Quarta-feira, 9 de Junho de 2010

SANTO ANTÓNIO - PADROEIRO DE LISBOA

                       

                         Santo António, Igreja de São Nicolau, Lisboa

 

Proclamado pelo papa Pio XI, em 1934, patrono da cidade de Lisboa, Santo António, celebrado a 13 de Junho, é considerado um santo padroeiro contra todos os males.

 

Nascido em Lisboa, junto da Sé, ou Igreja de Santa Maria Maior, no seio de uma família de pequena nobreza, no ano de 1189, 1191, 1192 ou 1195, supostamente no dia 15 de Agosto, de seu nome Fernando de Bulhões, Santo António de Lisboa, ou Santo António de Pádua, por ter vivido e pregado nesta cidade de Itália, terá iniciado a sua instrução na escola capitular que funcionava nas dependências da catedral.

 

Aos quinze anos entra para o Mosteiro de São Vicente de Fora, dos frades Agostinhos, transitando depois para o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde se entregou, fervorosamente, ao estudo e à mística. Ordenado padre aos vinte e cinco anos, troca o hábito branco dos Agostinhos pelo castanho dos Franciscanos e entra no Convento de Santo Antão nos Olivais, altura em que muda de nome, passando a chamar-se António.

 

Adquiridos em Portugal os conhecimentos intelectuais possíveis para a época, parte para Marrocos com a intenção de poder levar a cabo a missão que mais ambicionava desenvolver – a de evangelizar. Pouco tempo depois, devido ao clima, adoece gravemente e embarca de regresso a Portugal. O navio, porém, apanhado por uma tempestade, aporta na Sicília, onde se encontra, então, São Francisco de Assis, pelo qual nutria devotada admiração e de quem se torna amigo.

 

Corria o ano de 1221 e António radica-se no Convento de Arcella, em Pádua, cidade que pouco a pouco se rende aos seus dotes de grande pregador, extasiando-se perante a simplicidade, a força e a fé dos seus sermões – por vezes a denunciarem lúcida e corajosamente os males sociais do seu tempo. A fama da sua santidade, caridade para com os pobres, sabedoria e eloquência depressa se espalhou pelo Mundo, não havendo templo que albergasse as multidões que acorriam a ouvi-lo, facto que levava a que as suas pregações fossem feitas ao ar livre.

 

Célebre ficou o seu sermão aos peixes, que proferiu, de acordo com a tradição, na costa do Adriático, região onde imperavam os hereges cátaros e patarinos: «Ouvi a palavra de Deus, vós, peixes do mar e do rio, já que não a querem escutar os infiéis hereges», logo acudindo à tona milhares de peixes, mostrando a cabeça fora da água. Vários foram também os templos que se construíram em seu louvor por todo o país, entre eles o sumptuoso Convento de Mafra, que lhe foi consagrado na altura do nascimento de D. José I, em cumprimento da promessa de D. João V, que desejava um herdeiro.

 

Denominado pelo povo cristão como «o Santo de Todo o Mundo» (conforme a famosa frase de Leão XIII), Santo António, consumido pelo esforço e pela doença, morre a 13 de Junho de 1231, no Convento de Arcella, em Camposampiero. É canonizado a 30 de Maio do ano seguinte, constituindo a sua canonização a mais rápida da história da Igreja, por bula do papa Gregório IX, que, segundo dizia, se orgulhava de o ter conhecido e escutado e a quem chamou «Arca das Escrituras».

 

Santo António deixou os Sermões, que lhe valeram a inclusão do seu nome entre o reduzido número dos Doutores da Igreja, distinção que lhe foi atribuída pelo papa Pio XII, a 16 de Janeiro de 1946. Devido aos seus inúmeros milagres, fizeram-se peregrinações ao seu sepúlcro, em Pádua, à semelhança das que foram feitas a Jerusalém, a Roma e a outros importantes santuários. Teve ainda a honra, reservada a poucos santos, de possuir uma liturgia particular, privilégio que na sua Ordem só compartilhou com São Francisco.

 

Iconograficamente, Santo António apresenta-se como um jovem vestido de franciscano, mas também de cónego regrante de Santo Agostinho ou de Menino de Coro, segurando um livro na mão esquerda, sobre o qual se senta o Menino Jesus (a partir do século XVI elemento inseparável da imagem do santo), e com a direita uma cruz e um lírio, símbolo da pureza, que aparece como seu atributo em meados do século XV.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. V

Ed. Círculo de Leitores

 

publicado por sarrabal às 01:53
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9 comentários:
De Armando Pinto a 11 de Junho de 2010 às 01:03
Santo António faz parte do imaginário popular, pelas muitas tradições associadas ao seu culto, na piedade do povo mais simples, desde tempos remotos.
Já tive a feliz oportunidade de ter estado na sua igreja em Pádua, e foi com forte sentido que presenciei in loco as suas relíquias, como o hábito (veste), o relicário com sua língua, etc.
Nunca entendi, porém, e notei isso ainda mais em Itália, o porquê de ser nomeado sempre como de Pádua e não de Lisboa, embora pense que seja também porque Portugal nunca teve grande impacto mediático a nível internacional, nem tem tido quem consiga fazer valer esse e tantos outros valores portugueses...
Um abraço do
Armando Pinto

http://longara.blogspot.com/


De sarrabal a 11 de Junho de 2010 às 21:22
Santo António passou a parte mais importante da sua vida em Itália. Portugal foi apenas o país onde nasceu e estudou. Dai, a «apropriação», por parte de Pádua, do seu nome e obra. Portugal pouco se incomodou com o facto. Por isso, concordo consigo: o nosso país não tem por hábito divulgar ou promover, mundialmente, os seus ilustres. Talvez mais os do passado. Actualmente, parece já não ser bem assim. A outros níveis, repare em Fernando Pessoa, Saramago, Amália e, até, em nomes do futebol. O que não sei ao certo, é se é mesmo Portugal que os promove, ou os próprios, pelos seus meios e mérito pessoal...

Outro abraço para si da Sol


De melro a 13 de Junho de 2010 às 00:31
Boa noite. Cheguei ao seu blog através de uma pesquisa acerca das marchas populares e gostei do que li. Quero apenas dizer-lhe que nos últimos dias a dúvida também me assaltou: Santo António é, ou não, o padroeiro de Lisboa?

Não tinha qualquer dúvida de que era São Vicente, até me ser dado a ler o Missal Romano (ed. de 1982), onde está indicado que São Vicente é o Santo Padroeiro do Patriarcado de Lisboa e Santo António o Santo Padroeiro Principal da cidade. Escrevi directamente ao patriarcado e a resposta foi clara - apesar de ser um santo bem popular e se celebrar a data da sua morte, Santo António NÂO é padroeiro da capital, mas sim São Vicente, como o indica o símbolo da cidade, com a barca e os dois corvos.

continuação de bom trabalho!
atenciosamente,

melro azul



De sarrabal a 14 de Junho de 2010 às 18:57
Melro Azul:

Fiquei um pouco surpreendida com a sua informação (preciosa), uma vez que lhe foi fornecida pelo próprio Patriarcado. Não fui tão longe...Nas pesquisas que fiz, dão-no sempre como patrono de Lisboa, daí, o título do post. Chego à conclusão de que o povo também elege os seus santos padroeiros. Naturalment, terá sido o caso de Santo António..

Cumprimentos e...bom trabalho também para si (fui espreitar o seu blog)!

Soledade Martinho Costa


De sarrabal a 16 de Junho de 2010 às 17:04
Faltou-me acrescentar que no 2º volume da colecção «Santos de Cada Dia», organizada por José Leite, com chancela da Editorial A. O., de Braga (Secretariado Nacional do Apostolado da Oração), pode ler-se como remate de uma biografia alargada de Santo António, que «...em 1934 Santo António foi declarado padroeiro de Portugal.»

Num outro escrito (não me ocorre qual), li também: «Santo António, em 1934, é proclamado pelo papa Pio XI patrono da cidade de Lisboa». E ainda num outro: « Em 1934 Santo António é proclamado pelo papa Pio XI segundo padroeiro de Portugal, juntamente com Nossa Senhora da Conceição».

Fazer pesquisa, não é fácil...

S. M. C.


De lea a 15 de Junho de 2010 às 14:05
cara senhora, poderia dar a referência completa do livro festas e tradições populares, muito me interessou, mas não achei este título no círuclo de leitores.g rata.


De sarrabal a 16 de Junho de 2010 às 17:22
Cara Iea:

A colecção «Festas e Tradições Portuguesas» (8 volumes) já não consta da revista do Círculo de Leitores por se encontrar esgotada. Há uns dois anos atrás ainda se podia adquirir na livraria do Círculo (Rua do Ouro) um ou outro exemplar fora da colecção. Actualmente, já não. A obra fez uma primeira edição de 30 mil colecções a que se seguiram várias reedições com menor tiragem. É provável que mais dia menos dia o Círculo volte a reeditar. É uma questão de aguardar. Entretanto, poderá ler alguns desses textos (em parte abreviados) aqui, no Sarrabal, procurando no Arquivo. Poderá, também, procurar nas bibliotecas municipais.

Grata pelo interesse

Soledade Marinho Costa


De Rafael Vieira a 2 de Novembro de 2014 às 08:12
Viva, só para um pequeno e um grande reparo:

1. O padroeiro de Lisboa é, inequivocamente, São Vicente, está mais do que atestado, veja-se a heráldica e a mitologia associada. Há inúmeros sítios que o comprovam, bastando dois, da CML e do Patriarcado:

http://revelarlx.cm-lisboa.pt/faq/faq.php?id=37#42
http://www.patriarcado-lisboa.pt/site/index.php?id=3414

(Sugeria, respeitosamente, alterar o título da postagem, pois induz em erro)

2. Onde escreveu «Santo Antao dos Olivais» deve ler-se «Santo António dos Olivais». Isto é importante para o estabelecimento do nome de Santo António.

A ermida situada em Coimbra (actualmente Igreja e também freguesia) foi dedicada a um santo com o nome de António. Santo António, o nosso, tomou o nome de António a partir daí.

Boas e aturadas escritas, cumprimentos,

R



De sarrabal a 12 de Novembro de 2014 às 02:03
Rafael Vieira, pode e tem, certamente, razão. Mas nas pesquisas que fiz dão sempre Santo António como o patrono popular de Lisboa. Provavelmente, como digo acima, num outro comentário, o povo também elege os seus santos padroeiros. Repare que não há festejos a São Vicente... Sobre Santo Antão, veio parar-me à mão um documento com essa designação. Poderá ter tido este nome primeiramente, não tenho a certeza.
Grata pela chamada de atenção.
Soledade Martinho Costa


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