Sexta-feira, 20 de Abril de 2012

TRADIÇÕES - ROMARIA DA SENHORA DO CÍRCULO - CONDEIXA-A-NOVA

 

O povo chama-lhe Senhora do Circo, mas o seu nome é Senhora do Círculo, derivando o nome da santa, supostamente, do muro circular de pedra que rodeia o santuário, com uma bancada corrida no sopé. As chaves da capela, situada na serra do Sicó, encontram-se na posse alternada de três aldeias próximas: Furadouro, Casmilo e Vale de Janes.

 

Junto à ermida, ao que se julga datada do século XII ou XIV (hoje descaracterizada, visto os anexos e o alpendre terem sido modernizados), pode observar-se um pequeno púlpito, em pedra, de forma cilíndrica, ao que se julga, eregido aquando da construção deste lugar de culto.

 

Lá do alto, avistam-se as serras do Buçaco e do Caramulo e a própria serra da Estrela, em dias de Sol, mostra as suas povoações mais elevadas. O olhar leva-nos ainda a distinguir toda a costa, desde Ovar a Peniche, à Figueira da Foz e aos campos do Mondego.

  

 

A seus pés, vertentes, socalcos, montes e encostas vestidos de tojo, de flores silvestres, de pedras cinzentas e milenárias. Depois, como um tapete, desde a base da serra e ao redor das aldeias, o vale fértil, a terra lavrada, amanhada, de semeio (batata, tremoço, aveia, cevada, trigo), tratada pelas mãos das gentes que olham cá de baixo o alto da serra e pedem à Senhora que as colheitas sejam fartas, que a chuva venha a tempo, ou cesse, quando desnecessária.

 

Ainda hoje, mais raramente, quando a seca se faz sentir, o povo dirige-se para a Senhora do Círculo, subindo em procissão até ao cume a entoar ladainhas de rogação, para implorar à senhora a chuva que tarda. Nessas ocasiões, não raras vezes, como dizem, «a chuva bendita acaba por vir brindar a penitência, a devoção e o pedido, antes mesmo do cortejo iniciar a descida da serra».

 

A imagem gótica da Virgem, que segura o Menino com o braço esquerdo e espalma a mão direita levantada em gesto de bênção, tem duas romarias anuais: uma no domingo seguinte ao domingo de Pascoela, a outra no Dia de Ascensão. Supõe-se, todavia, que mesmo antes da feitura da imagem, aquele lugar fosse já local de culto dos habitantes pré-romanos e romanos de Conímbriga e de outras povoações.

 

Ali acorriam, em tempos mais recuados, romeiros de todos os lugares de Coimbra, chegando alguns a pernoitar junto à capela. Mesmo os pescadores de Buarcos (Figueira da Foz), que do mar avistam a capelinha da santa, vinham em cumprimento de promessas.

  

  

Em dias de romaria, dirigiam-se à capela diversas procissões idas das aldeias de Redinha, Tapeus, Ega, Anços, Condeixas, Zambujal, Arrifana, Poço, Vale de Janes, Casmilo e Furadouro. Em 1721, consta que a elas se juntou a procissão da aldeia do Sebal, na intenção de pedir à Senhora do Círculo que livrasse as suas terras do «pulgão e da lagarta da vinha». E, conforme diz o povo desse lugar, «foi tão milagrosa a resposta que, daí em diante, sempre que necessitavam de ajuda, recorriam à santa, sendo certo que, no regresso, as terras estavam limpas de pragas».

 

No interior da ermida (segundo informação paroquial registada no ano de 1721) terá existido uma pia baptismal. As mulheres que esperavam filhos prometiam então à santa ir ali baptizá-los, «para que a Virgem fosse a sua protectora», implorando-lhe ainda «uma boa hora».

 

Por motivo dessa crença, a romaria efectuada depois da Pascoela, era conhecida outrora por Festa dos Meninos, facto que continua a fazer com que as famílias mantenham a tradição de levar consigo as crianças.

 

Actualmente, os romeiros já não fazem a íngreme subida da serra a pé, por carreiros e atalhos, como se fez até meados de 1975, levando as mulheres cestos à cabeça, para vender «os bolos da festa», ou água em cântaros de barro, «vendida ao pucarinho àqueles que tinham sede». Agora, o percurso é feito de carro e as tendas armadas ao redor da capela oferecem um pouco de tudo – embora a maioria dos romeiros não dispense a merenda levada de casa.

 

O que ficou do passado são as «rosas cucas», silvestres, que se vendem ainda hoje em raminhos «benfazejos» a quem vai à romaria. Noutros tempos, não havia quem as não trouxesse, juntamente com uma estampa da senhora, presa no chapéu (os rapazes) ou ao peito (as raparigas).

   

Moinho de vento na serra do Sicó 

 

Pelas aldeias que levam à ermida, os caminhos vestem-se, igualmente, de oliveiras, nogueiras, vinhas, milheirais, papoilas, malmequeres e espigas de trigo – a lembrar os moinhos (já poucos) que por aqueles lados insistem em moer o grão, cuja farinha as mãos experientes das mulheres transformam no saboroso pão que continua a ser cozido ali nos velhos fornos de lenha, particulares ou comunitários.

 

A romaria que se realiza após a Pascoela, além do cumprimento de promessas, comporta missa campal, seguida de procissão ao redor da capela – antigamente três voltas, agora uma só –, onde se fazem representar os estandartes das aldeias presentes. No final da tarde é rezado o terço em conjunto, a anunciar o termo da romagem.

 

Soledade Martinho Costa

   

                              

                                             Rosa Cuca

 

 Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. IV

Ed. Círculo de Leitores

 

publicado por sarrabal às 18:44
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