Domingo, 19 de Setembro de 2010

SEGREDOS - SARAH AFFONSO - UMA PINTORA COM O CORAÇÃO NO MINHO

 

                  Auto-Retrato de Sarah Affonso e José de Almada Negreiros

  

Naquela tarde, quando cheguei ao prédio Nº 42 da Rua de S. Filipe Nery, em Lisboa, ia feliz e, ao mesmo tempo, ansiosa. O encontro, que tinha marcado com a pintora Sarah Affonso, viúva de Almada Negreiros, fora agendado pelo telefone para esse dia. A voz que me atendera uma semana antes, um pouco débil, ainda assim mostrava alguma tenacidade e muita simpatia. E ali estava eu a subir as escadas daquele prédio antigo, bastante degradado, que rangiam a cada degrau, a mostrar o peso dos anos e dos passos.

 

Toquei à campainha do 2º andar. Pouco esperei. Uma empregada idosa, de amplo avental, abriu-me a porta com um sorriso: «É a senhora que vem para a entrevista com a dona Sarah?». Perguntou. Confirmei. De imediato, o convite para entrar: «Faça o favor. A senhora vem já!».

 

Aguardei. A sala era pequena, mas mais pequena parecia devido às rimas de papel, quase todas atadas com um cordel, amontoadas um pouco por todo o lado, principalmente, no chão. Um fechar de porta, uns passinhos leves, e Sarah Affonso entra na sala. E logo a pergunta seguida de desculpa: «É a Soledade, não é assim? Desculpe a desarrumação, mas nesta casa a papelada está por todo o lado!». E num suspiro: «Depois, sabe, já não há paciência para pôr tudo isto em ordem. Estou velha e cansada e a minha empregada está na mesma. São coisas minhas, mas a maior parte são do meu marido.»

 

Na minha frente tinha uma senhora franzina, nessa altura com 80 anos, vestida de escuro, cabelo branco, um pouco em desalinho, preso atrás num pequeno carrapito. «Venha comigo!». Convidou. Entrámos numa outra sala, muito mais ampla, mas onde a desarrumação era igual: sobre a mesa, em cima de alguns móveis, mas sobretudo no chão, rimas e mais rimas de papéis, jornais, cartolinas. Explicou: «São apontamentos. Coisas escritas, inacabadas. E esboços. Alguns são meus. Quer ver?». E Sarah mostra-me um belíssimo desenho. Informa e pergunta: «São «As Três Graças». Comecei, mas nunca terminei este trabalho. Gosta?». Que sim, respondi. Era lindo, a leveza do traço, a beleza das três figuras femininas, diáfanas, esbeltas, irreais…

 

Sentá-mo-nos ambas e dei início à entrevista. Não foi fácil. Por vezes quase num murmúrio, como quem fala consigo própria, outras vezes a encher a sala, a voz de Sarah, numa conversa sempre pausada, perdia-se entre a narração e o pensamento. Baralhavam-se os dois num atropelo constante, talvez porque os pensamentos fossem mais ágeis do que as palavras. Mas o fio condutor da narrativa, perdido muitas vezes, acabava sempre por encontrar o rumo: «A minha cabeça já confunde as coisas. Mistura-as um pouco. É a velhice, são muitos anos de vida e o cansaço, a Soledade tem de ter paciência…». Sosseguei-a: «Temos muito tempo. E não vamos fazer este trabalho só numa tarde!». E não fizemos. Num outro dia e numa outra tarde demos, então, a entrevista por concluída.

 

 Recordações da infância e da adolescência:

 

«Nasci em Lisboa, minha mãe era lisboeta, alfacinha, meu pai era minhoto. Por volta dos meus quatro anos fomos viver para o Minho e só regressámos a Lisboa tinha eu quinze anos feitos. Aliás, agradeço à mãe não termos ficado no Minho porque, realmente, lá, não havia futuro para uma rapariga pobre como eu. A vinda para Lisboa foi um presente que o meu pai deu à minha mãe: era esse o grande sonho dela. Mas não tenho boas recordações da minha infância. Tenho, sim, recordações do sítio onde passei a infância. No entanto, foi o norte que me deu as primeiras emoções, os primeiros deslumbramentos das coisas. Sinto que metade do meu sangue é de lá.»       

                                                                                                                      

                                                   «Procissão», Sarah Affonso

                                                                                                                                                                                                           

A mudança para Paris:

 

«Quando acabei o curso na Escola de Belas-Artes, fui para Paris, onde estive oito meses. Durante esse tempo, tive a sorte de privar com bons companheiros, bolseiros portugueses, mais velhos do que eu, que já estavam habituados ao ambiente. Companheiros muito leais, muito carinhosos para uma rapariga que estava sozinha num grande meio. Embora eu não me atrapalhasse nada, gostava imenso de lá estar.

Nesses oito meses frequentei uma Academia, livre, não tive professores e vi coisas que não sabia que existiam na pintura. Certos movimentos do Impressionismo para cá, eram completamente ignorados em Portugal. Aqui, dizia-se até, que em França estavam todos loucos. Acabaram mesmo com os concursos que concediam bolsas aos que seguiam pintura e que ansiavam estudar em Paris. Não imagina o avanço que eu encontrei sobre a pintura!

No ano seguinte, 1925, voltei a Paris, onde estive durante mais um ano. Nessa altura, já trabalhava e ganhava para viver. Via, sobretudo, muita pintura, que era o que mais me interessava. De resto, vivia perto de uma rua de galerias e via exposições lindíssimas. Ver só os quadros eram grandes lições de arte. Entretanto, a minha mãe adoeceu, eu vim e não voltei. Quando regressei a Portugal, senti a necessidade, a obrigação de trabalhar. Meu pai tinha-me dado o dinheiro para eu ir a Paris essas duas vezes – todas as suas economias – e eu sentia-me na obrigação de corresponder. Comecei então a expor com outros companheiros»

  

Da sua própria obra:

 

«Gosto das coisas que faço. Não por achar que tenham valor, mas porque são minhas e porque lhes acho uma certa graça. Se os outros apreciam o meu trabalho, isso não sei. Mas fico satisfeita quando dizem que gostam. Agora se tenho um grande nome, não sei se tenho…»

 

           

                              «As Meninas», Sara Affonso, Museu do Chiado, Lisboa

     

A ilustração nos livros para crianças:

  

«Acho que ilustrar livros para crianças é um trabalho interessante e apropriado para mulheres que são pintoras. Ilustrei alguns. Depois estive vários anos sem ilustrar, até que a Sophia de Mello Breyner me pediu para fazer as ilustrações de «A Menina do Mar». Penso, mesmo, que a partir desse trabalho é que eu ilustrei as melhores coisas para crianças. Como já não vou a exposições, já não conheço os pintores novos, os ilustradores. O que desejo é que os editores portugueses percebam, finalmente, que é preciso ter respeito pela pessoa que trabalha o livro infantil. Em Portugal não se tem dado a devida importância ao livro para crianças. Devo dizer-lhe também que em Portugal, as pessoas, duma maneira geral, não estão habituadas a oferecer livros às crianças. Preferem dar uma camisola ou uma capa para a chuva do que livros. Desculpam-se que as crianças os rasgam ou estragam. As pessoas acham que as crianças não precisam de livros, não precisam de ler, o que é um erro muito grande que se torna urgente corrigir»

 

 O panorama das artes plásticas em Portugal:

 

«Em Portugal temos artistas de muito valor. No entanto, acho que há – há sempre – um pintor ou dois que se destacam dos outros. Quanto às condições de trabalho, melhoraram um pouco, é certo, mas não existem apoios oficiais. A verdade é que há verbas que têm sido cortadas. Mas nunca as de cultura! E cortam-nas, infelizmente…»

 

Falar de Almada Negreiros:

 

«Fui, para meu marido, mais a companheira dona da casa do que a companheira de trabalho. Em todo o caso, fazia tudo o que podia fazer, mesmo trabalhos de ampliação. Há uma gare marítima que foi toda ampliada por mim. O que lhe posso dizer é que Almada teve uma grande influência sobre a minha pessoa. Mas já a tinha antes de ter casado comigo. Sempre tive uma grande admiração por ele, pela época dele, pelo seu movimento e dos seus companheiros. A minha arte foi muito influenciada por Almada e pelos mestres mais velhos da nossa geração.

Meu marido deu-me, principalmente, uma noção de liberdade que eu não tinha até então. Embora, já o José de Figueiredo, historiador e crítico de arte, me tivesse chamado a atenção para o facto de eu ter encontrado um assunto muito válido para a minha arte, aconselhando-me que era esse o caminho que eu devia seguir na pintura. Na altura não liguei grande importância ao seu conselho. Mais tarde, já casada com Almada, meu marido disse-me, exactamente, a mesma coisa. E, não há dúvida, que a parte de arte mais interessante que eu tenho é depois de casada.

Já se vê, que utilizava uma técnica de pintura. Talvez até mais do que ele próprio. Mas as longas conversas que eu tinha com o meu marido, influenciaram grandemente o meu trabalho. Eu dizia se gostava ou não do que ele fazia e ele fazia o mesmo em relação à minha obra.

Quanto à minha vida de casada, foi uma vida vulgar, normalíssima, com um companheiro, já se vê, especial, mas que eu admirava muito. Almada era um homem excepcionalmente inteligente. Tinha, também, o poder da palavra e quando falava, dizia autênticos monólogos. As pessoas ficavam a ouvi-lo. Ele abafava tudo. Tenho pena de não ter gravado essas coisas…Só não gostava de discutir a obra dos outros. Podia gostar ou não gostar, mas desde que se tratasse de colegas, não dizia mal fosse de quem fosse. Nunca censurava. Era capaz de não gostar de um trabalho mas não o dizia.

A minha casa vinha, também, gente muito culta e havia conversa. Sim, porque havia conversa em minha casa! Há muita gente que recebe muito, que oferece jantares e dizem apenas graçolas uns aos outros; não há um assunto que se discuta.

Por isso, para os meus filhos, a arte era uma coisa de todos os dias. Os pais, os dois, falavam de arte e havia sempre muitos livros sobre arte por todo o lado. Dizia o meu filho, aí com uns doze anos de idade e que andava nessa altura no Colégio Militar: «Dizem que eu sou mais inteligente do que os outros, mas não é verdade. O que eu tenho é um meio familiar melhor do que os outros. Falo de coisas que os meus companheiros nunca ouviram falar.»

  

Sobre crianças:

  

«Tenho duas netas. Uma gosta muito de desenhar, a outra é ainda muito pequenina. Mas é muito esperta, muito viva. A mais velha desenha com muita facilidade e gosta. Não vejo, porém, que seja revelar um talento. Ambas gostam muito de livros de histórias. É claro que quando vêm a minha casa e vêem as minhas coisas, gostam porque são da avó!

Para elas, como para todas as crianças portuguesas, agora que já se começa a olhar para a Criança com outro respeito – pelo menos, já se fala em ter respeito pela Criança –, desejo uma infância melhor do que foi a minha. Que a possam recordar ao longo da vida com muita saudade e muita ternura. Porque eu, como lhe disse, não tenho boas recordações da minha infância.»

  

Depois desta entrevista, feita em 1979 (só em parte aqui transcrita), voltei a casa de Sarah Affonso como visita, como amiga. Fi-lo sempre com um prazer renovado. Num livro de Almada Negreiros («4 - Poesia – Obras Completas»), guardo com muito carinho e saudade pequenos recortes de jornais e duas cartas que gentilmente me dirigiu.

 

Discípula de Columbano Bordalo Pinheiro, na Escola de Belas-Artes de Lisboa, possuidora de indiscutível talento, deu preferência ao Modernismo, movimento a que aderiu em Portugal no início do século XX. Ainda assim, as festas e as tradições portuguesas (cenas de procissões, arraiais, casamentos, feiras, etc.) estão bem expressas na sua pintura. Destacando-se no seu tempo, num mundo artístico e intelectual onde prevalecia a figura masculina, Sarah Affonso foi a primeira mulher a frequentar o café «A Brasileira», no Chiado, por esses anos frequentado apenas por homens.

                                         

                                          «Casamento na Aldeia», Sarah Affonso                                                               

                                                          

Participou na 2ª Bienal do Museu de Arte Moderna de S. Paulo (1953) e na Exposição de Arte Portuguesa do Naturalismo aos Nossos Dias, em Bruxelas, Paris e Madrid (67/68). A sua última exposição individual efectuou-se no Estoril-Sol, tendo a SEC adquirido um auto-retrato para a sua colecção. Tem quadros no Museu de Arte Contemporânea, no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, no Museu do Chiado, no Museu de Bragança e no Museu de Amarante, além de várias colecções particulares em Portugal e no Brasil. Recebeu o Prémio Amadeo Souza-Cardoso (1944) e foi condecorada Comendador da Ordem de Santiago de Espada, pelo então Presidente da República, António Ramalho Eanes.

  

A entrevista acima transcrita, encontra-se inserida (na íntrega) no livro «Inquérito ao Livro Infantil», composto por 40 entrevistas, trabalho que realizei em 1979, sob a égide do «Ano Internacional da Criança», publicado semanalmente no extinto Diário de Lisboa, de Janeiro a Outubro desse ano. Reunido em livro em 1980 e reeditado em 1981, com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura, Fundação Calouste Gulbenkian e Instituto Português do Livro (a funcionar, na altura, autonomamente, hoje integrado na Biblioteca Nacional, agora denominada Instituto Português do Livro e das Bibliotecas), entre outros organismos estatais e privados ligados à Cultura, a obra inclui, além das entrevistas, ilustrações, fotos e extractos literários.

 

No dia da apresentação do livro, que teve lugar no antigo Grande Auditório da Sociedade Portuguesa de Autores, na Duque de Loulé, com mais de duas centenas de convidados, incluindo os entrevistados, Sarah Affonso aparece, inesperadamente (não saía de casa há anos), pelo braço de seu filho, o arquitecto José Afonso de Almada Negreiros (falecido em 2009). Uma prolongada salva de palmas premiou a pintora, nesta que foi a sua última aparição em público.

 

Muito fica por dizer da pintora e da mulher. Da sua obra e da sua vida. Esta é a modesta homenagem que lhe presto, aqui, no Sarrabal.

 

Sarah Affonso morre no dia 14 de Dezembro de 1983, em Lisboa, com 84 anos.

   

 Soledade Marinho Costa                      

 

 

O prédio Nº42 da Rua de S. Filipe Nery, reconstruido e considerado de interesse público por decisão do Ministério da Cultura.

 

 

publicado por sarrabal às 12:37
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4 comentários:
De Armando Pinto a 19 de Setembro de 2010 às 22:59
Merecida homenagem, esta, e melhor comunicada, aqui. Sarah Affonso é um nome familiar ao ouvido e conhecimentos gerais, mas merecia uma exposição assim, através duma narrativa personalizada. Sobre sua faceta e alma minhota, eu que, sendo da zona de transição de Entre Douro e Minho, embora geograficamente do Douro Litoral, posso confirmar essas tradições patentes em sua pintura. Por exemplo, do quadro «Casamento na Aldeia», mostrando aquele arco colorido, decorado manualmente por familiares e amigos da noiva, pois que o casamento era sempre na igreja da freguesia da rapariga (arco esse, feito com paus de madeira e revestido com flores e ramos de arbustos, normalmente enrolado por buxo e murtas), dizia, sobre esse arco tradicional fiz descrição e ilustrei com fotos antigas essa tradição na monografia que escrevi sobre a minha região, no livro "Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras", publicado em 1997.

Um abraço


De sarrabal a 20 de Setembro de 2010 às 16:20
Caro Armando, sim, os arcos floridos e enfeitados com verdura, no dia do casamento, continuam a usar-se no Minho. Noivos e convidados passam sob eles. Tenho essa descrição num dos meus volumes das »Festas e Tradições Portuguesas» , com todos os pormenores dessa praxe. Sei que a si se deve. também, a divulgação destas tradições.
Sobre Sarah Affonso (nome que, na pintura, poderia ter sido ainda maior), é uma homenagem pequenina que lhe faço. Outros nomes irão seguir-se, enquanto outros já aqui foram lembrados.

O abraço amigo da Sol


De A. João Soares a 20 de Setembro de 2010 às 06:39
Cara Soledade Marinho Costa,

Obrigado pela sua´sua informação acerca deste post. Uma bela homenagem de muito interesse, poucos dias antes do primeiro aniversário do falecimento do filho José Afonso de Almada Negreiros, a quem, na data, fiz uma pequena homenagem fotográfica em Arquitecto Almada Negreiros (http://thirthyfour.blogspot.com/search?q=Arquitecto+Almada+Negreiros).Ali deixei um alerta para este seu belo post com dados biográficos de uma grande senhora

Gosto do post e do blog que virei visitar com mais vagar.

Beijos
João (http://domirante.blogspot.com/)


De sarrabal a 20 de Setembro de 2010 às 15:22
João, foi essa homenagem fotográfica feita ao arquitecto José de Almada Negreiros, filho de Sarah, que encontrei casualmente, quando descobri o seu blog. A Net tem destas coisas e ainda bem. Nestes últimos anos perdi o rasto à Maria José de Almada Negreiros. Acho que mudou de residência - naturalmente, depois de enviuvar. Costumava estar presente nos lançamentos dos meus livros. Por e-mail, talvez me possa ajudar a localizá-la.
Grata pelas suas palavras. Sarah Affonso bem merece esta pequena homenagem. Há nomes que convém lembrar. Neste meu blog tenho feito e vou continuar a fazer por isso. Outros nomes vão continuar a seguir-se. Por coincidência, o post quase saía no dia do primeiro aniversário da morte do filho: 25 de Setembro.

Abraço amigo da Sol


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