Domingo, 27 de Junho de 2010

TRADIÇÕES - CHAROLAS DE SÃO PEDRO

                                                Charola de nabos

 

São Pedro, o primeiro dos apóstolos, é celebrado na Ribeira Brava e noutras localidades da Madeira com grandes festejos, a levar até ali milhares de pessoas de toda a ilha.

 

Da parte religiosa salienta-se a novena, a missa solene de vigília de 28 para 29 e a missa em honra de São Pedro, no dia 29, seguida de procissão. As festividades incluem ainda a actuação de grupos de folclore e musicais, a banda filarmónica, fogo-de-artifício, marchas populares e a tradicional e monumental «charola de São Pedro» levada em romagem à Fajã da Ribeira.

        

Trata-se de uma armação em arame ou vime, que pode ser revestida («arrumada», no dizer local) com cachos de banana, cerejas, maçãs, laranjas, peras, peros, abacates, mangas, limões, abóboras, tomate, pimentos, nabos, cenouras, maçarocas, batatas, cebolas, etc., numa mostra da fertilidade e riqueza da terra. Os produtos, que se oferecem às igrejas em altura de festas ou peregrinações, doados pelo povo, fazem parte da tradição rural da ilha, sendo leiloados depois, com os lucros a reverter para a igreja e causas sociais. Devido ao seu peso, uma «charola» pode chegar a atingir os setecentos quilos, ou mais, facto que obriga a ser transportada por alguns homens.

          

                                  Charola do Loreto, Arco da Calheta.

 

A tradicional e belíssima «charola» madeirense apresenta, por vezes, uma armação com a forma de esfera ou de pinha, feita de varas verdes amarradas entre si. De vários tamanhos, contém no bojo palha e na base uma grande abóbora a dar pelo nome de «tenerifa» (espécie introduzida na ilha vinda de Tenerife)), de modo a equilibrar a carga, constituída, como se disse, por frutos e legumes habilmente dispostos a cobrirem a armação, numa artística profusão de elementos, de perfumes e de cores.

                              

                           Pequena charola de cerejas, Jardim da Serra

  

Antigamente, levavam ovos, feijão seco, sacos de pano com cereais (milho e trigo) e carne de porco salgada. Em meados do século XX, o costume de enfeitar a «charola» com flores, foi proibido pelas autoridades religiosas, uma vez que, desse modo, acabava por conter menor quantidade de produtos alimentares, tornando-se o leilão menos lucrativo…Muito tradicionais na Madeira são também as «barcas», mais recuadamente chamadas «vapores», vistosamente enfeitadas, carregadas de géneros e outras ofertas que depois são leiloados.

 

No dia 30, a manter a tradição, os pescadores de Câmara de Lobos deslocam-se à Ribeira Brava numa procissão pelo mar, com os barcos festivamente ornamentados, para pagarem as suas promessas a São Pedro, padroeiro dos pescadores. As celebrações, incluíam, outrora, na procissão os «cavaleiros vestidos à turca»  (quatro homens a cavalo, cada qual com uma bandeira hasteada); a «dança das carapuças» (executada por dez ou doze homens com trajos estranhos e uma carapuça com fitas coloridas que lhes caíam pelas costas); o «enfeite da barquinha» (ornamentada com flores, ovos, pão de açúcar, frutos, vinho, doces, etc., géneros em seguida leiloados) e a «rede» (levada por doze pescadores vestidos como os apóstolos). Destas tradições mantém-se a da «barquinha» que segue na procissão efectuada no dia 29.

 

No Algarve dava-se o nome de «charola» a uma espécie de nicho feito com tiras de madeira ou de canas recurvadas, com a imagem de São João no interior, feita de massa de pão doce cozida no forno, enfeitada com fitas de cores, flores, bolos, guloseimas e uma bandeirola no cimo. Daí, chamarem a S. João o «santo da charola». A «charola» era colocada no cimo de um mastro espetado no chão, ao redor do qual se dançava. Mandava a tradição, que finda a festa, quando se procedia à descida do mastro, se comesse o santo, os bolos e as restantes guloseimas.

 

O termo «charola», devido ao formato arredondado, quer da «charola» da Madeira, quer da «charola» algarvia, terá origem na dança de roda mais popular da Europa entre o século XII e o século XVII, primitivamente uma dança religiosa, à qual era dado o mesmo nome: «charola».

 

Ainda no Algarve, a mesma palavra aplica-se ainda aos «charoleiros», acompanhados por ferrinhos, pandeireta e acordeão, que entoam os cânticos festivos de Ano Novo e Dia de Reis.

 

                                         Charola da Luz, Algarve

 

 

                                       Charola de Estoi, Algarve.

 

Também na Ribeira Seca e Ribeira Grande (São Miguel), o santo é celebrado com as Cavalhadas de São Pedro, festividade única no arquipélago, considerada uma das tradições mais significativas dos Açores.

 

  Os tradicionais chapés usados pelos participantes das «Cavalhadas de São Pedro».

 

Após ter sido concedida a paz à Igreja, ergueram-se um pouco por toda a parte sumptuosíssimos templos em honra do «chaveiro   do  céu», o mais famoso dos quais é a Basílica de São Pedro, em Roma, construída no reinado do imperador Constantino I, e restaurada ao longo de mais de cem anos, desde o início do século XVI.

 

Soledade Martinho Costa

                                               

                Brasão do Papado e do Vaticano, com as Chaves do Céu cruzadas

 

              

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. V

Ed.Círculo de Leitores

 

publicado por sarrabal às 13:08
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11 comentários:
De Armando Pinto a 27 de Junho de 2010 às 14:04
Curiosos estes costumes, na diversidade das particularidades etnográficas. Também em Felgueiras há um desfile interessante, o Cortejo das Flores, como dou nota em recente post no m/
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Curiosos estes costumes, na diversidade das particularidades etnográficas. Também em Felgueiras há um desfile interessante, o Cortejo das Flores, como dou nota em recente post no m/ <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>http</A> :/ www.longara.blogspot.com / <BR><BR>Tornando-se assim, também, enriquecedor este meio de partilha de mais conhecimentos sobre a memória tradicional do nosso povo, de Portugal. <BR><BR>Um abraço <BR>Armando Pinto


De sarrabal a 1 de Julho de 2010 às 14:59
Armando Pinto, sim, os nossos posts, similares no que respeita às nossas tradições, são, efectivamente, uma partilha - entre pessoas que se interessam por estes assuntos. Embora, quem os ignore, vá tendo deles, também, algum conhecimento.

Continue com o seu trabalho, que leio com interesse ( muito mais do que os posts dedicados ao desporto -coisa absolutamente natural, não acha'? (Claro que não acha, mas eu entendo...)

Saudações da Sol


De IBEL a 4 de Julho de 2010 às 15:31
É muito agradável a sua escrita sobre as tradições. e há muita gente a lê-la. Estes seus textos , bem como as imagens, serviram a alunos para trabalhos da área de projecto.Houve muita pesquisa na net sobre Soledade Martinho Costa.
Gosto muito destas tradições açorianas porque estive lá no ano passado e sente-se que há divino em cada pedacinho de paisagem.
Beijinho, SOL.


De sarrabal a 18 de Julho de 2010 às 02:58
Ibel, é tão bom saber que o nosso trabalho serviu, principalmente, à faixa estudantil! Eu já tinha conhecimento dessa utilização por parte de professores e alunos. As obras de etnografia existentes (poucas) não se encontravam actualizadas e não havia nada comparável ao trabalho que foi realizado. Dai, o seu aproveitamento. Quando me diz que as »Festas e Tradições Portuguesas» serviu a alunos da área de projecto, fico muito feliz. É para isso que servem as obras de quem escreve livros: encontrar destinatários que utilizem , consoante os casos, as obras que os respectivos autores conceberam - por vezes, com tanto, tanto trabalho...

Beijinho da Sol


De sarrabal a 18 de Julho de 2010 às 03:06
Ibel, queria dizer «serviram a alunos» e não «serviu a alunos»
Peço as minhas desculpas, mas acontece...

Outro beijinho da Sol

N. Vou enviar-lhe um e-mail, talvez amanhã. Há muito para dizer. Desculpe o meu silêncio. Depois «falamos»!


De IBEL a 4 de Julho de 2010 às 15:35
Eu queria referir-me à Madeira, onde também lá estive, e disse Açores, porque achei a beleza paisagística mais bonita do que a da Madeira. A Lagoa das Setes Cidades emudeceu-me de comoção e ainda verti umá lagrimazinha. Ali há DEUS!!!!


De sarrabal a 18 de Julho de 2010 às 02:39
Açores e Madeira são pedaços de céu! Tenho pena de não ter colocado neste post outras «charolas» bem mais ilustrativas deste magnífico trabalho, que sai das mãos da população como dádiva às igrejas e aos mais necessitados. Não me foi possível colocá-las, mas são autênticas obras de arte, de uma beleza impressionante pelo trabalho de quem as executa e pela minúcia e diversidade dos elementos de que se compõem.

Beijinho da Sol


De Anónimo a 2 de Maio de 2011 às 23:24
A foto da Procissão de S. Pedro utilizada no seu Blog, foi tirada por mim e está a utilizá-la indevidamente, deveria ter pedido autorização para tal e respeitar os créditos.
Como sabe existe a alei que defende os direitos de autor.


De Lídia Ramalho a 2 de Maio de 2011 às 23:28
A foto da Procissão de S. Pedro utilizada no seu Blog, foi tirada por mim e está a utilizá-la indevidamente, deveria ter pedido autorização para tal e respeitar os créditos.
Como sabe existe a alei que defende os direitos de autor.
Lídia Ramalho
fotosclube2008@gmail.com
Pode verificar aqui
http://www.flickr.com/photos/11055123@N07/2625664213/in/photostream


De sarrabal a 6 de Maio de 2011 às 22:57
Lídia Ramalho:

Só hoje tomei conhecimento do seu mail. Peço-lhe desculpa, mas retirei a foto do Google e, naturalmente, tomei-a como foto pública. Não tenho o hábito de infrigir a lei de direito de autor. Mas a foto encontra-se noutros blogs igualmente sem identificação do respectivo autor. Julguei que a divulgação dada no meu blog às festividades em louvor de S. Pedro no Montijo fosse suficiente. Não foi. Procedi à anulação do texto e da foto na formatação do blog. Reparei, no entanto, que se mantém activa no Sarrabal. Tomarei as devidas providências já amanhã.

Com os meus cumprimentos

Soledade Martinho Costa


De sarrabal a 6 de Maio de 2011 às 23:42
Lídia Ramalho:

O texto e a foto foram anulados no meu blog.

Saudações

Soledade Martinho costa


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