Quinta-feira, 28 de Julho de 2011

10 PERGUNTAS, 10 RESPOSTAS, 10 AMIGOS!

  

O meu amigo Rui Vasco Neto, do blog Sete Vidas como os Gatos, incluiu-me, há umas semanas atrás, no grupo de 10 pessoas, possuidoras de blogs, para responder a 10 perguntas sobre literatura. A disponibilidade de tempo tem sido pouca, mas hoje aqui vão as respostas a esta «corrente literária» – que, da minha parte, já tardava, evidentemente. No final, fica o convite a mais outros 10 bloguistas, que sei terem um afecto especial por livros. Obrigada Rui pela nomeação (já julgava que não respondia, verdade?), e aqui deixo um bem-haja a quem de tal inquérito se lembrou.

 

Sei que podia optar por escrever apenas umas linhas para responder a cada uma das perguntas deste questionário. Mas, decididamente, não o vou fazer. É tanto o prazer que me dá recordar leituras, autores e livros de há muito esquecidos, que decidi escrever, escrever, escrever, «até que a mão me doa». Lembrar o que li na infância, recordar as leituras que se seguiram, na adolescência, depois, um pouco mais tarde, outros livros – quantos deles já esquecidos, não fora esta a maneira de retornarem à minha lembrança… Depois outros ainda, pelos anos fora, até hoje. Nenhum outro inquérito me deu maior satisfação em responder. Só não sei se a opinião de quem me lê vai ser a mesma. Duvido. Penso, mesmo, que não. Desenvolvi demasiado as respostas. Tenho consciência disso. Mas não abdico do gosto que me deu fazê-lo. Peço desculpa, mas não podia desperdiçar esta oportunidade. Não resisto ao agrado de escrever sobre as minhas leituras, passadas e presentes. O que tem mais graça, é que fica quase tudo por dizer. Acreditem!

 

1 – Existe um livro que relerias várias vezes?

Ao longo dos anos já aconteceu reler alguns livros, mas não várias vezes (a não ser os da infância, esses sim!). Releria «Voltar Atrás para Quê?», de Irene Lisboa. Tocou-me profundamente. Um livro do qual se fala muito pouco. Releria também o único livro de José Duro. Só não me atrevo, porque já sei o resultado. Comoveu-me de tal maneira, que temo voltar a reler aqueles poemas tão sentidos, tão belos e tão dramáticos, de uma tristeza tão dolorosa, escritos por um jovem que sabia não lhe dar a vida tempo para escrever um segundo livro…

2 – Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Li muito recentemente o «Ensaio sobre a Cegueira», de José Saramago. A certa altura, julguei que não seria capaz de ler o livro até ao fim. Mas fui lendo. E voltava sempre a pensar que não seria capaz de continuar a leitura. Não no sentido que a pergunta deixa subjacente (livro de fraca qualidade literária, maçador, medíocre…). Isso, não. Achava o livro de Saramago fantástico, mas era eu, apenas eu, que não estava preparada para aguentar a força daquela escrita, que nos apanha desprevenidos: a formidável imaginação do autor, as situações arrepiantes e dramáticas com que nos faz olhar o nosso semelhante, ou a Humanidade, se quiserem, descritas de maneira a um tempo real e ficcionista, ao longo das páginas. E mais admirava Saramago, conforme o ia lendo. Ao mesmo tempo que o facto de o ler me incomodava, me fazia mal, admito. Certa noite jurei a mim mesma: «Acabou-se, não leio mais!». Simplesmente, senti que traía o autor e me traía a mim própria, enquanto leitora. E acabei por ler o livro até ao fim. Foi penoso, confesso. Ficou-me para sempre o retrato de uma sociedade destruída, sofredora, inimaginável, que não sendo a real (ou será?), Saramago retratou de forma exemplar na sua complexidade, numa simbiose de virtudes e defeitos, apanágio, afinal, de todo o ser humano.

3 – Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?

A Bíblia. Sou católica não praticante, mas escolheria a Bíblia, sem dúvida.

4 – Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

Não me ocorre nenhum título. Geralmente, leio o que mais me agrada – quando sou eu a escolher. Mas, sim, no meio de um mar de livros, numa livraria, por exemplo, há sempre o risco de deixar para trás um ou outro livro que gostaríamos de ler e que não trouxemos…

5 – Que livro leste cuja «cena final» jamais conseguiste esquecer?

Sempre gostei muito de livros policiais, particularmente de Agatha Cristie e de Erle Stanley Gardner. Houve uma época em que li dezenas e dezenas, todos seguidinhos…Curiosamente, há muito que não leio nenhum As prioridades começaram a ser outras. Que me lembre, «uma cena final» inesquecível, acho que só a encontrei nesse género de literatura. E mesmo inesquecíveis, a verdade é que não retive nenhuma delas para recordar aqui. Mas lembro um episódio caricato, ocorrido em cima do 25 de Abril. Fazia eu um trabalho para a Associação Portuguesa de Escritores, no tempo em que era presidente Maria Velho da Costa. Por essa altura, desloquei-me a diversas empresas, para saber se tinham ou não bibliotecas. No caso de terem, que obras possuíam, qual o interesse dos trabalhadores, se requisitavam livros, etc., etc. Pois na visita que fiz à Dyrup, na reunião com uma Comissão de Trabalhadores, foi-me dito que sim, que tinham uma biblioteca. No entanto, um dos elementos apressou-se a esclarecer: «Mas olhe que os livros policiais, foram todos queimados, não restou nem um!». Tempos de uma revolução de cravos…

6 – Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual o tipo de leitura?

Sim, tinha. E de que modo! Com 5 anos escrevi o meu primeiro poema. Não sabia ler e nem se falava em Pré-Primária. Fiz uns riscos num papel e fui mostrar a uma tia minha. A resposta foi de um bom-senso sem limites (hoje o reconheço, e a minha tia, felizmente, está viva): «Bonito. Vai escrever mais, minha linda!». Palavras que me terão levado a escrever poesia até hoje! E tinha dezenas e dezenas de livros, todos muito certinhos, muito arrumadinhos por colecções, numa grande caixa de cartão debaixo da minha cama: o meu tesoiro! Lidos e relidos, começava numa ponta e acabava na outra, vezes sem fim. Serviram de muitos empréstimos aos meninos e meninas meus amigos. Ainda conservo parte deles e são uma relíquia: Colecção Contos de Encantar (livros pequeninos, restam-me 30 e poucos); Colecção Coelhinho Branco (mais de uma dezena): Colecção Manecas (outros tantos); Colecção Pequenina (aí uns 6); Colecção Bebé (4); Colecção AzulO Caminheiro», da Condessa de Ségur). E depois os Contos de Andersen, as Fábulas de La Fontainne, de Esopo, de Perrault, por aí…O mais interessante, é que cheguei a conhecer pessoalmente e a ter o privilégio da sua amizade e convivência, com três dos autores que li na infância: Adolfo Simões Muller, José de Lemos e Noémia Setembro. Nessa altura, já eu escrevia. Cheguei a entrevistá-los para o extinto «O Jornal da Educação», do qual fui colaboradora, dirigido pelo meu saudoso e querido amigo Afonso Praça.

No dia dos meus anos, pelo Natal, fosse em que ocasião fosse, se me perguntavam «o que é que tu queres?», eu respondia: «um livro.» Certa vez, num grande café no Porto, os meus pais levaram-me a lanchar. Sei que era Inverno, porque o meu pai me disse: «Filha, vais beber um copo de chocolate quentinho!». Respondi: «Sim, mas quero um livro!» e logo a minha mãe: «Bebe o chocolate. Hoje é domingo, não há livros. Está tudo fechado.». Veio o chocolate e o meu pai levantou-se e saiu. Quando regressou trazia alguns livrinhos na mão. Até hoje, considero esse episódio (que nunca esqueci) como um verdadeiro milagre!

7 – Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

Alguns livros de poesia. Porquê? Impenetráveis, elitistas, fracos. Não os consegui ler até ao fim. Nem metade!

8 – Indica alguns dos teus livros preferidos.

Sempre li muito. Era um tormento para a minha mãe: «Soledade, apaga a luz, é muito tarde!». Lia o que era meu e o que não era. Acho que li todos os livros dos meus familiares, dos amigos e também dos vizinhos! Aí por volta dos meus 14 e até aos 18, 19 anos, penso ter lido os livros da minha rua inteira, em Alverca do Ribatejo! Sabendo da minha loucura por livros, eram as pessoas que se ofereciam para mos emprestar. Li o bom e o mau, é claro. Costumava deixar bilhetinhos na mesa-de-cabeceira do meu pai, à noite, sempre com ele a dormir (não me perguntem porquê): «Preciso de livros, beijinhos!»; «Já não tenho livros, beijinhos!». E o meu pai nunca me desiludia. No dia seguinte, à noite, quando chegava a casa, lá vinha o embrulhinho, geralmente da Bertrand ou da Livraria Portugal, com 3 ou 4 livros. Por essa altura li os nossos clássicos: Júlio Dinis, Camilo, Eça (lido e relido) Cesário, Mário de Sá Carneiro, Raul Brandão, Guerra Junqueiro, Camilo Pessanha, entre outros.

E seguiram-se uma infinidade de obras e de autores, entre portugueses e estrangeiros, entre poesia e prosa: Luísa Alcott («Oito Primos», «Boas Esposas»), Pearl Buch (Altivez»), «Diário de Anne Frank», Aquilino Ribeiro («A Via Sinuosa»), Ferreira de Castro («A Volta ao Mundo»), Almada Negreiros, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, José Régio («A Chaga do Lado»), Colette («Chéri», «O Fim de Chéri»), Jorge Amado (quase toda a obra), Emílio Zola («Naná», «Roupa Suja», «A Besta humana»), V. Blasco Ibañez («Vontade de Viver», «Flor de Maio»), Balzac («O Lírio no Vale»), Tolstoi («Os Cossacos»), Stefan Zweig («O Medo»), Bernard Shaw («Casamento Desigual»), Máximo Gorki («Voragem»), Francesco Perri («Os Emigrantes»), John Steinbec («A Leste do Paraíso», «As Vinhas da Ira»), Erneste Hemingway («As Verdes Colinas de África», «Na Outra Margem entre as Árvores»), Erich-Maria Remarque («A Centelha da Vida», «A Oeste Nada de Novo»), Irving Wallace («O Prémio»), Hans Ruesch («No Telhado do Mundo»), Ercole Patti («Um Amor em Roma»). E tantos, tantos outros. Depois, só autores portugueses (alguns meus amigos, como é natural): Florbela Espanca, Almada Negreiros, Irene Lisboa, Carlos de Oliveira, Jorge de Sena, Natália Correia, Maria Velho da Costa, Manuel da Fonseca, Luísa Dacosta, Fernando Namora, Dinis Machado, Cardoso Pires, Baptista-Bastos, Olga Gonçalves, Hélia Correia, Lídia Jorge, Manuel Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes, Torga, Saramago, Sidónio Muralha, Sophia de Mello Breyner, Rita Ferro, Vergílio Ferreira e João de Melo (com o seu «Gente Feliz com Lágrimas», um dos meus livros preferidos). Sei que muitos nomes de autores ficaram por dizer. Muitos títulos também Mas já vai longa a lista. Absolutamente desordenada – à semelhança das leituras que foram feitas.

9 – Que livros estás a ler?

Ultimamente, tenho lido alguns dos livros editados pela Contraponto, do meu querido e saudoso Luíz Pacheco: Pablo Neruda («Uma casa na Praia»), Vergílio Martinho («Relógio de Cuco», admirável!), Anton Tchekov («A Minha Mulher»), Dostoiewski («Noites Brancas»), Hélia Correia (Villa Celeste», adorei!), Maria Amália Vaz de Carvalho («Cartas a Luísa») e do próprio Luíz Pacheco («O Uivo do Coiote» e «Prazo de Validade»). Do mesmo autor, estou a acabar de ler «Isto de Estar Vivo».

10 – Indica 10 amigos para responderem a este inquérito.

Aqui ficam os nomes dos amigos e dos respectivos blogs. Para mim, foi um prazer esta peregrinação pelas recordações das minhas leituras. Mais distantes ou mais recentes. Saudações literárias para todos e respondam, please!

 

Carlos Ferreira, do Garatujando; Rita Ferro, do Acto Falhado, Isabel Fidalgo (Ibel), do Frutos de Mim e Mar; Rui Almeida do Poesia Distribuída na Rua; Francisco Moita Flores, do Projéctil; José Fanha, do Queridas Bibliotecas; Miguel Rodrigues Loureiro, do Contra-Facção; Armando Pinto, do LôngaraActividades Literárias e Memória Alvis-Anil; Fernando Cardoso, do Portal de Apoio e Amadeu Baptista do Amadeu Baptista.

 

Soledade Martinho Costa

     

publicado por sarrabal às 17:56
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4 comentários:
De Miguel Loureiro a 28 de Julho de 2011 às 20:00
Soledade
Tramou-me! Claro que vou responder, com o tempo desnecessário para investigação, mas à partida em desvantagem com o resto da equipa, toda da 1ª divisão.
Obrigado, mais pela amizade do que pelo "presente", que eu sei, que não é envenenado.
Como disse o ministro das Finanças, deseje-me sorte...


De sarrabal a 28 de Julho de 2011 às 21:53
Claro que não tramei! É só uma questão de perder (?) um pouco do seu tempo - que não deve ser muito, dado os seus posts no Contra-Facção! E desejo-lhe sorte, evidentemente... Depois, aqui para nós, há sempre alguma expectativa, não é? Da 1ª divisão? Como, se eu nem gosto de futebol?!

Abraço da Sol


De Ibel a 1 de Agosto de 2011 às 03:19
Sol,

Como se responde ao inquérito? Acha que sou digna de ser selecionada? Iremos então a isso. Já agora aproveito para lhe dizer que foi no sete vias como os gatos que a encontrei pela primeira vez, com um poema sobre Abril. O daniel também andava por lá.
Beijinho


De sarrabal a 1 de Agosto de 2011 às 17:47
Ibel, responde no seu próprio blog. Verá que vai recordar leituras há muito esquecidas. É um bom exercício... Agora não ser digna de ser seleccionada... Era o que faltava! O Daniel anda muito arredado. Até no «Espólio» se percebe uma certa ausência...

Enviei-lhe uma mensagem pelo FB. Beijinho


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