Ouvi esta frase tanto a brasileiros como a africanos de «língua oficial portuguesa». A «preocupação» antiga dos livros portugueses oferecerem alguma dificuldade na leitura, nunca constituiu obstáculo a que os nossos escritores, mesmo os clássicos, não fossem lidos no Brasil. Se o não são, ou não o foram como seria desejável, a causa deve-se a outras razões que não a esta. Todos o sabemos. Só é cego aquele que não quer ver…


Poderemos, dizer, isso sim, que o português possui «dialectos» espalhados pelo Mundo. Facto que poderá ser encarado como uma forma de diversidade e de riqueza. Mesmo em Portugal, pequenino como é, isso acontece. De Norte a Sul deparamos com sotaques, com termos regionais locais, desconhecidos no resto do País!
«A Língua é minha, o sotaque é seu», foi assim que José Saramago, numa conferência, respondeu a um jovem brasileiro, que se mostrou algo confuso com a pronúncia do escritor.


Para quê, então – e logo na altura da grande crise económica que atravessamos –, entrar em despesas desnecessárias, mesmo a longo prazo? Se a Língua Portuguesa é tão bela – talvez, exactamente, por não exigir a facilidade que o acordo agora irá impor –, que razão coerente leva a que tenham insistido em simplificá-la? Tenhamos orgulho na Língua que, genuinamente, é a nossa. Não vai ser por alterarmos seja o que for em favor de outrem que o português, embora facilitado (mais pobre) será falado ou escrito mais correctamente. A prova está naquilo que ouvimos e lemos todos os dias, Refiro-me aos órgãos de comunicação social, à Rádio, à Televisão, e mesmo aos nossos governantes e outra figuras públicas responsáveis, pelo menos, no que respeita ao português que falam. Lamentavelmente, também incluo na lista os próprios professores!


Meus senhores: se vamos passar a escrever a palavra «fato» em vez de «facto», deixo a pergunta: estaremos a falar de um «facto» propriamente dito ou do «fato» que vamos vestir? Também nos vão obrigar a utilizar o vocábulo «terno», como dizem os brasileiros? O acordo irá acordar outras questões bem difíceis de gerir. Aceito que as mudanças fazem parte da vida e das sociedades. Mas há prioridades. E esta do acordo ortográfico não me parece fazer parte dessa longa lista.

 

Aproveito para transcrever um texto da autoria de Ruy Ventura (professor e escritor), que me parece bastante oportuno para terminar estas linhas:

  

Soledade Martinho Costa

 

 

UMA DESNECESSIDADE ORTOGRÁFICA

 

A reforma ortográfica que em breve será posta em prática nos países que falam a língua portuguesa nas suas múltiplas variantes é, quanto a mim, uma desnecessidade e um desperdício de energias.
Ao contrário do que defendem os advogados deste acordo político, o que divide as diversas variantes da nossa língua materna não é, nem nunca foi, a ortografia. Nunca a grafia diferenciada impediu o entendimento dos escritos brasileiros em Portugal ou dos textos portugueses no Brasil, ou noutras partes. Temo-nos entendido até agora – e assim continuaríamos, mesmo que não nos impusessem este processo de simplificação (?) da escrita. Quem tenha mínima consciência das várias formas do português falado e escrito sabe que a separação entre elas acontece sobretudo ao nível da pronúncia, do vocabulário e da sintaxe. O que não constitui qualquer problema. É um sintoma de riqueza – que só mentes preguiçosas amigas da facilidade militante que vai empobrecendo a nossa sociedade podem rejeitar.
A reforma da ortografia não responde por isto a qualquer necessidade intrínseca. Não partiu de um movimento científico ou cultural de qualquer dos países constituintes da Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, mas da mente de alguns políticos e de alguns académicos especialmente preocupados em uniformizar o que nunca poderá ser uniforme e em submeter tudo às «leis do mercado».
Uma pergunta se impõe então no meu espírito. Se não existem neste «acordo» necessidades culturais ou científicas (e muito menos educativas, pois esta reforma pouco alterará no ensino do Português), que propósitos presidiram então à sua elaboração/aprovação? Um amigo meu lembrou-me há dias a frase de um romance policial «Sigam o cheiro da massinha…»
Assim será? Quem ganharia com isso? Entre dúvidas, uma certeza se me impõe: quem esteve/está por detrás disto será tudo menos ingénuo.

 

Agradeço desde já a leitura e a divulgação/publicação deste texto. Cumprimentos

 
Ruy Ventura

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Sábado, 24 de Maio de 2008

ALDEIA

Homenagem ao lugar do Bom Velho de Cima - e ao pão «acabadinho de cozer» da Arminda e da Senhora Belmira!

 

 "Cozer o Pão", Millet..  

Rompeu o dia
E todo ele é Sol.
 
Cantam à porfia
Os sons da Natureza
Desde o tinir do guizo
Do manso cão rafeiro
Até lá mais ao longe
O trabalhar da mó
Colega do moleiro.
 
No meio do caminho
Há cabras e galinhas
E as castas romãzeiras
Casam, ruborizadas
Dos frutos a fragrância
Com o cheiro a rosmaninho.
 
Além, passa um pastor
Levando o seu rebanho
No ar esvoaçam aves
Zumbem as abelhas.
 
E até a própria brisa
Do fresco alvorecer
Tem um cheirinho a pão
Que acaba de cozer.
 
Soledade Martinho Costa
Do livro “Reduto”
 
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Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

DIA DO CORPO DE DEUS

   
Celebra a presença de Jesus Cristo na Hóstia de Deus, ao mesmo tempo que significa uma homenagem de fé e amor à presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Sacramento, com o Seu Corpo e Sangue, Alma e Divindade sob as espécies consagradas – o pão e o vinho.
 
A Festa do Corpo de Deus, ou Corpus Christi, feriado nacional, é solenizada na primeira quinta-feira após a comemoração da Santíssima Trindade, uma vez que a quinta-feira Santa representa um dia de tristeza e de luto – ainda que tenha sido nesse mesmo dia que Jesus Cristo celebrou a Última Ceia, ou a primeira e a sua única missa com os apóstolos. Ou seja, o acto que assinala a instituição da Santa Eucaristia, acrescido do pedido de Jesus aos apóstolos de a divulgarem e ministrarem em Sua memória: «E Jesus tomou o pão e disse: “Isto é o Meu Corpo (…).» E tomou também o cálice (…) dizendo: «Esta é a Nova Aliança no Meu Sangue (…).»
 
Pela importância de que se reveste um tal acontecimento, ele só poderia ser comemorado mais tarde, visto a quinta-feira da Paixão não dar lugar à solenidade triunfal deste dia. Assim, já numa data em pleno tempo de alegria, criou a Igreja esta festa para louvar o Corpo de Deus na Hóstia Consagrada ou a Consagração do Triunfo do Amor de Cristo Sacramentado, celebrada fora do tempo pascal, mas ainda relacionada com a comemoração da Páscoa.
 
Instituída no século XIII em Liège, por inspiração de Santa Juliana de Cornillon, nascida em 1192, perto de Liège, na Bélgica, a Festa do Corpo de Deus recebe a bula Transiturus do papa Urbano IV em 18 de Setembro de 1264, estendendo a festa à Igreja Universal. A decisão encontra alguma resistência entre a Cristandade, só ultrapassada nos inícios do século XIV (1312), quando por insistência do papa Clemente V a questão volta a ser levantada durante o Concílio de Viena (1311 e 1312). Pouco depois (1314 ou 1316), a bula Transiturus é confirmada sob a vigência do papa João XXII.
 
Em Portugal a manifestação religiosa é aceite, tendo D. Dinis ordenado em 21 de Julho de 1318, à Colegiada de Santa Maria de Guimarães que promovesse anualmente – considerados alguns rendimentos estipulados pelo rei –, a celebração do Corpo de Deus, embora se sustente a hipótese de que a festa tenha sido desde logo comemorada no nosso País com uma procissão (Évora) a partir de 1265, isto é, no ano seguinte à bula de Urbano V.
 
Considerada entre nós a mais majestosa e solene de todas as procissões instituídas pela Igreja Católica, aponta-se a cidade de Lisboa como a primeira e a principal localidade onde o brilho e a pompa desta procissão mais se faziam notar, com o próprio rei e toda a corte a incorporar o préstito religioso. Seguiam-se Guimarães, Porto, Coimbra, Portalegre e logo outras terras importantes, em que a celebração oferecia grande solenidade e aparato – e também alguns privilégios municipais…
 
 
 
 
Hoje, continuam a ter grande fama e importância as Festas do Corpo de Deus realizadas em vários pontos do País:
  
 
Em Monção, designada Festa do Corpo de Deus ou da «Coca», é celebrada, segundo se supõe, desde o final do século XIV, embora não exista documentação que ajude a situar com exactidão o ano a que remonta.
  
 
Nesta festividade se reforça a vitória do bem sobre o mal, simbolizada no combate entre São Jorge e o dragão, realizado no Campo do Souto – sempre com o primeiro a sair vencedor da contenda.
 
 
  
Somente em Monção dão ao «monstro» o nome de «coca». O vocábulo, antigo, indica algo que apavora ou assusta; uma espécie de papão, que serve para meter medo às crianças.
   
 
  
No século XVI dava-se o nome de «coco» (côco) ao acto de meter medo aos mais pequenos. «Meter coco, ou cocos às crianças». Mais tarde a palavra terá passado para coca (côca), também com o mesmo sentido: papão. Daí, e relacionando, talvez, a palavra com o medo e o mal, foi um pulo na voz do povo até chegar à coca actual – o grande papão (similar a outros) que faz as sociedades tremerem de angústia e de susto.
  
 
Em Penafiel, sobre a data precisa do início da Festa do Corpo de Deus, pouco se sabe, a não ser que já era remota no século XVII. O imponente cortejo divide-se hoje, como antigamente, em duas partes distintas: a pagã e a litúrgica, com a primeira a abrir o desfile.
     
   
Além da figuração de São Jorge a cavalo, conduzido por quatro lanceiros, cópia da imagem original, considerada uma verdadeira relíquia, actualmente à guarda do Museu da Cidade, outras representações se destacam nestes festejos: 
   
 
O «Carro Triunfal», que transporta o «Delegado do Povo» ou «Figura da Cidade», com as suas acompanhantes, um grupo de meninas vestidas de branco.
 
 
O «Cortejo do Carneirinho» (a oferta de um cordeiro, pelas crianças das escolas do Ensino Básico, aos seus professores).
 
 
A «Dança dos Ferreiros» ou «Dança das Espadas», cujos figurantes apresentam um guarda-roupa inspirado nos trajos do século XVIII.
  
  
Como figura principal, desfila a «Serpe» – monstro descomunal, puxada por um pajem, a integrar o cortejo profano.
 
   
Em Ponte de Lima o Dia do Corpo de Deus é comemorado com as celebrações litúrgicas e com a largada da «vaca das cordas», pelas ruas, à mercê do povo, mas mantendo as regras que a tradição impõe.
 
 
Também aqui não existem certezas quanto aos primórdios da antiquíssima celebração, a não ser que a sua existência se associa aos documentos dos acórdãos da Câmara (Código das Posturas Municipais) de 1646 e 1720, e mesmo a documentos do início do século XVII.
   
 
   
A largada da «vaca das cordas» ocorre na véspera do Dia do Corpo de Deus, ou, até, na tarde do próprio dia. 
 
 
Há a salientar a beleza dos tapetes de flores naturais, a ornamentar as ruas por onde irá passar o cortejo processionário, trabalho realizado pelos seus moradores, que lhes ocupa a noite inteira da véspera do grande dia: em que a solene e grandiosa procissão fará o seu tradicional percurso pela vila.
 
  
Ponte de Lima que rejeitou ser cidade com o lema: «Antes uma vila grande, que uma cidade pequena».
 
 
Soledade Martinho Costa
 
 
 
 
In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. V.
Ed. Círculo de Leitores
 
 
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Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

COISAS DA TERESINHA - O ESPIRRO

                                                     

 

                                                    Atchim, um dos anõezinhos da Branca de Neve

 

 A Teresinha já aqui foi descrita com um retrato muito, mas muito favorável. Mas ainda não foi dito tudo.
Ela é, também, uma menina arrumada. Provavelmente, irá ter a desdita de se tornar numa daquelas «fadas» ou «escravas do lar».
O pó incomoda-a. A desarrumação incomoda-a. A cama por fazer incomoda-a. Por aí fora. E arruma. E limpa. O pior, é que gosta! Isso, preocupa-me – e preocupa a mãe.
Sim, é bonito ser-se «fada do lar». Mas quem repara? Quem se lembra de nos homenagear? De nos agradecer? São anos da nossa vida de aspirador ou máquina de limpeza em punho. De pano de pó na mão. A comprar todos os utensílios ditos óptimos, que a publicidade diz servir para a limpeza da casa. Como os «floor roller refil», os «swiffer» e quejandos. Não contando com os cuidados a ter com as plantas ornamentais e os arranjos de flores colocados, desveladamente, nesta e naquela jarra. Mais a transparência dos vidros das janelas, o toque sedoso dos parapeitos, a brancura das persianas, etc., etc., etc.
Acho que já basta nesta família duas «escravas do lar». Três são demais! E quem vai sofrer com essa «distinção» é a Teresinha.
Apesar de tudo, concordo que um lar cuidado, bonito, limpo, deslumbrante é coisa para nos fazer um grande bem ao ego. Para nos proporcionar a tranquilidade de podermos respirar e usufruir de um ambiente caseiro que nos acalma, de que gostamos, de que, afinal, nos orgulhamos. Isto de ser mulher tem destas coisas.
Não direi na generalidade. Hoje em dia as mentalidades e as prioridades mudaram. Ignoro se para melhor, se para pior. Os homens que se pronunciem. Embora saiba de alguns a quem o pó e a desarrumação da casa em nada os incomode. Mas, adiante.
Sim, porque a intenção desta crónica, era contar mais qualquer coisa sobre a Teresinha. Acrescentar ao seu «curriculum» mais uns pozinhos.
Pois é. Quando a Teresinha dá um espirro, costuma dizer: «Lá estou eu a «atchingar». Se calhar, já me constipei!»
E tal como diz que vai «mostrar-se ao espelho», sem haver a mais pequena esperança que venha a mudar a frase para «vou ver-me ao espelho», também o «atchingar», em vez de «espirrar» irá permanecer por tempo indeterminado. É o que parece.
Vendo o caso por outra perspectiva, o vulgar «Atchim», fica muito mais composto, muito mais «palavra», a enriquecer o vocabulário da Teresinha. E não deixa, afinal, de ser um neologismo! A Teresinha é que não sabe ainda o significado desta designação. Quando souber, vai ficar agradada. Tenho a certeza. Não é todos os dias que temos a facilidade – e a felicidade – de inventar palavras, em português, com sentido e oportunidade.
Um dia destes vou conversar com ela sobre a actual (?) polémica do «acordo ortográfico». Sem dúvida!

  

Soledade Martinho Costa

 

 

 

 

publicado por sarrabal às 12:52
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Sábado, 17 de Maio de 2008

A GRANDE LABAREDA CRIADORA

Da autoria de Eugénia Neto, aqui fica o segundo poema prometido, com o grato prazer da sua publicação no Sarrabal.

 

     

Como uma faísca
Que se incendeia
Assim se pôs em marcha
O universo.
 
Criou-se
Criou-me
 
Fez-se átomos
Células tecidos
Sistemas
 
Consciência
Talento, emoção:
Amor ódio
Egoísmo dádiva
Fraternidade
Fé esperança sonho…
 
Tudo isto apenas
Por um tempo
Para logo regressar
Ao caos inicial
 
E se perder
Toda a aprendizagem
Todo o saber adquirido
E tudo ter de recomeçar
 
Pois a semente continuadora
Traz somente
Um código virgem
Aonde cada um implanta
De novo e de novo
As noções e os conceitos
 
E o espírito
Uma baforada de licor
Imanente da matéria?
 
Após a desintegração
Pairará algures no espaço
Parte dessa faísca inicial
Que criou o palpável
E o impalpável?
 
Ou tudo será silêncio
Silêncio, silêncio
Em que os meus átomos
Se incorporarão ao lençol
De recriação constante?
 
Espírito de que matéria
Virei eu a ser
Neste universo?
 
Eugénia Neto
 

 

Angola/Setembro 2006
publicado por sarrabal às 00:47
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Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

ABRE-LATAS - XENOFOBIA RIBATEJANA

   
Esta história já tem uns bons anos. Nessa altura, não havia “Sarrabal”. Daí, só agora alinhavar estas linhas, por pensar que histórias como esta não devem ficar guardadas na gaveta da nossa memória. Podemos correr o risco de as esquecer, muito embora, por um motivo ou por outro, elas aflorem, de vez em quando, ao nosso pensamento.
 
Já depois de Zita Seabra ter sido candidata à Câmara de Vila Franca de Xira – que perdeu a favor de Rosinha, a actual presidente da Câmara daquela cidade ribatejana – e na qualidade de vereadora da Cultura da mesma Câmara, lugar que ocupou depois, fomos almoçar as duas ao “Regional”, conhecido e afamado restaurante vila-franquense. Falou-se, principalmente, de projectos – alguns, ao longo dos anos, concretizados, outros, a ficarem pelo caminho. Durante a conversa, Zita acabou por contar-me o episódio que faz com que o traga hoje aqui. O tempo passa, mas há factos, há casos, há histórias que são intemporais. Que dão que pensar.
 
Certa tarde de certo dia, Zita Seabra foi fazer a sua campanha de candidatura a uma pequena freguesia situada entre Alverca do Ribatejo e Alhandra. Tudo foi antecipadamente combinado, de modo a que a presença de Zita pudesse estar assegurada no local mais destacado da terra: o Centro Social para o Desenvolvimento da dita – não ouso nomear nomes, para evitar melindres desnecessários e por não se tratar, como disse, de um facto actual.
 
Ao chegar, Zita Seabra encontrou um número razoável de apoiantes e não apoiantes e um ambiente amistoso e simpático.
À porta do Centro, a aguardar Zita, encontrava-se o senhor presidente. Naturalmente – e não lhe podemos levar a mal –, um pouco deslumbrado por lhe caber em honra receber uma figura pública. Obsequioso e sorridente, convidou-a a entrar e a sentar-se, num lugar previamente estipulado. Mesa em frente, jarra com flores, garrafas de água. O costume nestas ocasiões.
Mal Zita se sentara, eis o senhor presidente a proferir esta frase significativamente tranquilizadora: «A senhora, nesta casa, pode estar descansada. Aqui não entram nem ciganos, nem drogados, nem pretos!»
 
Perante estas inesperadas palavras, Zita levantou-se e respondeu: «Nesse caso, não posso ficar!». «Ora essa! E porquê!?», perguntou o senhor presidente, num visível e alarmado espanto. Zita Seabra elucidou: «Porque num local onde se pratica racismo, eu não fico.»
 

 

Ainda atordoado com a atitude da candidata à Câmara, o homem interpelou, a mostrar a sua desesperada perplexidade: «A senhora tem filhas, não tem?». Resposta de Zita: «Sim, tenho.». E logo o presidente, numa pergunta ousada: «E a senhora gostava que uma das suas filhas casasse com um preto!?». Calmamente, Zita Seabra informou, para maior espanto e indignação do senhor presidente: «Se ele fosse boa pessoa, não via nisso qualquer inconveniente.»
 
Já a caminho da porta, pode imaginar-se a decepção agastada do presidente do Centro. Resultado: Zita Seabra acabou no passeio, a poucos metros da porta por onde, em poucos minutos, entrara e saíra, e onde ficara, com uma expressão absolutamente aparvalhada, o senhor presidente do Centro Social para o Desenvolvimento da freguesia em causa. E no passeio, ao ar livre, decorreu a campanha.
 
Passados estes anos, ignoro se alguma coisa mudou por ali. Se o presidente for o mesmo, o mais certo é não ter mudado. Se o presidente for outro, o que também é provável, se não adoptou as regras do anterior, é possível que “os ciganos, os drogados e os pretos” possam vir a ter alguma esperança em dias melhores.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
 
publicado por sarrabal às 01:09
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Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

RODRIGO LEÃO

   

A música da chuva
Dos regatos
Das aves
E do vento
Do mar em fúria
Amante das maresias.
 
Ao homem
Coube ouvi-la
E copiá-la.
 
Juntou-lhe o coração
A alma
O génio
E conseguiu a fórmula
De todas as magias.
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “O Nome dos Poemas”
publicado por sarrabal às 01:19
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Terça-feira, 13 de Maio de 2008

"O MEU MENINO É D'OIRO" - A VIAGEM AO TEMPLO SAGRADO

Esfinge de Giza, Egipto

  
Num dia muito ensolarado, eu e a minha família fomos para o Egipto. O avião era confortável e tranquilo. A paisagem da janela era linda. Até que uma hospedeira disse:
- Aterramos dentro de meia hora.
Assim que a hospedeira acabou de falar ouviu-se um choque que abalou o avião. Oh! Desgraça. O avião vai cair. Pum! Uma grande explosão. Mas havia 5 sobreviventes: eu, com arranhões, a minha mana, que estava óptima, a minha mãe, com poucas feridas, o meu pai, com ferimentos ligeiros e o piloto com ferimentos graves. Olhei em redor e estávamos num sítio cheio de erva e cataratas. Mas o piloto acabou por morrer. Nós resolvemos investigar e ao final do dia não resistimos em tomar banho nas cataratas. De repente fomos sugados pela água. Estávamos a sufocar quando fomos catapultados para uma espécie de Museu. Havia esfinges, múmias, coisas que eu nunca tinha visto na vida. A minha irmã apontou para um grande letreiro onde se podia ler «O templo sagrado».
Quando íamos embora a porta abriu-se e pessoas com a cara pintada de verde, vermelho e amarelo perguntaram:
- O que vos trás por cá? – perguntou um homem corpulento e com uma voz grossa.
Eu hesitei mas acabei por responder:
- Nós fomos sugados pela água.
- Então sejam bem vindos ao templo sagrado.
Depois disse:
- Nós vamos mostrar-vos o templo sagrado.
Nós avançamos para uma sala estreita onde Jacá, era o nome do chefe da tribo, disse que aqui era onde se fazia o teste de pessoas boas e pessoas más. A minha mãe foi a primeira. Sentou-se e um homem careca e baixo fez-lhe algumas perguntas e ela respondeu sem dificuldade. Depois o homem tocou um tambor e gritou:
- Bondosa!!!
Assim se repetiu com a minha irmã, com o meu pai e eu. Passado um bocado fomos para uma sala onde só havia esfinges. Jacá disse o nome de cada esfinge e eu desenhei a que eu mais gostei, a esfinge de Toure, num bloco que Jacá me deu. Depois fomos para uma sala de múmias. A múmia maior de todas era a múmia de Sotá. Jacá disse para fecharmos os olhos. Eu fiquei maravilhado, tudo enfeitado com flores e panos que brilhavam à luz do Sol e uma múmia lá no meio. Eu perguntei a Jacá de quem era a múmia e ele respondeu:
- Esta é a múmia da Cleópatra.
Eu fiquei de boca aberta, a lendária imperatriz do Egipto, Cleópatra. Ouvimos um barulho lá de fora fomos ver o que era. Era um avião para nos levar para casa. Eu despedi-me de Jacá e a sua tribo. Eu nunca me hei de esquecer deste dia.
 
Rafael, o escritor (9 anos) – texto não corrigido.
 
 
 
publicado por sarrabal às 00:14
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Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

ROSAS DE LONJURA

 Renoir
  
Enfeitei com flores
O meu cabelo
Entrelacei de sonhos
Os meus dedos
E assim fiquei
Perdida pelos dias
Com estrelas
Nas meninas dos meus olhos.
 
E a desfolhar
Ausências e demoras
Como se fossem
Rosas de lonjura
Inventei mil enredos
Mil razões
Palavras que não sei
Aonde moram.
 
E sem que tu soubesses
O segredo
Sonhei a limpidez
Das águas
Sobre as pedras
E o cântico das aves
Nas alturas.
 
Mas, ai, pobre de mim
Amanheci
Neste deserto sem Sol
E sem regresso
Acorrentada ao chão
Da minha espera
Onde a semente é grão
Que não se colhe
No desencontro que aceito
Em cada hora.
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “A Palavra Nua”
publicado por sarrabal às 00:05
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