Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010

COISAS DA VELHA DO ARCO - UM COVEIRO DÁ SEMPRE JEITO!

 

 

Encontrava-me a passar uns tempos na aldeia do Bom Velho de Cima, quando entrei no Centro de Saúde de Condeixa na intenção de falar com a médica Idalina Rodrigues, directora do Centro e, também, por essa altura, Vereadora do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova.

 

Durante o seu mandato, fizeram-se aquisições de livros de autores portugueses, destinados às bibliotecas das escolas do Ensino Básico, participei num Encontro com professores na Casa Museu Fernando Namora e realizei algumas sessões de animação de leitura nas escolas da vila. Uma delas, inusitadamente, efectuada na lindíssima Pousada de Santa Cristina, antigo palácio Sotto Mayor. Outra iniciativa em que trabalhámos juntas, diz respeito ao Primeiro Encontro de Poesia de Condeixa (em homenagem a Fernando Namora), com a duração de quatro dias, que contou com a participação de mais de uma centena de autores. Considerado um sucesso, o Encontro, para além das muitas comunicações apresentadas, incluiu passeios turísticos pelas redondezas (principalmente a Conímbriga), teatro, gastronomia, exposições de pintura, um concerto na Pousada de Santa Cristina e saraus de poesia.

 

Ao entrar no Centro de Saúde, informei a funcionária de que não pretendia interromper o andamento das consultas. Que não tinha pressa. Podia esperar. A Dra. Idalina que me atendesse quando tivesse oportunidade. Decidi aguardar na sala de espera.

 

Cá fora, pareceu-me ter ouvido o choro de uma criança. Não me enganei. Na sala várias pessoas aguardavam a vez de serem atendidas. Sentado numa das cadeiras, um rapazinho de quatro a cinco anos, lavado em lágrimas. Misturado com o choro, um pedido dirigido à mãe, sentada a seu lado: «Eu não quero levar um «pica», mãe! Não quero! Ouviste, mãe?». E a resposta: «Cala-te, Nuno!».

 

Calcitas de ganga, as mangas da camisa com vestígios de quem a elas se assoou e limpou as lágrimas, a choradeira continuava, com o pedido repetido em lengalenga: «Mãe, eu não quero levar um «pica»! Tás a ouvir, mãe?».

  

De vez em quando levantava os olhos para a mãe, numa súplica, depois olhava os circunstantes, para logo fixar o olhar na ponta dos ténis, que já teriam tido cor, mas agora sem ela. E de novo a cantilena soluçada: «Eu não quero levar um «pica»!». E outra vez a mãe, num aviso, parecendo acordar de um sono de olhos abertos: «Tá calado, Nuno, que já tou farta de te ouvir!». De nada serviu o aviso. As lágrimas e o pedido continuavam.

 

Aos pés da mãe os sacos com «avios». Isto é, as compras, principalmente de mercearia, feitas às terças e sextas-feiras, dias de mercado e feira em Condeixa. Nesses dias não apenas as pessoas da vila, mas outras, vindas de lugarejos ou de aldeias ao redor, fazem as «mercas» e aproveitam para assistir à missa, ir ao Centro de Saúde e tratar de demais assuntos. Depois, a maioria lá segue, na «carreira».

 

Ainda há poucos anos, com o mercado e a feira situados numa das ruas principais da vila, era diferente. A emprestar-lhe toda a azáfama e colorido, como se de um dia de festa se tratasse. A rua, a praça e a feira eram locais de encontro, de conversa, de ditos soltos, de beijos e abraços, de novidades contadas e recontadas, de encontrões com pedidos de desculpa, num fervilhar de gente ataviada de sacos onde as «mercas» espreitavam, indiscretas. As peixeiras com o «rico» peixe vindo da Nazaré, de São Martinho e, sobretudo, da Figueira da Foz. O silêncio dos coelhos ao despique com o cacarejar dos frangos e das galinhas. Muita bugiganga, muita loiça de barro, muita roupa, muitos sapatos, muitos ciganos entregues ao seu negócio.

 

Mas o mercado e a feira mudaram de local para uma das partes novas de Condeixa, um pouco distante para quem tem de se deslocar a pé. Valem os atrelados dos tractores e os carrinhos de mão com rodas de pneus.

 

Era evidente que a mãe do menino tinha ido às «mercas». Pacientes tinham sido atendidos, outros haviam chegado e a cantilena prosseguia no mesmo ritmo. «Nem sempre os adultos (ou as mães) são coerentes, de modo a acalmarem os mais pequenos dos seus medos, dos seus receios», pensava eu. «De nada custava sossegar o garoto», continuava eu no meu raciocínio. Num dado momento em que o meu olhar se cruzou com o da criança, pisquei-lhe o olho e abanei a cabeça num aceno negativo. Esta espécie de mensagem telepática teve efeitos negativos: o choro quase redobrou. Julgo que não tenha sido por minha culpa, mas acontece que nesse momento a paciência da mãe chegou ao fim. Levanta-se da cadeira, coloca as mãos sobre os ombros do filho e afirma, sem margem para dúvidas: «Eu avisei-te, Nuno! Se continuares a chorar, chamo imediatamente o coveiro e enterro-te já aqui!». Resultado? As lágrimas pela carita do garoto deixaram de correr. Limpou os olhos e assoou o nariz às mangas da camisita, recostou-se melhor na cadeira e calou-se. Não me perguntem como é que uma criança tão pequena sabia o que era um coveiro. Para mim, será sempre um mistério.

 

Foi nessa altura que me chamaram. A Dra. Idalina estava à minha espera. Por um triz, ia perdendo a oportunidade de aprender com aquela mãe como se põe termo ao choro de um filho que tem medo de levar um «pica»!

  

Soledade Martinho Costa

 

 

                          

 

  

publicado por sarrabal às 13:20
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2 comentários:
De Armando Pinto a 9 de Setembro de 2010 às 15:06
Viva, D. Sol
Gostei muito desta crónica, a ponto de a ter relido de imediato à primeira leitura. Vendo que, afinal, a senhora também tem "sua" terrinha, mesmo que seja de afinidade, ao que penso; e por aqui dar bem mostra de conhecer no seu íntimo.
Como vê continuo a visitar este seu cantinho. Não tenho comentado para não me repetir, mas passo sempre aqui.
Um abraço.
Armando Pinto
//longara.blogspot.com/


De sarrabal a 10 de Setembro de 2010 às 20:40
Caro Armando Pinto, ainda bem que continua a visitar o Sarrabal - e que esta crónica lhe tenha agradado. São episódios que presencio e me dão ensejo a escrever este género de textos. Pena era, quanto a mim, ficarem ignorados.
Lá continuo, também a visitar a sua «terrinha». A minha é emprestada, mas, sim, conheço-a bem.
Como vai o seu netinho?

Abraço da Sol


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