Sábado, 14 de Abril de 2012

DOMINGO DE PASCOELA - FESTA DE NOSSA SENHORA DOS MILAGRES - CERNACHE - COIMBRA

Foto: Jorge Barros

 

Festa de índole marcadamente religiosa, que remonta, segundo parece, ao século XIV, era promovida, primitivamente, pela Confraria de Nossa Senhora dos Milagres no domingo de Pascoela – data que se mantém ainda hoje. Por essa altura, comportava uma procissão pela vila, dois sermões e missa cantada, e um bodo de pão distribuído aos pobres.

 

Com o decorrer dos anos, o bodo acabou por transformar-se na feitura de um «pão ázimo» (que não leva fermento), costume que também se foi perdendo, acabando o ritual da festa por assentar, posteriormente, na feitura do chamado «bolo santo», «bolo da Virgem» ou «bolo da Senhora», com o qual, embora de modo diferente, se pretendeu preservar a antiga tradição.

 

No sábado anterior ao domingo de Pascoela, à noite, dispunha-se num local amplo, oito masseiras, encostadas umas às outras, a formar um rectângulo. Nelas se deitava a farinha, amassada depois («tomada», no dizer local) por dezasseis rapazes, virados de frente uns para os outros, escolhidos entre os mais robustos do lugar. À operação assistia a população local e vinda de fora, formando-se dois grupos, homens e mulheres, para entoar as «alvoradas» (cânticos populares de exaltação à Virgem).

 

A massa era estendida em sete camadas (os sete dias da semana), servindo a da última masseira para os enfeites: quatro pinhas, simbolizando o incenso; duas pombas, significando o Espírito Santo; duas palmeiras, representando a árvore do Paraíso, tendo de cada lado uma serpente bíblica, e a coroa, alusiva à realeza de Nossa Senhora.

 

O pão ázimo ficava a cozer quase a noite inteira na «casa do forno», (utilizado apenas uma vez por ano, para este fim), sendo retirado na manhã seguinte e colocado num andor enfeitado com flores e verdura. Nesse mesmo dia (domingo de Pascoela), à noite, saía uma procissão da Igreja de Nossa Senhora da Assunção (padroeira de Cernache) para ir buscar o bolo à Rua do Forno, ou Rua de Trás do Relego, percorrendo todo o lugar para regressar de novo à igreja.

 

Na segunda-feira, com a ajuda de um serrote, partia-se o pão em pedacinhos, levados para uma das padarias da terra e metidos no forno, de forma a perder qualquer humidade que tivessem ainda (para «enxugar», como se dizia).

  

                                                 

  

 Neste dia tinha lugar a procissão principal, onde desfilava a imagem de Nossa Senhora dos Milagres (em madeira), a que o povo chamava a «criada», por ser aquela que saía à rua, uma vez que existia uma outra imagem, em pedra de Ançã, que permanecia no altar por ser muito pesada.

 

Extremamente endurecidos, os pedaços de pão eram dispostos depois em pequenos açafates, colocados na igreja, para que as pessoas os levassem para casa, «não para os comer, mas com intenção de benefícios», como «a protecção do lar, das trovoadas e dos raios, das doenças, do mau-olhado e das traças». Ainda hoje «existem famílias em Cernache que guardam, religiosamente, pedaços desse pão» – feito pela última vez há perto de cinquenta anos.

                                     

No início dos anos sessenta, a tradição do pão ázimo passa a bolo doce. A partir daí, o «bolo de Nossa Senhora» começou a ser feito por encomenda em pastelaria, apresentando, embora nem sempre, os mesmos sete andares e os seus símbolos característicos. Actualmente, o bolo é cortado e distribuído pelas escolas da freguesia, destinado às crianças – não se perdendo, de todo, o sentido dos poderes benéficos que o povo lhe atribui.

 

Na aldeia de Cernache, conhecida por «Cernache das cebolas e dos alhos», devido à abundância e boa qualidade destes produtos que os seus campos produzem – dali vão as enrestiadas, principalmente, para a Feira das Cebolas ou Feira de São Bartolomeu, em Coimbra, para Soure e para Montemor –, costuma dizer-se (porque quase sempre chove na segunda-feira de Pascoela), que «a chuva é a bênção da santa».

                                                            O PÃO ÁZIMO

 

                           

 

Embora associado às festas ligadas aos trabalhos agrícolas do povo judeu – em particular à da primeira colheita da Primavera: a da cevada –, o pão ázimo (matsot) encontra-se, na sua origem, vinculado à Páscoa judaica, celebrada durante sete dias, em que na Palestina, os Judeus, na semana que se lhe seguia, somente comiam deste pão, cozido na véspera da Páscoa, em memória dos seus antepassados maiores, que haviam feito uma refeição com pão ázimo, que não teve tempo para levedar, ao saírem do Egipto, pondo fim à escravatura.

 

Com efeito, dos alimentos rituais simbólicos da tradição pascal judaica fazem parte três pães ázimos, representando as três classes do povo judeu: Cohen, Levi e Israel, ou ainda os três patriarcas: Abraão, Isaac e Jacob.

 

Também Jesus Cristo, segundo crê a Igreja Católica, se serviu de pão ázimo na Última Ceia com os Apóstolos. Daí a razão de se utilizar este pão durante a celebração da missa.

 

                                                  

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. III

Ed. Círculo de Leitores

 

publicado por sarrabal às 01:54
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