Domingo, 30 de Março de 2008

PASCOELA - ORIGENS E CELEBRAÇÕES

   
Ocorre sete dias depois da Páscoa, correspondendo ao domingo seguinte ao domingo de Páscoa, também denominado Dia da Misericórdia de Deus, oitava da Páscoa ou Quasímodo.
 
Estas duas últimas designações, embora ainda se usem, eram mais utilizadas antigamente, celebrando-se a oitava noutras liturgias importantes da Igreja, prática caída em desuso quando da reforma do calendário religioso após o Concílio do Vaticano II.
 
A Pascoela simboliza o prolongamento do próprio domingo de Páscoa, numa atitude festiva da Igreja e dos fiéis, podendo dizer-se que representa uma espécie de diminutivo da palavra Páscoa.
 
Recorde-se que o baptismo dos primeiros Cristãos adultos ocorria durante a Vigília Pascal, ritual que continua a manter-se, sendo a quadra da Páscoa a preferida desde os primórdios da religião cristã para se efectuarem os baptismos dos catecúmenos.
 
Daí, chamar-se também – conquanto não já oficialmente – ao domingo de Pascoela o domingo In Albis (domingo branco), devido ao facto dos catecúmenos utilizarem (como hoje) vestimentas brancas no acto do baptismo, celebrado depois, festivamente, por toda a semana que decorria desde o domingo de Páscoa ao domingo de Pascoela.
 
Nos dias actuais, à semelhança de outrora, os baptismos continuam a realizar-se por toda a semana que medeia estes dois domingos, embora, por tempos idos, apenas nesta época do ano a Igreja procedesse à imposição do baptismo. Hoje já assim não é, mas continua a verificar-se a preferência da quadra pascal para se efectuar o baptismo, sobretudo das crianças.
 
Na tradição popular, é durante a celebração da missa do Senhor no domingo de Pascoela – quando esta se realiza às três horas da tarde em ponto – que, «ao pedir-se uma graça, ela será atendida».
 
Soledade Martinho Costa
 
                                                        Pascoelas 
 
 
 In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. III
Ed. Círculo de Leitores
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Domingo, 23 de Março de 2008

OS OVOS E A TRADIÇÃO DA PÁSCOA

 
Associado à doçaria tradicional da Páscoa, o ovo – símbolo da fecundidade e da abundância – representará a eventual homenagem à nidificação, verificada nesta época do ano, sem deixar de personificar o começo da vida: a casca – a Terra; a parte interior – o ar; a clara – a água e a gema – o fogo.  Num sentido mais religioso, poderá estar relacionado com «Cristo que venceu a Morte saindo do túmulo».


Proibidos no século IV pela Igreja Católica durante a Quaresma – proibição que se manteve ao longo da Idade Média –, eram benzidos pelos papas na Sexta-Feira de Paixão e vendidos no Sábado Santo. Segundo a tradição, esta proibição terá levado as pessoas, sem saber o que fazer com eles, a utilizá-los na confecção de bolos destinados a serem oferecidos às crianças na quadra pascal. Assim terá nascido o folar.

 

Folar de Páscoa.

 
Em várias localidades do nosso país, durante o «compasso» ou «visita pascal», costumavam ser oferecidos ao padre meia dúzia ou mais de ovos, de acordo com as possibilidades do ofertante, a que se dava o nome de «ofertas brancas». O padre oferecia, por sua vez, alguns desses ovos aos acompanhantes ou às crianças que o seguiam, constituindo os restantes a sua parte.


Em documentos escritos, referentes aos arredores de Coimbra, faz-se menção a «ser o próprio prior, no Domingo de Páscoa, acompanhado dos seus raçoeiros (aqueles que recebem), a pedir ovos aos paroquianos, levando uma cruz e água benta». Nos arredores de Braga, após o «compasso», organizava-se uma procissão conhecida por Procissão dos Ovos.

 

A primeira referência aos ovos pintados, lê-se na obra que relata a vida de São Luís, rei de França, quando o rei e os seus cavaleiros, cativos em 1250 na Cruzada do Egipto, foram libertos pelos seus inimigos, que ofereceram ao rei, além de carne e queijo, ovos cozidos, com a casca pintada de diversas cores, para testemunhar a sua honra em oferecê-los, uma vez que o monarca ganhara um prestígio incomparável entre os muçulmanos, que lhe chamavam «o Sultão Justo». 
     

 
No século XVIII surgiu a moda de os colorir e decorar com palavras ou desenhos, costume que terá tido origem em França, Alemanha e Suiça.

 

 
Para isso, cozem-se os ovos, adoptando, para lhes tingir a casca, o processo tradicional da infusão feita com casca de cebola ou um pouco de vinagre para lhes dar um tom mais escuro.

  

A beterraba utiliza-se para a cor vermelha.

 

Erva-Moleirinha

 

O sumo de espinafre e certas plantas como o trevo, a hera e a erva-moleirinha para o verde.

 

As flores como o lírio roxo para o anil

 

Açafrão

 

A flor do tojo, o açafrão, a cenoura ou as cascas de laranja ou de limão para o amarelo.

 

Olmo

 

As cascas de olmo, de nozes verdes ou o café para o castanho.

 

   

Processos de tinturaria artesanal que, aos poucos, se foram perdendo, para dar lugar às tintas e anilinas próprias para esse efeito.

 

 
Em casos especiais, em que a imaginação pessoal e o gosto de cada um se sobrepõem à tradição, os ovos podem apresentar-se na sua cor natural, mas pintados com motivos diversos ou ainda decorados com colagens e certos enfeites.

 

  
Os ovos pintados de vermelho – cor do fogo e do sangue e símbolo do amor e do martírio, que incita o amor a Deus – representam, conforme a tradição, «Cristo Ressuscitado, vestido de branco, com um manto vermelho sobre os ombros».

 

Igreja de São Miguel de Travassô, Águeda

 
Outrora, os ovos da Páscoa pintados eram dependurados, acreditando-se que «tinham a virtude de livrar as pessoas da mordidela das cobras». Sob a influência de hábitos vindos de outros países, começa a ser habitual entre nós o costume de se esconderem os ovos pintados ou de chocolate – os «coelhinhos da Páscoa» – em casa ou no jardim, para que as crianças os possam procurar.


Soledade Martinho Costa
 

 
In  “Festas e Tradições Portuguesas”,Vol.III
Ed. Círculo de Leitores


 

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Sábado, 22 de Março de 2008

VIGÍLIA PASCAL - BÊNÇÃO DO LUME NOVO E DA ÁGUA

Cirio Pascal
  
Diz-se da solenidade religiosa que dá início à Vigília Pascal, quando a igreja, até aí mergulhada na escuridão, se enche progressivamente de luz, irradiada, primeiro, pela chama do círio pascal, e, depois, aos poucos, pela luz das velas dos fiéis, acesas entre si a partir da chama primeira.
 
A luz assim irradiada – ou, mais exactamente, a chama do círio pascal –, rompendo as trevas e inundando por completo o templo de claridade, simboliza Cristo Ressuscitado, constituindo um dos momentos principais da noite de Vigília de Sábado Maior.
 
Vigília Pascal
 
A cerimónia tem início à entrada da igreja, com o atear de algumas brasas colocadas num fogareiro. É nesta chama que o padre acende o círio pascal, abençoando, seguidamente, o «lume novo».
 
«Bênção do Lume Novo», Travassô, Águeda
 
Com o círio aceso, o celebrante procede depois à bênção dos cinco grãos de incenso, que coloca, com a ajuda de cinco pequeninos pregos, no círio pascal, representando cada um deles as «cinco chagas de Cristo, cujo perfume se difundiu pelo Mundo».
 
Enquanto o padre benze os grãos, o acólito deita no turíbulo – vaso suspenso por correntes, destinado a queimar o incenso – dois carvões bentos, juntamente com incenso, e faz três aspersões de água benta sobre os grãos e sobre a chama do «lume novo».
 
«Benção do Lume Novo»
  
Após a consumação deste ritual, o pároco e os acompanhantes seguem em cortejo até à capela-mor, fazendo no percurso três paragens, nas quais o celebrante pronuncia, em honra da luz, o Lúmen Christie (Luz de Cristo), sempre em crescendo, acabando quase em falsete, enquanto os fiéis respondem Deo Gratia (graças a Deus».
 
Vigília Pascal, igreja matriz de Valongo do Vouga, Porto
 
A terminar a «bênção do lume novo» – cerimónia já conhecida no século IV –, e após algumas orações do missal, o pároco coloca o círio na coluna, ou peanha, que lhe está reservada, do lado esquerdo do altar, junto do Evangelho, para ser aceso em todas as cerimónias realizadas até ao Pentecostes. A partir dessa data será transferido para o baptistério, ali se mantendo até à Vigília Pascal do ano seguinte.
 
Baptistério de Santa Maria de Belém, Mosteiro dos Jerónimos.
  
Outrora acendia-se o círio pascal ao longo do ano, para servir no acto baptismal. Era na sua chama que os pais das crianças acendiam a «vela do baptismo» ou seja, «o primeiro lume» – simbolizando a «chama da fé».
 
 
Catedral de Brasília
 
O grande círio pascal, devido ao seu volume e densidade, chega a durar vários anos. Além dos pregos de incenso, ostenta uma cruz (em alusão ao sofrimento de Cristo), a designação do ano em curso, a lembrar que «Jesus é o Senhor do tempo e da eternidade», e as letras do alfabeto grego A (alfa) e O (omega) – expressando o «princípio» e o «fim».                   
 
 
        "Baptismo de Santo Agostinho", Bento Coelho da Silveira, Igreja de São João Baptista, Alhandra, Vila Franca de Xira
 
                                
Tal como a luz, a água representa um dos principais elementos glorificados na noite da Vigília Pascal. A cerimónia da sua bênção efectua-se imediatamente após a «bênção do lume novo», sendo realizada com idêntica solenidade. Louva-se, assim, a importância da água desde o princípio do percurso bíblico, como factor basilar do baptismo e símbolo de purificação cristã. Ao «lavar do corpo e do espírito humano todo o pecado», com ela iniciam os crentes, a partir do acto baptismal, o «caminho da fé reforçada em Cristo e nos dogmas da Igreja Católica».
 
O rito da «bênção da água» decorre quando o celebrante, empunhando de novo o círio pascal, e seguido dos fiéis, se dirige à pia baptismal, repleta de água, que servirá, depois da bênção e durante o ano inteiro, à imposição do baptismo. Nesta ocasião, em certos lugares, é costume os fiéis encherem com ela pequenos recipientes que levam para casa. Com esta água enchem-se também as pias da água benta, onde se molha a ponta dos dedos para fazer o Sinal-da-Cruz, gesto que simboliza «a lembrança do baptismo», e que serve, segundo o povo, para «afugentar o demónio quando se entra nas igrejas».
 
 
Pia de água benta, igreja de Carragosa, Bragança
 
Em tempos não muito recuados, na cerimónia da «bênção da água», o celebrante mergulhava nela a extremidade do círio pascal, retirava-a, voltava a mergulhá-la mais profundamente, retirava-a de novo, e tornava a mergulhá-la na pia baptismal até ao fundo, significando este ritual «a Morte e a Ressurreição de Cristo».
 
«Benção da Água», Catedral de São Judas Tadeu, Rio de Janeiro
 
Depois disto, os fiéis eram aspergidos com a água já benta, enquanto o sacerdote terminava a bênção lançando em cruz, na água, o «santo óleo» ou «óleo sagrado» – azeite benzido pelo bispo na Quinta-Feira Santa –, espalhando-o sobre a água com a mão.
 
 
«Benção dos Santos Óleos», Catedral de São Judas Tadeu, Rio de Janeiro.
   
Enquanto decorre a Missa da Vigília Pascal, celebra-se também, embora hoje menos do que antigamente, o baptismo dos catecúmenos, que frequentaram a catequese e se instruíram e prepararam para receber o baptismo, cerimónia que nos remete aos primórdios do cristianismo, quando os baptismos começaram a ser efectuados na noite da Vigília Maior ou madrugada da Ressurreição.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol.III
Ed. Círculo de Leitores
 
  
 
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Quinta-feira, 20 de Março de 2008

O «GALO DAS TREVAS» E O TRÍDUO PASCAL

Os ofícios celebrados antigamente ao princípio da noite de Quarta, Quinta e Sexta-Feira da Semana Santa eram designados por «ofícios das trevas» – em que a luz não entra nos templos. Esta denominação, conhecida desde o século XII, deriva, talvez, do costume introduzido nas Gálias (nome antigo de regiões protegidas pelos Romanos), de apagar, progressivamente, as velas nos lugares de culto, de forma a terminar o ofício na escuridão total.


A prática manteve-se até à reforma litúrgica, quando os ofícios passaram a celebrar-se na manhã destes dias, desaparecendo, então, oficialmente, o nome de «trevas». Apesar disso, a designação continua ainda hoje a ser popularmente empregue. Daí, nestes mesmos dias, fazer parte do antigo ritual litúrgico, colocar-se nas igrejas, perto do altar, o «candeeiro das trevas», de madeira, em forma de triângulo, com treze velas, uma maior do que as restantes (seis de cada lado, de cera amarela, e uma no centro, de cera branca) – a remeter-nos para Jesus Cristo e os apóstolos.


Consistia o ritual, caído entretanto em desuso, que entre as «matinas» (primeira parte do ofício divino rezado antes de romper a manhã, ou logo após a meia-noite) e as «laudes» (salmos de David, em louvor de Deus, que se seguem às «matinas»), se acendessem as treze velas do tocheiro, apagadas depois, ora de um lado, ora do outro do candeeiro, uma por cada um dos salmos que se cantava. No último salmo (Miserere), a vela maior, colocada no centro do candeeiro, era retirada e posta, escondida, ao lado da Epístola (lado direito do altar, à direita do celebrante). Ao terminar o ofício, a vela voltava a ser colocada no «candeeiro das trevas», representando este ritual «Cristo, cuja divindade esteve oculta durante a Paixão». E só depois a chama da vela era extinta.


No Minho davam a esta vela – a mais alta do candeeiro de três bicos, representando a Santíssima Trindade – o nome de «galo das trevas», ou «vela Maria». É possível que a primeira designação se refira às palavras que Jesus disse a Pedro no final da Sagrada Ceia: «Antes que o galo cante negar-Me-às três vezes» (sendo certo que só depois de o galo ter cantado «se fez luz em Pedro»). A segunda poderá significar a Mãe de Cristo, como imagem da derradeira esperança, da última luz que se apaga, perante o filho agonizante. Na Beira Alta designavam o tocheiro por «candeeiro das trévoas».


Igrejas há que guardam (e utilizam) ainda o «candeeiro das trevas» como relíquia a preservar, enquanto noutras o seu destino terá sido o lume ou outro fim qualquer, uma vez que não se sabe já do seu paradeiro. Caso exemplar é o da Sé de Braga, onde este cerimonial litúrgico nunca deixou de realizar-se.     

               

                                                                              «Pietá», Robert Hupka

    

TRÍDUO PASCAL

 


Expressa um espaço de tempo considerado dos mais importantes de todo o ano litúrgico e que abrange, exactamente, os três últimos dias da Semana Maior: Quinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa e Sábado Santo. As celebrações eclesiásticas iniciam-se na Quinta-Feira Santa – também chamada Dia do Perdão, da Indulgência ou das Endoenças – com a Missa da Ceia do Senhor (à tarde ou à noite), onde se recordam os derradeiros instantes da vida de Cristo.
 

               Missa da Ceia do Senhor, Cenáculo, Jerusalém

 

A última ceia com os apóstolos, considerada um dos principais momentos, assinala a instituição da Eucaristia, ou seja, a primeira e única missa celebrada por Jesus Cristo na presença dos discípulos, com o pedido de que a ministrassem e difundissem depois, em Sua memória, como lembrança da ceia conjunta. 
  

«Última Ceia», Leonardo de Vinci, Convento de Santa Maria delle Grazie, Milão

   

«E Jesus tomou o pão e disse: “Isto é o meu corpo que será entregue por vós; fazei isto em memória de Mim.” E tomou também o cálice dizendo: “Este cálice é a Nova Aliança do Meu sangue; todas as vezes que beberdes dele, fazei-o em memória de Mim.”» 
  

 

As comemorações litúrgicas prosseguem na Sexta-Feira Santa – dia do aniversário da morte de Cristo, em que não há missa – com a celebração da Paixão do Senhor (às três horas da tarde sempre que possível), que inclui três significativos momentos: a Liturgia da Palavra (ou Leitura da Paixão do Senhor) a Adoração da Cruz, o mais relevante dos três, que significa a redenção da humanidade operada por Cristo na Cruz e a Comunhão.

  

 

Missa da Adoração da Cruz, igreja matriz de Monchique, Algarve


O tríduo termina no Sábado Santo com a Vigília Pascal, efectuada à noite, e que finda sempre antes de romper a manhã. Neste dia também não se realiza missa, uma vez que ele se constitui como o «dia do silêncio», em que a Igreja permanece de luto, calada, junto ao túmulo do Senhor, após a longa noite de interrogatórios, sofrimento e morte de Cristo de Sexta-Feira Santa para Sábado Maior.

 

                              «As Três Marias»

 

Tendo Jesus ressuscitado na noite de sábado para domingo, esta vigília é reconhecida como «a mãe de todas as santas vigílias, na qual a Igreja espera a Ressurreição de Cristo e a celebra nos sacramentos». Considera-se, pois, incorrecto dar ao sábado o nome de sábado de Aleluia. Repare-se que durante a Quaresma a Igreja deixa de pronunciar a palavra «aleluia», para só voltar a proferi-la a meio da Missa da Vigília Pascal, no momento da Glória – versículo que se reza ou canta após os salmos, que significa Glória ao Pai –, altura em que se faz ouvir o repicar dos sinos em todas as igrejas e em que no seu interior as campainhas soam transportadas, por vezes, pela mão das crianças do coro, em voltas rituais ao redor do espaço litúrgico.
 

                  Capela da Relva, Monteiras, Lamego

 

O «aleluia» continuará a ouvir-se ainda, falado ou cantado de forma especial, isto é, de um modo particularmente exultante e festivo, durante o período que medeia a Ressurreição e o Pentecostes. Registe-se, por isso, o costume que tem lugar na Igreja Matriz de Idanha-a-Nova – e noutros pontos do País, para além da Beira Baixa –, de os rapazes dentro do templo, quando o sino toca as «aleluias», agitarem ramos no ar, utilizarem chocalhos e apitos e baterem com os pés e as mãos fazendo o maior barulho possível, associando-se assim à alegria da Ressurreição de Cristo.
 

        «Cantar das Alvíssaras», igreja matriz de Idanha-a-Nova

 

As mulheres, por seu turno, ao som do adufe cantam as «alvíssaras» – cantares tradicionais festivos ou regionais, por vezes com quadras improvisadas, neste caso alusivas à Ressurreição. Forma-se depois um cortejo, com centenas de participantes, que percorre as ruas da vila, sempre no meio da mais alegre e contagiante barulheira de apitos e chocalhos, acompanhados pela banda filarmónica.

 

                        «Cortejo de Aleluia», Idanha-a-Nova

 

O ritual termina com a «apanha das amêndoas», arremessadas pelo padre, oferecidas em sinal festivo à população que se reúne no adro da igreja.

 

 Soledade Martinho Costa
                                    


In “Festas e Tradições Portuguesas, Vol. III
Ed. Círculo de Leitores

  

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Domingo, 16 de Março de 2008

DOMINGO DE RAMOS - DA MISSA SECA À BENÇÃO DOS RAMOS E DOS PALMITOS

Palmito
 
A missa de domingo de Ramos – durante a qual se faz referência à Paixão e Morte de Jesus – foi chamada, em tempos, Missa Seca. Segundo uns, missa sem música (órgão e cânticos), na versão de outros, celebração em que não há comunhão (consagração do pão e do vinho).
  
Benção dos ramos, igreja de São Francisco, Armação de Pêra, Algarve
   
Uma das tradições deste dia, das mais populares entre nós, consiste na «bênção dos ramos» ou dos «palmitos», prática comum a todos os povos católicos, relacionada com os vários aspectos das comemorações da quadra pascal.
 
Entrada de Jesus Cristo em Jerusalém
 
Ao dar início à Semana Santa, neste domingo se recorda e reconstitui um dos episódios mais marcantes da vida de Jesus Cristo: a sua entrada messiânica em Jerusalém para celebrar a Páscoa Judaica, tendo sido recebido, conforme se lê no Evangelho, «com gritos de alegria e o maior entusiasmo da multidão», que buscou folhas de palmeira para com elas O aclamarem.
 
 
Procissão das Palmas, Astorga, León, Espanha
 
Atados, por vezes, com fitas de cores e compostos por folhas de palmeira, alecrim, oliveira, loureiro, rosmaninho e mimosas, os ramos, benzidos antes da missa (ou de véspera, na missa da tarde), guardam-se depois em casa durante todo o ano. Nas vilas e aldeias continuam a ser pendurados na cozinha ou à cabeceira da cama para «proteger dos maus ares». É também costume colocar-se o ramo na sala, na altura da visita pascal (o «compasso»), ao lado de uma imagem religiosa ou pendente de um crucifixo. 
  
 
Procissão dos Ramos, Sardoal, Santarém
      
Na Beira Baixa leva-se à Igreja, juntamente com o ramo, um pão para ser benzido antes da missa, conferindo-lhe a crença popular «poderes divinos e profilácticos». Em diversas localidades eram os «mordomos» que ofereciam ao padre um «palmito», sempre maior e mais enfeitado do que os outros, que o pároco, por sua vez, oferecia, simbolicamente, depositando-o sobre o altar.
 
 
 
 
Outras vezes é colocado à porta ou no meio da igreja um enorme ramo de oliveira, enfeitado com fitas, flores e alecrim, que o padre benze na ocasião em que procede à bênção dos «palmitos».
 
 
Procissão dos Ramos, Póvoa de Varzim
 
Havia ainda o preceito de utilizar-se um ramo de oliveira, ornamentado apenas com um laço de seda, entregue ao pároco pelo sacristão ou pelas «mordomas». Após benzido o ramo era dividido em pequenos ramos e distribuído aos fiéis pelo padre, prosseguindo o ritual com os devotos a desfolharem, ao redor da igreja, um galho do ramo oferecido, rezando um pai-nosso e uma ave-maria por cada uma das suas folhinhas. Prática caída em desuso, continua, mesmo assim, a verificar-se em determinadas localidades.
 
Procissão dos Ramos, Zaragosa
 
O que sobrava deste ramo, o grande ramo de oliveira, o próprio ramo do padre e as palmas que enfeitavam a igreja eram guardadas nas sacristias até à quarta-feira de Cinzas do ano seguinte. Ainda hoje as palmas e os ramos que ficam nas igrejas são queimados neste dia, servindo as suas cinzas para impor o Sinal-da-Cruz na fronte dos fiéis que comparecem à Missa das Cinzas.
 
 
Procissão dos Ramos, Monchique, Algarve
 
Em Nisa, além das palmas, leva-se à igreja um ramo de alecrim e oliveira (antigamente enfeitado com pequeninas flores roxas), a que se dá o nome de «vassouras», por apresentarem essa configuração. Depois de benzidas, as «vassouras» – que se vendem neste dia pelas ruas – são penduradas na sala de entrada das casas, sempre «em lugar bem à vista».
 
Papa Bento XVI, procissão de Domingo de Ramos, Praça de São Pedro, Vaticano
 
Em diversas aldeias da Beira Alta, o ramo é feito de loureiro e oliveira e enfeitado com alecrim, camélias, laranjas, figos secos, doces, bolos, etc., chegando a atingir a altura da pessoa que o transporta. Do Minho ao Algarve continua também a manter-se o uso de queimar algumas das folhas do ramo bento «para afastar as grandes trovoadas». Com igual propósito, colocam-se raminhos de oliveira sobre as portas e janelas ou dá-se a comer ao gado um pedacinho do pão bento.
 
 
Imposição das Cinzas, Arquidiocese de São Paulo, Brasil
 
Supostamente a representar resquícios dos sacrifícios humanos praticados no antigo Egipto, a «cerimónia das cinzas» remonta aos primeiros séculos da era cristã, inicialmente para admitir os crentes na comunidade, enquanto no século X d. C. toda a congregação católica romana, pessoas fora dela e os próprios sacerdotes passaram a tomar parte no ritual religioso da imposição das cinzas.
 
 
Soledade Martinho Costa
 
 
 
In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. III,
Ed. Círculo de Leitores
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Sexta-feira, 14 de Março de 2008

SEGREDOS

 
 
Dobaram-se nos anos das marés
Sem outra condição
Outro provir
Que das areias
Das conchas
E dos limos
Serem a hora exacta
O sal onde se afogam
As palavras
Que a voz
Deu aos sentidos.
 
Os nomes e os sinos
Que se escutam
A percutir de frio
Nos ouvidos
São a tormenta
O poema que se afunda
Nos dias que se arrastam
Pelas sombras
A dar ao coração
Maior vazio.
 
São mistérios
São ritos
São cristais
São lágrimas
São esperas
Emoções
Ou espadas
No recato de seus gumes.
 
Temporais
Onde o mar
Busca nas ondas
Bruxedos
Que os corais
Escondem na espuma
Roubados dos abismos
E das brumas
Que o Sol não atravessa
Com seus lumes.
 
Soledade Martinho Costa
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Sábado, 8 de Março de 2008

TROVA DA PAISAGEM REAL

Melgaço

Parado no meio do tempo
Na serra
Havia um pastor.

Alguém
Que o nome esquecia
Nas horas que apascentava.

Água da fonte
Da terra
Da serra
Nela morava.

Na serra
Havia um pastor
Guardado pelo seu rebanho.

Ermo destino
E engenho
Poema que acontecia.

Água da fonte
Da terra
Da serra
Nela morria.

Parado no meio da vida
Na serra
Havia um pastor.

A tê-la
Apenas por tida
Cada dia que chegava.

Sem saber
O que podia
Sem dizer o que tardava.

Ai, pastor
Que sina a tua
Nasce o Sol
Põe-se a lua
E não se quebra o encanto;
Sozinho lá no teu canto
Embriagas-te no canto
Que te traz a cotovia.

E quando o escuro
Te aquece
Sufocas em ti o pranto
De uma lágrima tardia.

Fazes de conta que esqueces
Esperas a luz de outro dia
E sem sonhar adormeces. 

Soledade Martinho Costa

 

 

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Domingo, 2 de Março de 2008

ABRE-LATAS - OS GATOS, FEDORENTOS!?

 
Fedorentos os gatos, meus caros amigos, nunca!
 
Podemos dizer que um porco é um animal fedorento. Porque ele sim, é o fedor em animal. Principalmente, se dermos um giro por essas aldeias bem portuguesas, onde os porcos são criados no «chiqueiro», bem junto das casas dos respectivos donos – e também das casas daqueles que nada têm a ver com o assunto. A não ser, suportar o fedor. Um fedor que empesta, sufoca e faz com que os porcos sejam animais super fedorentos. Não os gatos. Que não se confunda.
 

 

Tão fedorentos são os porcos, que se diz, quando nos abeiramos de alguns locais: «Aqui há porco». Ou, no caso de passarmos de carro numa estrada: «Aqui há uma suinicultura». Resta-nos fechar as janelas do carro, porque o fedor teima em acompanhar-nos ao quilómetro. Quanto a porcos fedorentos, estamos falados.
 
Passemos agora aos bodes. Ora aqui temos outro exemplo de um animal fedorento. Do pior. Quando os bodes (e as cabras) passam por nós ou nós por eles, o fedor é verdadeiramente insuportável. Decerto, já notaram, não? Basta apenas um animal para o fedor ser intenso. Quanto mais quando se trata de um rebanho com bodes e cabras à mistura. Bodes fedorentos são uma realidade comprovada. Mas não os gatos, repito. Adiante.
 
Vamos, então, aos macacos. Fedorentos até dizer chega. Haja alguém que o negue. O fedor dos macacos infesta de tal maneira, que estando nós ainda longe da «aldeia dos macacos», no Jardim Zoológico, já o cheiro fedorento faz adivinhar a localização do seu «habitat». São igualmente fedorentos quer os macacos grandes, os médios, os assim-assim e os pequeninos, os bebés macacos, a mamar nas tetas das macacas mamãs. Todos eles fedorentos, sem margem para dúvidas. Meu Deus, mas os gatos…
 
Bom, e o que me dizem das doninhas? Há lá coisa mais fedorenta do que uma doninha fedorenta? Nem elas aguentam o seu próprio fedor! Ou, então, disfarçam bem. Mas, os gatos, fedorentos? Os gatos!? Por favor… Acho um verdadeiro insulto dirigido aos felinos caseiros e cá estou eu para não deixar passar o ultraje sem uma palavra em defesa dos mesmos.
 
Vocês, grupo de jovens/revelação, não escolheram o nome certo. Escolheram o nome à altura dos vossos conhecimentos de zoologia, que, desculpem-me a franqueza, parecem não ser lá grande coisa. Enfim, digamos que a mais não são obrigados. Eu é que me sinto na obrigação de vos esclarecer. Só isso. Continuemos, pois.
 
Reparem nos cães. Aí está mais um animal fedorento. Refiro-me aos cães que nascem e morrem sem ter havido mão caridosa que lhes tenha dado, ao menos, um único banho. Daí, os cães serem também animais fedorentos. Tentem coabitar com um cão fedorento. É de fugir. O fedor é tanto que não há narina que aguente. Mas meter os gatos no embrulho…  Aliás, sempre se disse «um cão fedorento» e não «um gato fedorento». Agora é que se vai ouvindo a injusta denominação. E porquê? Porque vocês, rapazes, resolveram, em má hora, aparecer com este nome: «Gato Fedorento»!
 
Haja bom-senso: os gatos nunca foram fedorentos. São animais elegantes, brincalhões, dorminhocos, friorentos, miões, noctívagos, fobiaquáticos, larápios (um carapauzito por outro), assanhados (quando é preciso), caçadores. Nunca, mas nunca, fedorentos! Fedorentos só na vossa imaginação, provocação e má fé, sem dúvida...
 
Os gatos, meus amigos, mal acabam uma refeição, ei-los logo a cuidar da sua higiene e aparência. Todos nós sabemos que fazem, até, a sua limpeza orgânica para se livrarem de parasitas internos. Volta não volta, lá estão eles em busca da chamada erva-gateira.  Mais. Os gatos não deixam os seus cocós nos passeios, como deixam os cães – ou os donos deles. Muito pelo contrário. Escolhem o sítio certo, ajeitam-se, e no fim é vê-los a tapar, com a patinha delicada, o «presente» deixado discretamente. Com o chichi, fazem a mesma coisa.
 
Agora, reparem nos cães. Vá de alçar a perna e todo o lugar lhes serve: a base dos candeeiros da rua, muros, portas, canteiros de jardins, pneus dos carros… Ninguém os trava. O pior, é que atrás de um cão, vem logo outro cão fazer mais um chichi exactamente no mesmo sítio. Uma verdadeira praga. E o fedor?
 
Caros «gatos»: aceitem o conselho de uma amiga dos gatos, que não tem gatos em casa. Mudem de nome. Mas não mudem de profissão. Ganham vocês e ganham os pobres dos gatos, que devem andar fartos, fartíssimos de ser injustamente injuriados e humilhados. Vão por mim. Gatos fedorentos, nunca! Tenho dito.
 
Soledade Martinho Costa
    
 
 
 
 
 
publicado por sarrabal às 18:40
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Sábado, 1 de Março de 2008

CALENDÁRIO - MARÇO

 
 
Descobre
A borboleta
As pétalas das flores.
 
Na herança dos muros
Trepam as folhas de hera
É Março com notícias
De ninhos e esponsais.
 
Há verdes                                     
Que se cruzam                             
Nos matizes das cores                
 
Espreitam as andorinhas
À janela dos beirais.
 
Soledade Martinho Costa
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