Sexta-feira, 18 de Março de 2011

SEGREDOS - «ENTÃO, PIQUENA?»

 

(À memória da Rosalina)

 

Se não nos tivesses deixado, festejarias hoje mais um aniversário. Aquele que me levaria a telefonar-te e a cantar os «parabéns a você», mal atendesses do outro lado – como fizemos durante tantos e tantos dos nossos aniversários. Lembro-me daquele ano em que não o fiz, por esquecimento (embora dias antes não me saísses do pensamento), e tu me telefonaste no dia seguinte a dizer que tinhas ficado triste e eu me desfiz em desculpas tão sinceras quanto a nossa grande, sólida, inigualável e bonita amizade.

 

Nos outros dias – falávamos tanto! – as nossas conversas começavam sempre da mesma maneira (e foste tu a iniciadora): «Então, piquena?». E eram horas de conversa. Desabafos, notícias, segredos, projectos, confissões e risos, muitos risos. Não sabíamos, então, que a doença que tanto temias tinha um encontro marcado contigo. Inadiável. E foi ela, a terrível doença que te levou. Primeiro um seio, depois o outro. E tu ias morrendo dia a dia. E eu, sem mais palavras para te animar, para te confortar, para te dizer que «a esperança é a última a morrer» – porque, no teu caso, não era verdade. Não havia esperança.

 

E inventava palavras, ditadas pelo meu coração, que não existiam no meu vocabulário. E sorria-te a dizer que estavas bonita, que te ficava bem o lenço que tapava a ausência do teu cabelo loiro. E sorria-te a dizer como seria bom o nosso encontro durante as férias no Algarve no Verão seguinte. E sorria-te a falar no teu primeiro neto, prestes a chegar. Sorri-te sempre, até ao momento em que as lágrimas, sem que tu as visses, vinham ocupar o lugar do meu sorriso. Até ao dia em que já não houve sorriso. Em que o meu coração já não precisou de inventar mais palavras.

 

Não consegui falar de ti nos aniversários que se seguiram á tua ausência. Não fui capaz. Hoje sou. A vida ensina-nos a saber esperar. A saber aguardar a hora da serenidade que nos ajuda a falar das tristezas, das desilusões, das mágoas e dos medos. Dos rostos e das vozes que não voltaremos a ver nem a ouvir. E eu tenho nos meus ouvidos a tua voz e na memória dos meus olhos o teu rosto.

 

Fazes-me falta. Tanta falta! Nos dias mais sombrios, quando o cansaço da vida preenche o vazio que nos rodeia, que bom seria pegar no telefone e falar contigo. Mas ninguém vive sempre, querida Amiga, ninguém. Por isso, talvez as nossas conversas, qualquer dia, continuem noutro lugar, onde haja telefone e eu atenda, e do outro lado escute a tua voz, e a nossa frase de tantos anos, dita por ti: «Então, piquena?»

 

Soledade Martinho Costa

 

publicado por sarrabal às 00:01
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2 comentários:
De IBEL a 26 de Março de 2011 às 15:05
Ai sol, que que fez chorar tanto! Que bela homenagem sentida e dolorosa.

Beijinho,"piquena".


De sarrabal a 29 de Março de 2011 às 00:32
De uma pessoa sensível como a Ibel não poderia esperar outra coisa - embora não fosse esse o meu propósito: fazer chorar quem lê o texto.
Sim, esta minha Amiga era muito especial. Direi mais: única. Amigas assim, não existem, Ibel, acredite.

Beijinho da Sol


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