Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

PASSAGEM DO ANO OU NOITE DE SÃO SILVESTRE

Lisboa
 
Falar da noite de 31 de Dezembro é, obrigatoriamente, lembrar praxes, superstições, costumes ligados ao ano que finda e nos permitem, pela sua vertente profiláctica e intercessora, ter esperança no novo ano que começa. Com essa crença, comem-se passas de uva, fazem-se soar apitos, colocam-se na cabeça chapelinhos coloridos, veste-se uma peça de roupa azul, salta-se para cima de uma mesa ou de uma cadeira, bebe-se uma taça de champanhe, deita-se fora um caco velho. Repetem-se, por escrito ou de viva voz, os votos de «boas saídas», «boas entradas», «prosperidades», «saúde», «paz», «felicidade».
 
 
Tudo isto a fazer lembrar remotas sobrevivências de ritos mágico/propiciatórios de purificação, de abundância e de fertilidade, assim como de excomunhão de poderes maléficos ou nocivos.
 
 
Comem-se as tradicionais passas de uva, uma por cada uma das doze badaladas da meia-noite, expressando doze pedidos (um por cada passa), «que serão concretizados, segundo a versão popular, um em cada um dos doze meses do ano que começa», ou atiram-se, nessa noite, três pedras para diante, à medida que se caminha, fazendo ao mesmo tempo um voto por cada uma das pedras atiradas (votos que, parece, serão realizados por todo o ano que chega).
 
 
O costume de se fazer barulho na noite do ano que começa, terá o sentido popular de «enxotar o velho» (o ano que termina), prática seguida noutros países, em que se fazem ainda grandes fogueiras na Noite de Ano Bom para «queimar o ano velho» e se realizam praxes mágicas com o fim de «expulsar as bruxas e os espíritos maus».
 
O hábito, antiquíssimo, de atroar os ares com maior ou menor barulheira, utilizando diversos objectos (latas ou tampas de panelas), poderá ter a sua origem em certos países da Europa e noutros onde se procedia ao ritual «de se bater com um pau (ou mangual) no chão de cultivo durante a noite do último dia do ano e nas noites seguintes», com a intenção de «afugentar os espíritos malignos que prejudicavam a renovação do solo, o revigorar das raízes e o germinar das sementeiras».
 
Também a tradição de «escacar» (partir) loiça já velha constitui uma prática com objectivos mágicos, profilácticos ou propiciatórios, ligados ao sentido de felicidade.
 
 
Nas nossas aldeias, em tempos idos (o mesmo acontecendo noutros países), havia o uso de as mulheres irem guardando, durante o ano, a loiça velha, principalmente loiça de barro (cântaros, tachos, bilhas rachadas, sem asas, sem bico), para ser completamente «escaqueirada» na noite de passagem de ano, juntando-se o povo nas ruas para assistir e participar no ritual – ainda aqui simbolizado pelo acto de «deitar fora o ano velho».
 
 
Outro costume que se conserva em algumas aldeias portuguesas (como na Beira Baixa e Alentejo), consiste em marcar as portas com farinha na Noite de Ano Bom, para «dar sorte». Chamado, popularmente, «o milagre das portas», conta que «um soldado de Herodes terá descoberto a casa onde Jesus se albergava. Por ser de noite lembrou-se de marcar a porta com farinha. De manhã, quando regressou com outros soldados, todas as portas estavam marcadas do mesmo modo, acabando os perseguidores por desistir da busca». Lenda semelhante vamos encontrá-la pela Páscoa, com as portas assinaladas com ramos de giesta.
 
Ribeira, Porto
 
A noite de passagem de ano é festejada entre nós, exuberantemente, um pouco por todo o lado, quer em locais de diversão fechados, quer em amplos espaços públicos, sendo imprescindíveis a música e o fogo-de-artifício. Neste contexto, o destaque vai, sem dúvida, um pouco mais longe: para a ilha da Madeira (Funchal), onde se realizam as grandes Festas do Fim do Ano ou de São Silvestre, a oferecer aos naturais e visitantes (turistas nacionais e estrangeiros) um espectáculo de beleza inesquecível e invulgar. Pela música e cantares tradicionais (os «bailinhos»), mas, sobretudo, pelo deslumbrante fogo-de-artifício, saído de cerca de cinquenta pontos distribuídos ao longo de toda a cidade, deitado sobre a baía, a iluminar a esperança dos homens no novo ano prestes a chegar.
 
 Funchal, Madeira
  
SÃO SILVESTRE – O ISAPÓSTOLO
 
 
São Silvestre, capela de Vila Dianteira, São João de Areias, Santa Comba Dão
 
Eleito papa em 314, a Silvestre I se atribuem diversas inovações no seio da Igreja Católica: o decreto de «Ordenação das datas», que faz do domingo um dia feriado (321); a construção da primitiva Igreja de São Pedro (actual Igreja do Vaticano), sob a contribuição do imperador Constantino Magno (324); a convocação do Primeiro Concílio Ecuménico Universal em Niceia, que reuniu mais de trezentos bispos, com o próprio imperador a presidir em lugar de honra (325); a obrigação do uso da sotaina e o jejum da sexta-feira.
 
Nascido em Roma, moderado e prudente, simples e humano, serviu fiel e apagadamente o imperador Constantino, agindo, por vezes, como um verdadeiro bispo da Igreja, principalmente no Oriente, onde o distinguiam com o nome de Isapóstolo (igual aos Apóstolos).
 
Data do seu pontificado a chamada «Doação Constantiniana», que se traduz na entrega efectuada por Constantino à Igreja, na pessoa de São Silvestre, da Dumus Faustae (Casa de Fausta, nome da esposa do imperador), ou seja, do Palácio Imperial de Latrão (residência papal durante 10 séculos, até João XI). Junto do palácio ergueu-se depois uma sumptuosa basílica de cinco naves, primeiramente dedicada a Cristo Salvador e mais tarde a São João Baptista e São João Evangelista, hoje a Catedral Episcopal de Roma: São João de Latrão, uma das cinco basílicas patriarcais de Roma. Ao mudar-se para as margens do Bósforo, onde inaugurou, em 330, a cidade de Constantinopla (antiga Bizâncio), Constantino, o protector da religião cristã, doaria também à Igreja a própria cidade: a actual cidade de Istambul, capital da Turquia.
 
São Silvestre encontra-se associado à noite da passagem de ano pelo facto da sua morte ter ocorrido no último dia do ano: 31 de Dezembro de 335. Sepultado no cemitério romano de Priscila, os restos mortais de São Silvestre seriam trasladados por decisão do papa Paulo I (757-767) para a igreja erguida em sua memória.
 
Pelo menos até ao final do século XVIII foi uso dar às crianças nascidas neste dia o nome de Silvestre, em homenagem ao santo.
 
Minho 
 
São Silvestre é referido ainda como um dos santos protectores do gado.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
In Festas e Tradições Portuguesas, Vol.I e VIII
Ed. Círculo de Leitores

 

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Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

OUTROS NATAIS

" A Adoração ", Fra Filippo Fralippi
 
 
Onde a magia dos Natais de outrora
O presépio dos olhos da infância
São José, a Virgem, o Menino
Figuras modeladas, quase gente
A mostrar-se ao espanto dos pastores que vinham
Em fila pelo musgo dos caminhos
Para ofertar cordeiros e presentes.
 
Onde a azáfama do rumor das mãos
Nos alguidares de barro onde a farinha
A abóbora, os ovos, o fermento
Tomavam forma e gosto tão distantes.
 
Aonde o sono arredio que não vinha
Nessa Noite Sagrada em que os pinheiros
Choram saudades de bosques e de estrelas
Sob a caruma de luzes e de enfeites.
 
Onde o mistério que seguia os passos
Dos adultos no ranger das tábuas
Em nossos passos furtivos de criança
Na ânsia de encontrar em qualquer canto
De barbas e de saco o Pai Natal.
 
Quantos Natais assim em que a Família
Se reunia inteira à grande mesa
Da sala de jantar tão velha e gasta
Que por magia nessa noite remoçava
A transformar em cristal os vidros baços.
 
Quantos presépios retidos na memória
Quantos aromas ainda a Consoada
Quantos sons a deixar nos meus ouvidos
Os risos, os beijos, os abraços.
 
Quantas imagens cingidas na penumbra
Desta lembrança que se fez saudade
Dos rostos, dos gestos, das palavras
Na lonjura das vozes e da Casa.
 
Noite Divina em que torno a ser criança
Ante o meu olhar adulto e me desperto
Na emoção que nos traz os anos:
O meu Natal é hoje mais concreto
Mas muito menos belo e mais deserto.
 
Soledade Martinho Costa
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RITUAIS DO NATAL - A PRESENÇA DOS AUSENTES

 
Festa da família, da comunhão e da congregação familiar, tempo de reflexão, de concórdia e de amor, o Natal representa também a ausência e a recordação dos familiares que já não se encontram entre nós. Daí, a alegria própria desta quadra ser atenuada por um sentimento de nostalgia, de saudade e tristeza, reconhecido em diversas práticas que têm lugar nesta data, algumas vindas da Antiguidade, a lembrar rituais pagãos efectuados no solstício do Inverno, relacionados com o culto dos mortos, posteriormente perfilhados e integrados no conjunto das celebrações da Igreja Católica em louvor do nascimento de Cristo.
 
Dessas práticas e costumes, que relacionam a própria ceia da família com anteriores ritos associados ao culto dos defuntos em épocas remotas, ressalta a crença popular de que «os mortos da família regressam na noite de Natal à casa que habitaram em vida para participar na reunião familiar e tomarem parte na Consoada».
 
 
Em certas localidades do Alto Minho, continua a manter-se o hábito de colocar-se um talher na mesa «destinado à pessoa da família falecida em data mais recente». No Norte, dispunha-se numa outra divisão da casa uma pequena mesa «com a duplicação da ceia, consagrada aos familiares desaparecidos». Outras vezes, deixava-se «do lado de fora da porta da casa, à meia-noite da noite de Natal, um prato com um pouco de tudo de que se compunha a Consoada, levando-se uma luz para que as almas, vindas na figuração de borboletas brancas ou negras – conforme fosse bom ou mau o seu lugar – pudessem ver o que a família lhes destinara».
 
Ainda há pouco tempo, na região do Barroso, era hábito evocar o nome dos familiares falecidos antes de se dar início à ceia de Natal. Noutras localidades do nosso País – incluindo Lisboa – a mesa da Consoada fica posta, por vezes, desde o Natal até ao Ano Novo. Costume baseado na crença de que «os mortos da família estão presentes durante a quadra natalícia», crença que persiste em Ousilhão, Vinhais. A mesma intenção faz com que em certas regiões «não se levante a mesa da Consoada até à manhã do dia de Natal», ou, no caso de levantar-se, «voltar a colocar-se sobre ela algumas iguarias, para que as almas que apareçam mais tarde encontrem de comer» (numa outra versão «para os Apóstolos virem comer»).
 
Em diversos países da Europa (Espanha, França, Inglaterra), deixava-se o fogo aceso na noite de Natal e reservava-se um lugar à mesa da Consoada destinado «ao Menino Jesus». Com intenção piedosa colocava-se ainda sobre a mesa leite ou cera destinados às almas e acreditava-se que «nessa noite os fantasmas não deixavam de aparecer».
 
 
A convicção de que em certas datas festivas, como o Natal, se deve comer filhoses ou outras espécies alimentares fritas, leva, igualmente, a que entre nós, em diversas localidades, associada a essa crença, se conserve a praxe de fritar nesses dias em azeite «algumas folhas de oliveira, para que as oliveiras fortaleçam», representando esta prática «um ritual mágico de excomunhão dos elementos maléficos ou nocivos que infestam por esta altura as árvores e a natureza».
 
 
Estes princípios poderão, eventualmente, estar relacionados com o facto de a abóbora (com a qual se fazem as filhoses) se encontrar associada aos ritos propiciatórios do culto dos mortos (geralmente como máscara usada nas figurações humanas). Daí, provavelmente, a razão da sua utilização em praxes rituais ligadas aos manjares cerimoniais do Natal e de outras quadras festivas, empregue nas suas diversas variedades: abóbora-botelha (cabaça); abóbora-moganga (menina); abóbora-jerimu (amarela) e abóbora-chila (anã) – quer em doces, papas ou filhoses.
 
 
Outra praxe referente ao culto dos mortos (caída em desuso) observava-se no costume de se espalhar palha no chão da sala, principalmente na cozinha,  enquanto a lenha ardia na lareira, cobrindo-a depois com mantas sobre as quais se deitavam e dormiam os membros da família até de manhã, deixando, assim, desocupadas as suas camas «para nelas poderem repousar os seus familiares defuntos que tinham vindo de visita a casa».
 
Talasnal, serra da Lousã   
 
O ritual da palha – colocada ainda hoje depois da ceia, junto da lareira, em muitas casas das nossas aldeias – resultará da explicação de «Jesus ter nascido sobre as palhas na manjedoura de Jerusalém» – palha que só deve ser retirada do chão na noite do dia 25. Esta praxe verificava-se noutros países da Europa, como a Suécia e a Dinamarca.
O azevinho, planta alusiva ao Natal, encontra-se, igualmente, ligado ao culto dos mortos, por ser com ele que noutros tempos se enfeitavam as campas na quadra natalícia.
 
Localidades há, onde ainda se visitam as campas dos familiares na véspera de Natal, para nelas deixar um ramo de azevinho.
      
À noite, quando colocado sobre a mesa da Consoada, simboliza «o espírito da reunião familiar» e a «celebração da união da família».
 
Soledade Martinho Costa
 
In “Festas e tradições Portuguesas”, Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores
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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

E FOI DEZEMBRO


Luís Represas

 
E foi Dezembro
Que as tuas mãos
Colheram devagar.

E foi Dezembro
Quando a sós
Tudo disseste
Quase sem falar.

Foi um palco vazio
A acontecer
No frio que se ergueu
Dentro de nós.

Uma distância
O mar que se estendeu
A separar da minha
A tua mão.

E foi Dezembro
Inteiro a anunciar
A solidão dos dias
Por nascer.

E foi Dezembro
À chuva a reviver
As pedras e os rios
E os luares.

Os nomes
Que vestiam os lugares
E os sonhos repartidos
Que não fomos.

A coragem
Nascida de aceitar
A verdade de ser
O que hoje somos.

E foi Dezembro
Vivo na roseira
Despida no silêncio
Do jardim.

E foi Dezembro
Ainda na cegueira
Das asas de uma ave
Que há em ti.

Foi um tempo
De amantes a aprender
Que não deve esquecer-se
O verbo amar
Ou um Inverno apenas
A perder-se
Da Primavera
Do primeiro olhar.

Letra: Soledade Martinho Costa

Música e interpretação: Luís Represas

(Do álbum "Cumplicidades")


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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

SÃO NICOLAU - O PAI NATAL DAS CRIANÇAS

 
Em muitos países da Europa (Alemanha, Áustria, Holanda, Dinamarca) e também nos Estados Unidos, São Nicolau representa na quadra natalícia, particularmente junto das crianças, o autêntico Pai Natal. Conhecido pela sua enorme bondade e pelas ofertas generosas que fazia (a herança deixada pelos seus pais destinou-a a obras de benemerência), São Nicolau foi sagrado bispo de Mira (a sul da Turquia) e padroeiro da Rússia e das crianças.
 
Defensor do povo durante as perseguições aos cristãos, foi, por essa época, encarcerado, acorrentado e torturado, tendo vindo a recuperar a liberdade quando da subida ao trono do imperador Constantino – o protector da religião cristã.
 
Antes e depois da sua morte (324) por muitos se contam os milagres que lhe são atribuídos, relatando um deles que «um magarefe pagão terá morto e colocado numa salgadeira três crianças, que São Nicolau logo ressuscitou». Esta lenda, com o decorrer dos tempos, terá ajudado a consolidar que o santo se tenha tornado em toda a Europa no Pai Natal das crianças, conhecido mundialmente por Santo Claus (a derivar de Sanctus Nicolaus), festejado de 5 para 6 de Dezembro, data em que, segundo o imaginário que a tradição impõe, visita as crianças de casa em casa, «fazendo-se acompanhar por um burro carregado de brinquedos e guloseimas».
 
Noutros países, como em Portugal, a data desta visita foi transferida para a noite de 24 de Dezembro, celebrando-se assim, de um modo ainda mais significativo, o nascimento do Deus Menino – a quem, por vezes, cabe a tarefa  de ajudar o Pai Natal, descendo pelas chaminés para depositar os presentes, quase sempre no sapatinho, como é uso entre nós.
 
 
Nos países das neves, o burro é substituído por renas, que puxam um trenó.
 
Em 1087 o corpo de S. Nicolau foi transportado para a cidade de Bari (Itália), tornando-se este local um ponto de peregrinação e lugar de culto. De acordo com a história, ou a lenda, ´«um cavaleiro da Lorena terá passado por lá, trazendo consigo para França o fragmento de um dos dedos do santo». A preciosa relíquia foi então depositada numa capela da aldeia de Port (chamada depois Saint-Nicolas-de-Port), nos arredores de Nancy. A partir daí, devido aos muitos milagres acontecidos, a capela foi substituída por uma igreja (1105) e mais tarde pela actual basílica.
 
Soledade Martinho Costa
 
 
In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol.VIII
Ed. Círculo de Leitores
  
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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007

«SEARINHAS» DE NATAL

Presépio tradicional Algarvio
 
 Associadas à quadra natalícia, as «searinhas», «cabeleiras», «centeiinhas», «tacinhas de Adónis» ou «searas de Jesus», aparecem, sobretudo, nas zonas rurais, colocadas junto dos oratórios e presépios erguidos em casa, nas capelas e igrejas, oferecidas ao Menino Deus com o pedido de «boas colheitas».
Semeadas três semanas ou um mês antes do Natal, utilizam-se para a sua germinação bagos de trigo, milho, aveia e outros cereais, humedecidos em pequenos recipientes mantidos, quer ou não, ao abrigo da luz.
 
Presépio tradicional Algarvio
 
Mas também em terras de gente do mar (caso de Olhão, Algarve) a tradição se mantém, procedendo-se à sementeira das «searinhas», em pratos ou taças, no dia 8 de Dezembro (com trigo, centeio, linhaça, ervilhaca ou grão-de-bico).
Na véspera de Natal as «searinhas» estão prontas e «arma-se o Menino», ou seja, dispõem-se, quase sempre sobre uma mesa coberta com uma toalha branca bordada ou de renda, várias caixas em degrau, forradas conforme o gosto, cobertas, igualmente, com paninhos brancos bordados.
 
Presépio tradicional Madeirense (lapinha
 
No lugar mais alto dessa espécie de trono coloca-se então a imagem do Deus Menino e pelos degraus do trono dispersam-se as «searinhas», alternadas com laranjas, tangerinas e velas, que se deixam acesas durante toda a noite.
Este, o presépio mais tradicional, embora surjam ali outras variantes ao gosto de cada um.
O mesmo género de presépio, verifica-se na ilha da Madeira, tomando ali o popular nome de «lapinha».
 
Presépio tradicional, São Brás de Alportel, Algarve
  
As «searinhas» aparecem ligadas a diversas ocasiões cíclicas festivas, religiosas ou não, caso das celebrações do Divino Espírito Santo, dos Santos de Junho (particularmente a São João) e do Carnaval – a lembrar que já na Antiguidade as mulheres da Frigia as semeavam por alturas especiais, levando-as em recipientes a germinarem ao sol, para ficarem verdes, enquanto entre nós, se apresentam, por vezes, esbranquiçadas, devido à germinação ter o seu processo em local sem luz.
 
Soledade Martinho Costa
  
 
In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol.III
Ed. Círculo de Leitores
 
publicado por sarrabal às 01:03
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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

AS QUATRO MISSAS DE NATAL

  
Igreja de Nossa Senhora da Assunção, Vilar de Maçada, Alijó, Vila Real.
        
Têm lugar entre o dia 24 e 25 de Dezembro, propostas pela Igreja no seu Missal, no entanto, sem a obrigação de serem celebradas. As suas designações, pela respectiva ordem, são as seguintes: Missa da Vigília (instituída em Roma na segunda metade do século V, celebrada na tarde do dia 24, que representa a preparação para o dia de Natal, com o cântico: «Hoje sabereis que o Senhor vem salvar-nos. Amanhã vereis a Sua Glória»); Missa da Meia-Noite, ou Missa do Galo, a mais popular, chamada, antigamente, Missa do Cantar do Galo – gallicantum (instituída pelo papa Telésforo no século II, celebrada para anunciar o nascimento de Cristo, que a tradição diz ter sido à meia-noite, embora não se saiba a hora exacta desse momento); Missa da Aurora, ou Missa da Luz, mais conventual (celebrada ao romper do dia, em analogia ao Sol, a lembrar que Cristo representa o símbolo da luz), e a Missa do Dia (celebrada no dia de Natal, independentemente da hora, considerada a mais solene e importante em louvor do nascimento de Jesus).
 
 
A designação Missa do Galo, advirá, supostamente, das antigas vigílias efectuadas pelos cristãos, que se prolongavam até de madrugada, altura em que o canto dos galos se fazia ouvir. Na liturgia bracarense da Idade Média, uma das missas de Natal celebrada por essa época é citada, exactamente, como a Missa dos Galos – pollurum. Hoje, em Braga, à semelhança de outras localidades do País, celebram-se três missas, visto a Missa da Aurora (à excepção dos Açores e da Madeira) ter passado a ser efectuada apenas nos conventos.
 
Na ilha de São Miguel (Açores) celebra-se a Missa da Vigília, a Missa do Galo e a Missa da Aurora (oito horas e trinta minutos da manhã) – chamada, popularmente, em certas freguesias, Missa da Galinha, em analogia à Missa do Galo –, além da Missa de Natal no dia 25 (onze horas da manhã).
 
No Funchal (Madeira) a liturgia das missas de Natal tem início no dia 16 de Dezembro com uma novena (as Missas do Parto) a decorrer até ao dia 24, celebrada diariamente entre as cinco horas e trinta minutos e as seis horas da manhã. Neste cerimonial religioso (sempre grandemente participado), antes de cada missa são entoados uma ladainha e cânticos de louvor a Nossa Senhora, seguindo-se a missa, também ela acompanhada por cânticos religiosos de cariz popular – as «loas ao Menino», muito conhecidas e próprias da Madeira. Os cânticos, inspirados na Bíblia, diferem em termos de letra de localidade para localidade, embora as músicas se mantenham idênticas.
 
A liturgia natalícia na Madeira divide-se pela Missa da Vigília (na tarde do dia 24); Missa do Galo (meia-noite); Missa da Aurora, ou Missa dos Pastores (seis ou sete horas da manhã) e Missa de Natal (durante o dia sem hora certa).
 
Soledade Martinho Costa
 In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores
 
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Domingo, 16 de Dezembro de 2007

UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - O AZEVINHO

 
 
A manhã alonga o passo pelos campos fora. E não se detém. Na pressa de chegar ao fim do dia nem sequer repara no tapete de azedinha e de trevilho, lado a lado como dois bons amigos que muito se prezam. Onde está um, está o outro. O trevo-dos-prados no anseio de nascer com quatro folhas para dar sorte à mão que o descobrir. As azedas a enfeitá-lo de amarelo nas pétalas que fecham ao entardecer.
Mas o azevinho também marca encontro nesta altura do ano. Num emaranhado de picos e segredos, contente por se saber esperado, desponta pelas toiças a mostrar as bagas vermelhas na folha envernizada – que há-de enfeitar Dezembro, quando chega o Natal.
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”
Ed. Publicações Europa-América
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HISTORINHAS - A PINHA E O PINHEIRO

                     
 
- Pai, pai Pinheiro! Onde se esconderam as estrelas do céu, que não as vejo?
- Atrás das nuvens. – responde o pinheiro, pai da pinha que baloiça ao vento entre as agulhas finas.
- Agasalhadas nelas, porque têm frio?
- Não, minha filha. As nuvens não podem aquecer as estrelas, porque são elas que trazem a chuva…
- Ah! – diz, simplesmente, a pinha.
- E tu, não dormes? – pergunta o pai.
- Ainda não. Penso que as estrelas fazem falta no céu…
- Sim, as estrelas do céu são as mais bonitas que enfeitam os pinheiros!
 
Soledade Martinho Costa
Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”
Ed. Publicações Europa-América
 
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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

ÁRVORE DE NATAL - ORIGENS

 
            
 
Remontará, supostamente, à Antiguidade, quando no solstício do Inverno era hábito decorarem os templos e as casas com folhagem (símbolo da vitória da vida sobre a morte), ritual pagão que tinha por finalidade “revigorar e reverdecer a natureza e apelar aos espíritos das árvores o seu regresso na Primavera, para tornarem a cobri-las de folhas”.
 
Outra hipótese para a sua proveniência, leva-nos à Idade Média, altura em que terá feito a sua aparição integrada nos «Jogos da Natividade» ou «Jogos do Paraíso», celebrados a 24 de Dezembro em Estrasburgo (capital da Alsácia) , alusivos a Adão e Eva (segundo parece, a darem depois origem aos «presépios vivos», cujos primeiros textos foram localizados naquele país). Nestas representações, a simbolizar a «Árvore do Paraíso», era escolhido o abeto para nele se colocarem as maçãs. Uma outra menção, de 1605, indica que nessa data os Alsacianos enfeitavam as suas casas com abetos ornamentados com gravuras douradas, maçãs e guloseimas. Noutra versão, o abeto terá sido escolhido devido à sua configuração (triangular), representando, com os seus três bicos, a Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.
 
Na corte de França, em 1711, tentou lançar-se, pela primeira vez, o hábito da árvore de Natal, mas a intenção não resultou. A figuração da árvore natalícia veio a consolidar-se, fazendo a sua aparição nas Tulherias, somente em 1840. Na Alemanha, a árvore de Natal (enfeitada com papel de cor em honra de Nossa Senhora) foi adoptada em 1772, costume seguido, um pouco mais tarde, pela família real de Inglaterra.
 
Em 1861 surge na América (levada pelos emigrantes alsacianos) e em 1863 aparece na antiga Checoslováquia. A partir daí, a árvore de Natal é considerada e aceite, definitivamente, como elemento decorativo alusivo à Natividade por muitos outros países, como a Suécia, a Holanda, a Noruega e a Rússia.
 
Muitas são também as suposições para a colocação das velas na árvore natalícia (símbolo de Cristo como a Luz do Mundo), uma delas associando a sua origem, uma vez mais, aos Alsacianos, que terão introduzido esta variante de enfeite de árvore no século XVII, conforme asseguram documentos datados dessa época – velas hoje representadas pelas lampadazinhas de cores.
 
Para a iluminação dos abetos no Natal (em Portugal substituídos pelos pinheiros), existe uma lenda que conta “ ter-se perdido um cavaleiro, homem bom e crente, numa grande floresta na noite de Natal. Para o ajudarem a encontrar o caminho de casa, os anjos do Natal enfeitaram, então, com estrelas o maior abeto da floresta, assim iluminando a densa escuridão, para orientar o bondoso cavaleiro”.
 
Soledade Martinho Costa
 
In “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII
Ed. Círculo de Leitores
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