Sábado, 11 de Maio de 2013

METAMORFOSE - OU OUTRA «ALICE NO MUNDO DO ESPELHO»

 

Olhei a imagem reflectida no espelho.

 

Não me reconheci.

 

Nesta caminhada

A que a vida me obrigou

Onde

Descalça e nua

Me perdi?

 

Atravessei o cristal

E ouvi pronunciar

As sílabas que vestem o meu nome.

 

Lá estavam os campos da minha infância

As folhas dos plátanos ao alcance da minha mão

A fonte antiga com degraus de pedra

O rio ao lado dos meus passos

A murmurar a mesma límpida canção.

 

Vi rostos que deixaram de morar

Do lado de lá do espelho

Repeti nomes

Revi ruas e casas

Bebi a paz e a calma

Dei abraços

Distribui beijos

Soltei saudades amealhadas

Como um tesoiro guardado na alma.

  

Encostei o coração

Ao tronco das árvores

Corri pelos descampados

Livre e sem medos

Debrucei-me sobre as flores silvestres

E contei-lhes segredos.

 

Escutei ao longe o ladrar dos cães

Vi os lagartos na quentura das fragas

Na distância que encerra

Paisagens e memórias

Aspirei o pulsar da terra.

  

A sentir sob os pés

A frescura lisa das pedras

Atravessei regatos

Percorri atalhos

Embrenhei-me por veredas

Trilhos e matos.

 

Como da vez primeira apaixonei-me

Pela estrada que se oferecia à minha frente

Limpa de mágoas e receios

E sonhei de novo a ternura da espera

No botão a despertar no rubro da roseira.

 

Envolta na carícia desenhada pelo vento

Era eu, ali, reencontrada, inteira:

 

A escrever um poema

À procura das palavras                         

A olhar o céu

A aprender o trinado das aves

A recordar o nome dos lugares

A redescobrir sítios inesperados

A adivinhar os gestos para lá dos muros.

 

Mas a neblina veio no seu manto de cinza

E cercou o meu reduto

Escondeu do meu olhar

Os locais amados

E os sons passaram a ser escuros.

 

Aos poucos

O dia adormeceu sobre o afecto das coisas

E nasceu uma noite de há muito pressentida.

 

Tacteei uma saída

Só encontrei a frieza do espelho.

 

Voltei a atravessá-lo

Como um arrepio numa tarde de Verão.

 

Já sem estranheza

Já sem espanto

Compreendi então que nos anos vividos

Se constrói a palavra mutação.

                                                                                                       

Talvez eu seja, afinal

Igual à gota de chuva, além no mar 

A semear o pranto num lamento

Para voltar a ser outra vez nuvem 

No seu corpo de tule                                                      

Como um corcel a galopar o tempo

Embora desconheça o seu rumo no azul.

 

 

Soledade Martinho Costa

 

 

publicado por sarrabal às 22:53
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