Domingo, 16 de Setembro de 2007

BORDA-D'ÁGUA - A VINDIMA

 
Em Setembro as vindimas constituem uma das mais importantes actividades agrícolas do nosso país, com especial relevo na região vinícola do Douro e Alto Douro.
 
Desde o corte do cacho na vinha ao lagar, as várias fases da vindima continuam a ser efectuadas ali à semelhança de tempos antigos, com as «largadas» (pisas) acompanhadas por concertinas e cantares, enquanto os pés dos homens pisam, artesanalmente, as uvas doces, num ritual cuja herança, legada de geração em geração, representa para as gentes do Douro, um acto de cultura ancestral, onde se misturam o amor à terra, o saber do homem e a dádiva generosa da natureza.   
 
  
 
Num esforço e empenho de gerações, as montanhas de xisto apresentam-se transformadas nas vinhas de socalcos que descem pelas encostas, onde os cachos são promessa dos afamados vinhos de mesa brancos e tintos, do moscatel de Favaios e do famoso vinho do Porto – envelhecido em cascos de preciosas madeiras – conhecido e apreciado nos quatro cantos do mundo.
 
À nobreza das castas utilizadas na genuinidade dos vinhos do Douro, alia-se o clima de uma região com várias expressões mesoclimáticas, isto é, com Invernos e Verões quentes e secos.
 
A antiguidade do vinho do Porto perde-se na memória das suas gentes e na tradição que faz do ciclo do vinho em terras do Douro a mais importante tarefa da vida rural portuguesa. 
 
  
Supostamente originária da Ásia Menor, a videira foi largamente expandida pelos Gregos e Fenícios a partir da zona oriental do Mediterrâneo – mas deve-se aos Romanos a expansão do seu cultivo pelo Mundo. Na Roma e na Grécia antigas, esta época do ano era já celebrada (9 de Outubro) com as chamadas «festas rústicas» em louvor de Baco (Dioniso, Leneu, Lyceus ou Iaco), deus grego e romano do vinho.
 
   
 
Com o passar do tempo, diversas espécies começaram a surgir com origem na videira comum, algumas apenas características de certas regiões vinícolas, contando-se, entre as castas mais conhecidas, o bastardo, o mourisco-preto, a touriga, o alvarelhão, o verdelho-tinto, os boiais, a malvasia, o arinto, o fernão-pires (ou dom-fernando), o pinta-fina, o poeirinho, a dona-branca, o rabo-de-ovelha, o granuar, o carrega-burro, a carniceira, o são-paulo, etc. A inumeração das castas (que se conta por mais de um milhar) pode oferecer, todavia, algumas dúvidas, visto serem conhecidas designações regionais diferentes para castas iguais.
 
 
As principais castas de vinhos afamados, encontram-se distribuídas pelas seguintes regiões vinhateiras do nosso país: Douro; Bairrada; Dão; Estremadura; Sado; Alentejo e Madeira. 
 
 
Vegetal trepador de vida longa (com o fruto dividido em duas espécies: uva de mesa e uva para vinho), dizia-se, por épocas mais ou menos recentes, que podia durar até quatrocentos anos. Hoje os tempos são outros – e os solos também. Daí, que o cálculo actual situe a vida de uma vinha entre quarenta a cinquenta anos, por vezes nem tanto. Na ilha da Madeira afirma-se que um bacelo necessita, pelo menos, de trinta anos para dar bons cachos.
 
 
 
E porque se falou na ilha da Madeira, merecem referência os tradicionais «borracheiros» – carregadores dos «borrachos», feitos de pele de cabra, presos à cabeça com uma tira e assentes na «molhelha» (saca com dobras), de forma a aliviar o peso da carga, utilizados para transportar quer a uva na altura da vindima, quer o vinho durante a trasfega.
 
 
 
Por baixo da «molhelha», para proteger o vestuário, é costume, por vezes, os «borracheiros» usarem ainda uma outra saca (a chamada «saca de cagucha») com protecção para a cabeça: o «carucho».
 
   
 
A percorrerem em fila indiana veredas estreitas e inclinadas – os «poios» (socalcos das encostas vinhateiras) –, de difícil e mesmo arriscado acesso, os «borracheiros» têm por companhia a música dos seus próprios harmónios, ferrinhos e gaitas-de-beiços.
 
 
No que respeita às castas dos vinhos da Madeira, refiram-se a famosa malvasia (introduzida na ilha no tempo do Infante D. Henrique, originária de Cândia, ou ilha de Creta, Grécia), a tinta-verdelho, o bastardo, a sercial, o boal e a americana, entre outras.
 
 
É ainda na altura das vindimas que se mantém o costume, em localidades da Beira Baixa, de fazer-se o chamado «arrobo» ou «arrobe», saborosa compota que se obtém com o mosto da uva antes de começar a fermentar (limpo de impurezas: resíduos, peles, grainhas - «bagulho» no dizer local), a que se junta pedaços de fruta da época (peras, marmelos, maçãs), indo a cozer durante duas horas, até a mistura ficar reduzida a metade da quantidade inicial. Para esta compota poderão utilizar-se quatro litros de vinho mosto.
 
 
Também na Estremadura se confecciona na ocasião das vindimas o mesmo doce (com o nome de «arrobo» ou «uvada»), mas levando ali somente peros amarelos.
 
 
 
Além do doce, aparece o «turricado», manjar característico do tempo das  vindimas, feito com pão torrado temperado com alho e umas pedrinhas de sal e barrado com azeite ou toucinho, a acompanhar o bacalhau assado, servido aos trabalhadores vindimeiros.
 
No Ribatejo davam o nome de «barroas» às mulheres que vinham em rancho, de outros pontos do país, trabalhar nas vindimas.  
  
 
Soledade Martinho Costa
 
Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VII
Ed. Círculo de Leitores
 
publicado por sarrabal às 01:37
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2 comentários:
De margarida a 28 de Setembro de 2009 às 14:16
Olá Soledade, gostei muito do seu blog, já conhecia alguns dos seus poemas.
Gostei do artigo sobre as vindimas, eu procurava a receita para fazer arrobe ou uvada , já encontrei, mas acho que vou fazer a receita da minha sogra, que nunca conheci , mas que deixou esta receita na memória dos que comiam este delicioso doce.
saudações
avó Guida


De sarrabal a 29 de Setembro de 2009 às 20:54
Olá, Magarida! Agradeço que tenha gostado do meu texto sobre a vindima (já são dois que faço). O arrobe ou uvada que menciono, foi doce que nunca provei. Naturalmente, fez bem em preferir a receita da sua sogra...
Um abraço para si.
(Vou espreitar o seu blog!)


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