Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

MORREU JOSÉ HERMANO SARAIVA

 

 

Quando em 1999 realizei o trabalho «Por Mão Própria», publicado semanalmente durante seis meses na revista «Notícias/Magazine», do «Diário de Notícias», o Prof. José Hermano Saraiva foi uma das figuras públicas que convidei para responder ao «inquérito». Dias depois, enviou-me a obra-prima que publico abaixo.

Já tinha publicado este mesmo texto no «Sarrabal» em 6 de Fevereiro de 2011. Volto a publicá-lo agora, como última e sentida homenagem de amizade e de pesar pelo seu falecimento.

Acompanhei, desde o início, a sua doença. Resta-me apresentar a toda a Família as minhas condolências – particularmente a sua Esposa, Dona Maria de Lurdes e a sua irmã, a escritora Maria José Saraiva.

 

Soledade Martinho Costa

 

«POR MÃO PRÓPRIA» - responde: JOSÉ HERMANO SARAIVA

 

Caminhos de vontades/ e de glória/ onde a História acontece/ se faz lenda. / As pedras/ o silêncio/ a sombra/ a luz. / As vozes que renascem/ na memória/ o Passado/ que ao Futuro nos conduz.

 

S.M.C.

 

A palavra é como a pedra. Em conjunto, faz o muro. Sozinha, é uma pedrada. A Soledade manda-me 16 palavras. Que farei com elas? À primeira vista, pérolas soltas. Precisam de fio para fazer um colar. Mas o fio, onde está? Procuro-o. Começo pela ordem mais simples, a ordem alfabética:

 

AMOR/ APLAUSO/ CALENDÁRIO/ DESABAFO/ DISPARATE/ EMOÇÃO/ ESCÂNDALO/ EXPECTATIVA/ FIGURA PÚBLICA MAIS/ FIGURA PÚBLICA MENOS/ INTIMIDADE/ MEDO/ PREOCUPAÇÃO/ SAUDADE/ SONHO/ SUGESTÃO

 

E vejo que acertei.

 

E como se a roda da lotaria andasse e os números saíssem todos certos: 1, 2, 3, 4, 5… Porque as 16 palavras alinham-se, com lógica e sentido, na sua posição certa.

 

É evidente que AMOR é a primeira palavra do Mundo, porque sem amor não havia Mundo. Talvez houvesse penhascos, serpentes, vulcões – mas isto a que nós chamamos Mundo, o triângulo humano do Eu, Tu, Ele, não podia existir. Porque foi o amor do Eu pelo Tu que fez nascer o Ele.

 

E a seguir a amor vem APLAUSO. Com sinceridade, que procuramos nós no Mundo senão a aprovação alheia, isto é, o aplauso? Aplauso significa que o Mundo do Ele – a colectividade, os outros em geral – está connosco, vive em uníssono, faz estralejar as palmas das mãos para sublinhar a identidade com a nossa voz.

 

A terceira palavra não podia deixar de ser CALENDÁRIO. O meu amor pelos outros e o amor dos outros por mim está submetido à lei inexorável do calendário.

 

Bem sei que há montes de literatura para esconder isso, a dizer que a verdadeira juventude é a do espírito, e que mesmo velho se vencem  campeonatos de palmas e de votos, etc, etc. Mas haverá alguém que se atreva a dizer que amor nada tem a ver com tempo? Ter muito tempo, ser muito velho, também tem encanto. Mas é outra coisa.

 

E aqui um DESABAFO: sinto-me fascinado pelas ilhas gregas do Dodecaneso (em grego, Dodeca significa ir). Pois durante anos tive o projecto do ir acabar numa dessas ilhas, compondo um livro de memórias e fantasia cujo título seria Dódekalenda no Dodecaneso. E, para quem não entendeu à primeira leitura, o de Calenda é a dor do tempo que passa.

 

Algum eventual leitor perante esta tortuosa leitura do Dodekalenda (a rigor: 12 lendas), faz o comentário certo: DISPARATE! Pois veja como até essa sugestão verbal estava no seu lugar exacto!

 

E certa também é a posição de EMOÇÃO na ementa dos vocábulos: está onde ninguém a espera, porque é assim que ela acontece na vida: cai de súbito sobre nós, assalta-nos no caminho, cessa tão rapidamente como começou, passa pela vida como um ciclone com um rasto de destruição e dor.

 

E de ESCÂNDALO, por vezes. Só o inusitado e imprevisto escandaliza, e não são poucas as emoções de repercussão escandalosa.

 

O meu leitor, sempre eventual, está agora numa EXPECTATIVA legítima, que eu culposamente criei: a de saber quais serão as tais emoções escandalosas. E eu não respondo a esse olhar interrogativo por respeito pela minha própria INTIMIDADE, e pelo MEDO de não me fazer compreender claramente. É uma PREOCUPAÇÃO que me acompanha sempre que falo ou escrevo: o receio de que os outros entendam coisas diferentes das que quis significar

 

No fim de todos os caminhos os sentimentos são iguais: SAUDADE do tempo passado. SONHO para o futuro, e a SUGESTÃO de novos destinos, que possam trazer às nossas vidas o paladar das diferenças.

 

Disse tudo? Não.

 

Deixei propositadamente para o fim a referência às FIGURAS PÚBLICAS MAIS e MENOS. Para dizer o que penso devo evocar um episódio de há muitas décadas.

 

Os meus filhos eram garotos pequenos e eu andava nos cabeçalhos dos jornais. A RTP fez-me mesmo o mimo de, num noticiário, me chamar homem público. Quando à noite cheguei a casa, um dos pequenos perguntou: «Pai, a Televisão chamou-lhe homem público. É verdade?» Respondi: «Não sei. Pensem vocês nisso». E o mocinho; «Mas, então, Pai, qual é a diferença entre um homem público e uma mulher pública?». Não atinei na resposta. Dê-a o leitor, se puder. Talvez seja a mesma que separa a figura pública mais da figura pública menos.

 

 Autoria e coordenação: Soledade Martinho Costa

 

In Notícias Magazine/1999

 

                                                     

 

N. -  Passei a conhecer melhor José Hermano Saraiva quando foi director (embora por pouco tempo) do jornal Diário Popular, onde colaborei, semanalmente, durante cinco anos. Anteriormente, o que nos aproximou foram os lançamentos de livros e os jantares promovidos pelas Publicações Europa-América. Troca de impressões sobre diversos assuntos ligados à Literatura, dúvidas minhas em relação a alguns trabalhos meus. Pessoalmente ou por telefone, encontrei sempre a voz solícita que me escutou, elucidou ou compreendeu. Para definir este nome grande da nossa Cultura, bastam-me três palavras: sabedoria, simplicidade, simpatia.

Um abraço grato e afectuoso, Professor!

 

S.M.C.

 

publicado por sarrabal às 16:10
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2 comentários:
De garatujando a 7 de Fevereiro de 2011 às 15:10
Para falar do Professor José Hermano Saraiva, nome grande da Cultura portuguesa, só alguém como a Soledade, também Ela vulto de relevo na intelectualidade do nosso país. No que acaba de ler-se - bem ao estilo da autora -, o Professor fica retratado em todo o mérito que lhe é sobejamente reconhecido, pelo muito que sabe, pelo muito que nos tem ensinado e pelo muito de fecundo que a sua proveta idade lhe permite continuar ainda a fazer.
Parabéns à Soledade pelo feliz “retrato” .
A minha respeitosa admiração pelo Professor , pelo tanto que tem divulgado da História da Nação Portuguesa,


De sarrabal a 7 de Fevereiro de 2011 às 16:44
Grata, como sempre, pelas suas palavras, Carlos! Sim, o Professor José Hermano Saraiva bem merece o respeito e a gratidão de todos nós.

Fico contente por ter voltado a comentar no Sarrabal. Que os motivos da ausência estejam resolvidos pelo melhor são os meus votos.

Abraço da Sol


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