Sábado, 14 de Maio de 2011

POR MÃO PRÓPRIA - Responde: JOÃO DE MELO

 

Coloque-se a infância/ no meio de uma ilha. / Acorde-se a distância/ no olhar. / Tome-se nas mãos a neblina/ dê-se o coração/ à voz do mar.

S.M.C.

 

DESABAFO: A voz inclina-se sobre a atenção compassiva de quem ouve. Olha bem para quem falas. Nunca digas nada que os outros não possam ou não devam dizer de ti. Alternativa: abre uma pequena cova na terra, murmura aos ouvidos da terra aquilo que só ela sabe ouvir.

 

SUGESTÃO: O caminho mais curto entre a hipótese e a vontade de ir e chegar seja onde for.

 

DISPARATE: Quando um político diz: «Não, não é verdade, eu nunca disse isso» – comete-o em duplo; ele mente acerca da mentira dita, disparata sobre um disparate por si cometido e assim sucessivamente.

 

ESCÂNDALO: Em certos casos e para certas pessoas, resulta de uma simples inversão entre os vícios privados e as públicas virtudes. Noutros casos e para outras pessoas, o escândalo é uma forma natural e até um modo de vida aparentemente honesto.

 

APLAUSO: Costuma ser o reconhecimento público de um mérito; se o reconhecimento é interesseiro, o aplauso torna-se letal como um veneno doce que, em vez de animar, leva consigo a alma do aplaudido.

 

EXPECTATIVA: Menos grave do que uma doença chamada ansiedade, por sua vez menor do que a doença da angústia – sendo esta a única expectativa de quem não sabe o que espera, nem o que o desespera.

 

PREOCUPAÇÃO: Espécie de enxaqueca provocada por um estado de vigília, de vigia e algo que nos aflige.

 

EMOÇÃO: Um arco que se eleva junto de nós, um sistema de vasos comunicantes que provoca a ascensão dos nossos fluidos até ao olhar comovido por um rigoroso sentido da alma.

 

AMOR: Imagem sobre alguém ou alguma coisa que idealizamos, como forma de sublimar a oposição entre o objecto do desejo e a realidade do que ele emana.

 

SAUDADE: Momento de pausa que serve para reconhecer a existência do tempo, para evocar o que nele deixámos suspenso, e depois vir de regresso a tudo o que no tempo não se repete.

 

SONHO: Pequena utopia que, ao contrário desta, não se destina a mudar o mundo dos outros, mas sobretudo o nosso.

 

MEDO: Nada é maior em nós do que a ideia e o facto da morte. Com fé ou sem esperança, a morte é a evidência suprema do homem. Mesmo o santo, porque crê, tem esse difuso mas absoluto medo dela. A fé não depende da inteligência, mas não passa de um acto inteligente que em si disfarça aquilo que nos confunde na morte. Ela é o fim, mas não a finalidade da vida.

 

INTIMIDADE: A parte carnal dos sentidos embalados no sentimento e no segredo do outro – do outro que faz parte de nós, daquilo que em nós e nele é eterno à medida de ambos.

 

FIGURA PÚBLICA MAIS: Há uma coragem específica e uma grandeza natural na pessoa pública de sentido positivo. As pessoas não sabem nem sequer imaginam o que essa coragem lhe exige.

 

FIGURA PÚBLICA MENOS: Pode ser definida exactamente como a anterior, com excepção da responsabilidade ética e moral que a tal coragem impõe. Sentido negativo da figura pública: pior que a inutilidade, o senso ilegítimo, o desmerecimento, a injustiça que premeia a figura pública – sem que ela mesma saiba porquê, para quê.

 

CALENDÁRIO: Alguém pensou que o tempo, sem esta medida da sua própria fragmentação, seria um caos, uma desordem. O calendário prova não só que o tempo existe como prova que, sem uma ordem de medida, seria eterno, estranho e nunca possuído pelo homem.

  

Autoria e coordenação: Soledade Martinho Costa

In Notícias Magazine/1999 

 

Nota. – Eu sei, João, que vai ficar surpreendido ao deparar com este seu texto. É com muito prazer que volto a publicá-lo. Acredito que gostará de o reler. O tempo passa (os anos!) e a memória traz-nos as recordações. Lembra-se das quintas-feiras à noite na Associação Portuguesa de Escritores, quando um grupo de jovens se reunia para tentar vencer no campo da Literatura? Mulheres, apenas eu. Comigo e com os outros, o João. Depois de vários meses a caminhar para a Rua do Loreto, resolvemos desistir. Saímos da «Comissão do Autor sem Editor» na mesma noite. Alguns conseguiram realizar o seu sonho, outros, perderam-se de nós. Digo nós, porque cá estamos, com os nossos livros editados. Nesses anos, quem adivinhava que o João iria receber, um dia (além de outros cinco importantes prémios literários), o Grande Prémio do Romance e Novela da APE (atribuído à obra «Gente Feliz com Lágrimas», que continua a ser o meu livro predilecto)?

Não nos temos falado ultimamente. Mas tive conhecimento, pela Jacinta, que continua em Madrid, como conselheiro cultural na Embaixada de Portugal. Bem sabe como admiro a sua obra. A minha amizade permanece. Intacta. A minha admiração por si, também. Com carinho, guardo as cartas que me enviou para Santiago do Cacém, recorda-se? Estava a despontar o meu livro preferido…

Beijinho, João, até um destes dias!

S.M.C.

                                                              

 

publicado por sarrabal às 00:25
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