Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010

ABRE-LATAS - UMA SENHORA CHAMADA ETIQUETA

 

 

O episódio tem já uns bons anos, mas acontece que, de vez em quando, me acode ao pensamento. Talvez porque, volta não volta, dê de «caras» com a personagem principal dessa minha recordação. Umas vezes na televisão, outras em jornais e revistas (principalmente «cor de rosa»), ou mesmo aqui, na Net, onde tem um blog.

  

Mas o melhor será começar por dar um nome à dita personagem que me leva a escrever esta crónica. Um nome fictício, naturalmente. Por exemplo…Por exemplo…Paula! É isso: Paula B.! Perfeito. Fica bem e é chique.

  

Então, é assim:

  

Corria o ano de 1981 quando recebi um telefonema da Paula B. (que não conhecia), nessa altura a trabalhar como funcionária pública na Secretaria de Estado da Cultura. Assunto: pretendia a minha autorização para publicar dois trabalhos meus numa «colectânea de poesias portuguesas para a infância» que estava a elaborar. Louvei a atitude de pedir permissão, coisa a que os autores portugueses de literatura para crianças não estão habituados. Os editores, sobretudo aqueles que editam livros escolares, servem-se à vontade. Vendem à vontade. Enchem as algibeiras à vontade com o trabalho alheio, sem pedir licença. A história é velha, mas sem fim à vista.

  

Contou-me a Paula B. que a colectânea tinha o título «Lagarto Pintado» e que se tratava de uma Edição do I Congresso das Comunidades Portuguesas, a editar pela SEC. O objectivo do trabalho, como pode ler-se no prefácio (a obra foi-me oferecida logo após a edição), era o seguinte: «…a presente antologia (…) certamente contribuirá para manter vivos os laços que unem as comunidades portuguesas pelo Mundo espalhadas, que são a nossa língua, a nossa literatura, o modo de pensar, de ser e de crescer português.»

  

Cedi os dois poemas para os mais pequenos, conversei com a Paula B. sobre literatura para crianças, dei umas dicas e prometi convencer o Tóssan (de quem já falei aqui, recentemente, numa outra crónica) a ceder dois textos seus, inéditos, que, posteriormente, faria chegar às mãos da Paula B. Assim aconteceu. A colectânea fecha, exactamente, com dois poemas de Tóssan, assinalados como inéditos.

 

Depois deste primeiro telefonema, outros se seguiram. Ouvi-lhe algumas queixas com a devida atenção. Desejava escrever para crianças, tinha feito diversas tentativas, mas em vão. Alguém (que já não está entre nós) teria sido um obstáculo às suas intenções. Fui solidária. Senti-me o «ombro amigo» da Paula B. Conversas sobre autores, livros para a infância, projectos…

 

Devido às minhas andanças de autora, desloquei-me um dia ao então recém-formado Instituto Português do Livro (que demorou décadas a tornar-se uma realidade, para durar pouquíssimos anos, entretanto «engolido» pela Biblioteca Nacional), que funcionava no mesmo edifício da SEC, por essa época, na Av. da República. Nessa ocasião, lembrei-me: «Vou conhecer, pessoalmente, a Paula B.». Nada feito. Nesse dia a Paula B., segundo informações, não tinha ido ao serviço. Mais telefonema, menos telefonema, o tempo foi passando. Sem dar por isso, como acontece frequentemente, deixámos de ter contacto. Não porque nos esqueçamos uns dos outros, mas porque a vida é mesmo assim. Ora nos aproxima, ora nos afasta, sem haver razão que o justifique.

 

Certo dia, vejo num qualquer programa de televisão, adivinhem quem? A Paula B.! Sim, foi o seu nome que me despertou a atenção – embora nesta crónica seja fictício… Passei então a conhecer a pessoa com quem conversara várias vezes ao telefone, trocando impressões, de um modo amistoso, simpático, cordial. E fui acompanhando a sua «carreira». A Paula B. começou a ser apresentada como pessoa ligada a regras de etiqueta e boas maneiras – tema nunca antes abordado nas nossas conversas. Com o tempo, passou a autora de vários livros sobre a matéria. O que me levou a concluir: «Não enveredou pela literatura para crianças, mas encontrou uma forma pouco usual de entrar na literatura por outra porta!».

 

O meu mundo não é o da Paula B. Acontece que Rita Ferro faz a apresentação do seu livro «Os Filhos da Mãe», no «Salsa Latina», e resolvi ir ao lançamento. Ora, quem encontro eu entre os convidados? Exactamente. A Paula B.! «Aqui está uma maneira de nos conhecermos pessoalmente!». Pensei. Daí, a abordá-la, foi um passo. Exclamação de agradável surpresa, dois beijinhos da praxe, afagos de mãos, perguntas, sorrisos. Mas eis chegado o momento da apresentação do livro. Silêncio instalado. Sentei-me. A Paula B. sentou-se também, numa cadeira à minha frente. Juntinhas.

 

Terminada a sessão e depois de algumas palmas comedidas da selecta assistência, a Paula B. levanta-se e, sem olhar para mim, avança em direcção indeterminada. Ou seja, naquela direcção em que as pessoas não vão a parte alguma (embora pareça), para deambular por um espaço dito social, às voltas e reviravoltas (quase sempre de copo na mão), a dar de caras, continuadamente, com as mesmas caras. Não mereci da Paula B. nem um «Até já!», um «Adeus, Soledade!», um «Vê-mo-nos por aí!», ou mesmo um simples «Então, adeus!». Nada. Rigorosamente, nada. Como se eu, afinal, não existisse ou nunca tivesse existido – nem por uns momentos antes.

 

Fiquei perplexa. Irritada. Não merece a pena negar. «Para quem é reconhecida como especialista e autoridade nos domínios da etiqueta e publica livros sobre boas maneiras, realmente, não está mal, não senhor!». Resmunguei de mim para comigo. Foi o mínimo que pude fazer para confortar a minha auto-estima.

 

Escrito algures pela Paula B. li esta frase: «A má educação não abre portas a ninguém.» Concordo. Por isso é que a minha vingançazinha vai toda nesta crónica, tenho plena consciência disso. Às vezes é tão bom ser mazinha!

 

Li ainda num blog o seguinte: «…a dita cuja, que escreve aqueles livros todos sobre etiqueta e depois não os lê!». Além de mim, parece que mais alguém tem razões de queixa…

 

No seu próprio blog também pode ler-se nas notas biográficas: «Autora de livros de informação sobre comportamentos sociais especializados nos domínios da etiqueta…». E mais. Em «ver perfil», lá está: «Indústria: Educação». Tenho dúvidas. Principalmente, se encararmos a educação como uma indústria... 

 

Por uma ou outra vez, voltei a cruzar-me com a Paula B. Mas deixei de reconhecê-la. Isto é, voltei aos tempos em que não a conhecia pessoalmente. Sim, porque etiqueta não quer dizer boa educação. Foi esta a lição que aprendi com a Paula B., que se orgulha de ter vendido mais de 200 mil exemplares de livros onde ensina as pessoas a serem bem-educadas.

 

Soledade Martinho Costa

   

 

                                             

 

 

publicado por sarrabal às 20:38
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2 comentários:
De Armando Pinto a 8 de Outubro de 2010 às 01:21
Sim senhor. Um tipo lê e fica perpelexo... há gente mesmo esquisita, para não dizer outra coisa... Eu, por acaso, tenho-me deparado com alguma gente assim, mas nalguns casos até pior; algo que apenas tem de positivo ter-se tal possibilidade de conhecer melhor essas pessoas...
Só mais uma coisita: Com que então nome fictício...?!
Parabéns por tanto engenho de comunicação!


De sarrabal a 8 de Outubro de 2010 às 01:55
Caro Armando, não esperava um comentário colocado tão rapidamente! Por acaso vim reler o texto e dei com ele para minha surpresa.
Pois é, há gente assim. E foi assim, exactamente, que as coisas se passaram. Sabe que acabei por rir com vontade ao ler as suas duas últimas frases? Pode dizer-se, neste caso, «gato escondido com rabo de fora», não acha?

Um abraço da Sol


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