Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

O SIGNIFICADO DA PALAVRA SARRABAL

 

           Vendedor do «Borda d'Água». Foto: Nuno Guerreiro

  

Sarrabal foi a palavra que escolhi, anos atrás, para designar uma colecção de pequenos livrinhos de minha autoria, ilustrados pelo pintor António Pimentel, dos quais apenas foram publicados seis, dos doze previstos. Em 2007 surgiu a ideia deste blog. Com o mesmo nome o baptizei. Acontece, que a maioria das pessoas desconhece o seu significado. Geralmente, perguntam: «O que quer dizer Sarrabal?». Eu esclareço. Outras vezes, sou eu quem faz a pergunta: «Sabe(s) o que quer dizer Sarrabal?». A resposta é sempre idêntica: «Não, não sei». Então, resolvi explicar aqui, no próprio blog, o significado do seu nome – tanto quanto possível, num breve resumo. 

 

Temos, assim, sarrabal = a folhinha, endimião, lunário, calendário, reportório, prognóstico, almanaque…  

   

Segundo notas manuscritas por Leite de Vasconcelos (linguista, filólogo, arqueólogo e etnógrafo), era publicado em Milão um Almanaco Universale del Gran Pescatore di Chiaravalle, tendo o autor adquirido em Itália um exemplar datado de 1713. Com a mesma designação, em 1905, publicava-se na província da Lombardia (Milão) dois almanaques: o Il Doppio Pescatore di Chiaravalle (que veio substituir o Antico Chiaravalle Tamburini) e o Il Nuovo Gran Pescatore di Chiaravalle. O nome Chiaravalle provinha da Abadia com o mesmo nome, situada próxima de Milão – conhecida hoje por Abadia de Claraval.

 

Tanto quanto se julga saber, o primeiro dos almanaques acima citados, terá servido de modelo para o nosso Almanach Lusitano. Nele se lê, no número datado de 1741, que: «…segue a doutrina e methodo do Sarraval  Milanez ». Leite de Vasconcelos explica ainda que a palavra sarrabal (no dialecto lombardo txaravalle (xaraval) ou xarraval (sarrabal) era utilizada em Espanha, como atesta El Gran Piscatore, Sarrabal de Milan, de 1750, publicado em Madrid, embora «não apareça como nome comum nos dicionários espanhóis». Igualmente datados de 1741, Leite de Vasconcelos encontra um Sarrabal Cidadam; um Sarrabal Ratinho; um Sarrabal Saloio e um Prognóstico e Curioso Sarrabal.

 

Considerando que a palavra sarrabal se apresenta como sinónimo de almanaque, de periodicidade anual, temos que os mesmos se definem como «publicações muito populares, práticas, de fácil e permanente consulta, contendo matérias diversificadas, úteis e de interesse geral: calendário, efemérides, festas, santos, acontecimentos, personagens, anedotas, adivinhas, provérbios, histórias e mesmo poesias».

 

No nosso país, os primeiros almanaques (almenaques) impressos aparecem no século XV. O primeiro deles parece ter sido o Almanach Perpetuum, publicado em 1496, seguindo-se, no século XVI, o Reportório dos Tempos (1518) e um outro, com título semelhante, em 1585.

 

Integrada na chamada literatura de cordel (devido às obras serem expostas suspensas de um cordel, dado o número diminuto de páginas), com conteúdos «noticiosos, estatísticos, facetos e recreativos», a publicação dos almanaques em Portugal – dos quais se destaca o Almanaque das Lembranças (1851-1932) – foi-se multiplicando, chegando a contar, entre o século XIX e o século XX, com a colaboração de grandes nomes da nossa Literatura: António Feliciano de Castilho; Eça de Queirós; Teófilo Braga; Guerra Junqueiro ou Ana de Castro Osório. Daí, que os últimos almanaques publicados entre nós, como o Almanaque Lello e o Almanaque Bertrand, além de variadíssimo conteúdo, apresentassem uma «Secção Literária, Científica, Artística e Recreativa», neles colaborando «figuras eminentes da cultura nacional».

 

Considerada, embora, «uma publicação com origens pouco definidas, o almanaque atravessou, pelo menos, seis séculos». Conforme palavras de Eça de Queirós: «O almanaque é o livro disciplinar que coloca os marcos, traça as linhas dentro das quais circula, com precisão, toda a nossa vida social».

 

Actualmente, já assim não será. Mas folheando dois ou três almanaques Borda d’Água, com o sub-título «Reportório Útil a Toda a Gente – contendo os dados astronómicos, cívicos e religiosos e muitas indicações de interesse real», encontro, além de «Notas da Redacção»: astrologia, horticultura, jardinagem, animais, santos, acontecimentos notáveis, cronologia dos Presidentes da República, mercados e feiras, crepúsculos (comprimento dos dias), orações, sugestões, quadras, provérbios, feriados, efemérides, biografias, profilaxia e prevenção de doenças, tabela das enchentes e vazantes das marés, fases da Lua, etc.

 

Desaparecidos ao longo do tempo, dos almanaques, resta-nos apenas um: o acima referido e popular Borda-d’Água, publicado pela Editorial Minerva, que continua a ser procurado e utilizado pelo seu público fiel, principalmente no meio rural, não excluindo o urbano.

 

A designação almanaque terá origem incerta. Alguns autores sustentam que provém do árabe almanakh; do latim manachus ou do baixo latim almanachus; do latim medieval alamanachus ou do baixo grego alamanakon.

Sabe-se ainda que o almanaque, entretanto introduzido no Ocidente, seria, primitivamente, «uma forma aculturada do conjunto de dados com que, nalgumas cortes orientais, era hábito os astrólogos, servindo-se de tábuas cronológicas, presentearem os soberanos no início de cada ano. A preocupação dominante seria o fornecimento de quadros cronológicos, com a indicação do movimento dos astros, sobretudo do Sol e da Lua».

 

Tabuinhas polidas eram igualmente utilizadas pelos Romanos, com a inscrição dos factos relacionados com as quatro Estações. Pelos meados do século XIX, havia mesmo, no museu ou palácio de Farnésio (Roma) um almanaque similar em mármore, em que se assinalavam os trabalhos agrícolas dos diversos meses. A utilização das tabuinhas remontará ao século VI ou VII a. C.

 

O primeiro dos almanaques redigido em português foi o Almanaque Perdurável, que, «fazendo parte de um códice da Biblioteca Nacional de Madrid, data da primeira metade do século XIV».

 

Tal o crédito destas publicações, leia-se, por graça, de Miguel do Couto Guerreiro, do seu livro Sátiras, sobre crendices e superstições populares, aludindo a hipotético leitor, o seguinte: «… quantas vezes de noite perde o sono / porque o seu Sarrabal lhe diz que em Maio / hão-de (sic) haver furacões e muito raio.»

 

Repetindo: temos a palavra sarrabal = a almanaque – transformado, hoje, nas simples agendas (já sem conteúdo), e, também, mais recentemente (porque não?), nos blogs que dão vida ao mundo virtual do século XXI.

 

Fica a pergunta: estarei errada se disser: sarrabal = à moderna palavra blogue?

 

Soledade Martinho Costa

 

                                          

 

Obras consultadas:

Almanaques ou a Sabedoria e as Tarefas do Tempo (Revista ICALP, Vol. 6, Agosto/Dezembro/1986) – Manuel Viegas Guerreiro e J. David Pinto Correia

Tradições Populares Portuguesas do Século XVIII (contidas nas poesias impressas de Miguel do Couto Guerreiro) – José Leite de Vasconcelos

 

publicado por sarrabal às 20:50
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Agosto 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. CALENDÁRIO - AGOSTO

. LEMBRAR AMÁLIA

. PARABÉNS SARRABAL - E VÃO...

. CERTEZA

. SÃO JOÃO - O SOL E AS PLA...

. PORTUGAL A ARDER - O FOGO...

. HISTORINHA - A ABELHA E O...

. ALGUÉM SE LEMBRA?

. SANTO ANTÓNIO - AS MARCHA...

. CANTO DO VENTO

. ZECA AFONSO

. 23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL...

. DEDICATÓRIA

. SEMANA SANTA - O GALO DAS...

. CELEBRAÇÕES DA QUARESMA -...

. CALENDÁRIO - MARÇO

. CARNAVAL - A MÁSCARA

. TODOS OS LUGARES SÃO TEUS

. BOLO-REI - ORIGENS

. A VIAGEM DOS TRÊS REIS MA...

.arquivos

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.links

.Contador

conter12
blogs SAPO