Quarta-feira, 21 de Julho de 2010

ABRE-LATAS - MISSA POR AMÁLIA - PALMAS E PALMADAS

  

Assisti ontem à missa evocativa dos 90 anos de Amália Rodrigues, celebrada na Basílica da Estrela. No post anterior dei conhecimento da iniciativa.

  

A Basílica estava repleta, muita gente de pé. Caras conhecidas do mundo do teatro (não muitas), algumas das nossas telenovelas. Entre cantoras e fadistas, apenas três.

  

Não foi das celebrações que mais me sensibilizaram. A acústica não é das melhores, o órgão não me pareceu suficientemente afinado e estava um calor pouco suportável.

 

Isto não teria grande significado para mim, não fora o facto do silêncio instalado após a actuação (mais do que uma) do Coro do Senhor dos Aflitos de Lousada, dirigido pelo maestro Domingos Moreira, dos cantores Juan Santamaria e Joaquim Carneiro (que interpretou um tema dedicado a Nossa Senhora do Carmo, santa da devoção de Amália), e do músico Rão Kyao, acompanhados por Leonor Leitão Cadete (órgão), Carlos Gonçalves (guitarra) e Lelo Nogueira (viola). Nem uma palma! Só o silêncio incómodo, constrangido, diria, comprometido, percorreu a Basílica. Não gostei. As vozes eram excelentes e os cânticos muito belos também.

 

Mas eis chegada a actuação, no final, de Maria Bethânia. Alguns momentos, apenas. E logo irrompe uma salva de palmas a ecoar pelo templo, vibrante, prolongada, elogiosa. A disparidade de procedimento foi notória, injusta e criticada por muitos dos presentes.

 

Dizer o quê? Que continuamos na senda do tal servilismo luso? Na tal lusa e pacóvia mania de que os outros (neste caso, artistas) são sempre melhores do que os nossos? Provavelmente. Daí, a «correria», num atropelo, numa ânsia, atrás de Bethânia, quando esta se dirigiu à sacristia. Autógrafos? Não sei, não vi, não estava lá. Talvez fosse apenas pelo prazer de estar junto da diva que, segundo ouvi, é pessoa demasiado exigente, como estrela internacional que é.

 

Não lhe retiro o mérito, mas Maria Bethânia não veio propositadamente do Brasil para prestar homenagem a Amália. Está em Portugal para actuar e lançar um DVD em Cascais (dia 22) e no Coliseu do Porto (dia 24). Aproveitou-se a ocasião e fizeram-lhe o convite para estar na Basílica da Estrela. Foi simpática em aceitar.

 

Já Juan Santamaria veio directamente de Espanha, Joaquim Carneiro do Alentejo e do Porto o juvenil  Coro de Lousada.

 

Estive presente noutras homenagens prestadas a Amália, Quer em Lisboa (Panteão Nacional, em 2006), quer no Algarve (Lagoa em 2007). Mas uma delas ficou gravada no meu coração: a da evocação da Artista em 2002, com missa celebrada pelo padre Victor Melícias, na belíssima capela das Irmãzinhas dos Pobres, em Campo de Ourique. O xaile de Amália a cobrir alguns dos degraus de acesso ao altar, a guitarra a seu lado. Um fascínio. Um sortilégio. Sentia-se, ali, a presença de Amália.

 

Lá estiveram Tito Lívio (leitura de poemas da autoria de Amália) e os cantores Juan Santamaria e António Simôa (infelizmente já falecido). A assistência enchia a capela e as palmas irrompiam, atribuídas com admiração, após cada uma das actuações.

 

Não me levem a mal, mas ainda estou bem lembrada da ofensa feita aos portugueses pela brasileira Maitê Proença – embora algumas pessoas tenham pretendido que a ofensa não passava de uma «simples brincadeira sem importância». Para mim, não foi. Foi desrespeito, ingratidão e ignorância. Maitê não é culta. É uma mulher que não aceita a idade. Por isso, gosta de parecer uma menina malcriada.

 

E porque se falou de missas e se visitou os santos, não resisto a deixar este desabafo, com as minhas desculpas a João de Deus: «Mas à Bethânea, Senhor/porquê a salva de palmas/tê-las-à merecido assim?»

 

Soledade Martinho Costa

  

                               

 

 

publicado por sarrabal às 23:40
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3 comentários:
De Domingos Moreira a 22 de Julho de 2010 às 10:08
Apreciei a leitura do seu "post" sobre a missa da Amália.
Antes de mais uma correcção, que gostaria de ver corrigida: o maestro Coro Senhor dos Aflitos, de Lousada, chama-se Domingos Moreira, e não o nome que escreveu, que desconheço quem seja.
Obrigado pela lisonjeira nota que dá, ao chamar ao Coro "juvenil". É mais uma mistura de idades do que propriamente "juvenil"... Tem muita gente jovem é certo, mas também tem gente bem madura...
Verifiquei que tem ouvido: O belíssimo orgão está mal tratado e, além do mais, está cerca de meio tom abaixo dos restantes instrumentos, o que me provocou um nervoso "miudinho". Contava com tudo, menos com um orgão desafinado... Parabéns, portanto, pela sua perspicácia auditiva.
Outras notas: Apesar de ser uma homenagem à saudosa Amália, efectivamente a Bethânia acabou sendo o centro das atenções. Quando a RTP me entrevistou, passou-me na mente falar nisso, mas preferi não estragar a festa...
Quanto a esta senhora: como artista internacional que é, provavelmente a sua pose é adequada a esse estatuto. Contudo, verifiquei da parte dela uma simpatia que registei com agrado. Não sei se a simpatia com que me brindou se deveu à surpresa que lhe reservamos para o fim... Provavelmente.
Também registei que sou a bethânia teve palmas. No meu entender, ninguém deveria ter palmas, só Amália, que também foi ouvida, minutos antes da missa começar. Levo, contudo, as palmas para Bethânia, à conta de receber bem. Só isso. Não é preciso e é estéril falar em complexos que não serão muitos justos. A bem dizer, as palmas finais premeiam todos os interveniente, nomeadamente o meu próprio Coro, bem como os restantes artistas anunciados, e ainda, permita-me anotar, o meu jovem organista de 15 anos, André Morais, que com a sua mestria e adaptando-se a um difícil orgão tocou, com grande mestria, uma belíssima peça de Jean Michel Jarre à entrada, que pode ser ouvida como música de fundos nas entrevistas das televisões e jornais (nomeadamente o Correio da Manhã).
de qualquer modo obrigado por ter estado presente, bem como todos os que encheram a Basílica da Estrela. A memória de Amália mereceu isto e merece ainda muito mais!
Domingos Moreira
Coro Senhor dos Aflitos
Lousada


De sarrabal a 22 de Julho de 2010 às 14:51


Em primeiro lugar, irei corrigir o seu nome. O erro não é meu. Na primeira informação que recebi por e-mail sobre a iniciativa da missa por Amália, podia ler-se: «Maestro: Pedro Alem». No próprio folheto distribuído na Basílica, reparou, certamente, que está, igualmente, Pedro Alem e não Domingos Moreira.
Acabámos, afinal, por trocar algumas palavras, quando eu conversava com o Juan Santamaria, meu amigo de há anos. Assim, caro Domingos Moreira, o facto de ter chamado «juvenil» ao seu Coro de Lousada, é porque não vi, fazendo parte dele, «gente bem madura», como diz. Deduzo, portanto, que o Coro seja composto por mais elementos, que não apenas os jovens presentes na Basílica e que muito apreciei.
A «pose» da Bethânia, «provavelmente associada ao seu estatuto de artista internacional» (palavras suas), só a ela dirá respeito. Sobre a «surpresa» a que se refere, nada sei. No meu texto refiro, sim, ter sido «simpática ao aceitar o convite para estar presente na missa». A minha crítica não vai para Maria Bethânia. Vai para as pessoas presentes que não souberam aplaudir os artistas portugueses que deram o seu melhor.
Concordo quando afirma «que as palmas também deveriam ter sido para a voz de Amália», que se fez ouvir na Basílica, e que «não foi a Artista principal». Mas discordo quando afirma que «as palmas foram a forma de receber bem». Receber bem não quer dizer servilismo, como foi o caso. O facto de entender que «as palmas finais premiaram todos os artistas», leva-me a deduzir que está a tentar amenizar uma falta, uma incorrecção e uma injustiça. Parece-me, aliás, que os primeiros aplausos terão partido da iniciativa de alguns brasileiros ali presentes, logo secundados pela restante assistência. Li, creio que no Diário de Notícias: «Maria Bethânia foi a única artista a ser aplaudida»! Porquê? Porque os outros artistas não o mereceram? Chama-se a isto bajulação e falta de rigor jornalístico.
Não cheguei a tempo de ouvir o seu «jovem organista de 15 anos André Morais», e tenho pena. Mas não me agradeça o facto de ter estado presente na Basílica da Estrela. Fui amiga e visita da casa de Amália. Tinha o dever de assistir à missa por sua intenção. Se procurar no arquivo do meu blog irá encontrar muitos mais textos a ela dedicados. O próximo estará aqui no dia 23. Mas agradeço ter reparado na «minha perspicácia auditiva, maestro!

Cordialmente
Soledade Martinho Costa


De sarrabal a 22 de Julho de 2010 às 16:45

A frase «Maria Bethânea foi a única artista a ser aplaudida», foi lida por mim no Correio da Manhã e não no Diário de Notícias. Aqui fica a correcção com as minhas desculpas ao Diário de Notícias e aos meus leitores. Já agora, fica também o nome da jornalista que assina o artigo: Ana Maria Ribeiro.


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