Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

SEGREDOS - TÓSSAN - O ENGANO

 

 
Não é fácil falar de Tóssan. Um artista notável em diversas vertentes: pintor, ilustrador, vitralista, decorador, cenógrafo, humorista (sem nunca ter sido actor, e podia!), poeta, mas, sobretudo, um conversador maravilhoso. Afável, simples, bondoso, amigo – como só os grandes homens sabem ser.
 
Por companheira, sua mulher, a doce Manuela, cabelo lindo, totalmente branco, lábios (sempre) com baton. E como ficava bem o baton vermelho nos lábios de Manuela! E o sorriso que nunca se apagava do rosto dessa mulher formosa. A fazer «concorrência» ao marido na afabilidade, na simplicidade, na amizade que nutria pelos outros. E no amor apaixonado que brilhava nos seus olhos quando fitava e ouvia o marido. Tóssan retribuía-lhe da mesma maneira.
 
Casal exemplar, bonito, inigualável. Sim, o amor entre os dois fazia o milagre da união perfeita, lá, na «casinha» onde moravam, «encavalitada» no último andar de um prédio da Avenida 5 de Outubro. Viviam entre a arte e o carinho. Nesse cantinho recebiam os amigos (tantos!). A diferença de idades entre ambos era muita – a favor de Tóssan. Mas os olhares que trocavam entre si, de ternura e respeito, de admiração profunda um pelo outro, fazia com que parecessem da mesma idade.
 
Marcaram presença num dos programas do inesquecível «Zip-Zip». O bom-humor de ambos, a versatilidade dos assuntos, a graça natural de Tóssan, os seus poemas, fizeram desse serão frente à TV um dos mais interessantes momentos televisivos em programas de entretenimento. Os aplausos do público e dos apresentadores foram o testemunho.
 
Conheci Tóssan, pessoalmente, no lançamento de um livro de Orlando Gonçalves, director do jornal «Notícias da Amadora». Lançamento esse que teve lugar precisamente na Amadora – onde existe hoje a Avenida Tóssan.
 
Falámos de interesses comuns, sobretudo de literatura para a infância. Tóssan ilustrava de há muito os livros de Leonel Neves, seu amigo de infância e autor para crianças. Desenhos magníficos os seus! Mas falámos também do Algarve: Tóssan nasceu em Vila Real de Santo António (cuja Câmara Municipal, postumamente, lhe rendeu homenagem). Falámos de Loulé (que conheço bem) e, como não podia deixar de ser, de António Aleixo, esse grande poeta popular (seria?), cuja obra Tóssan ajudou a divulgar, unindo-os uma profunda amizade. Sempre que falava de António Aleixo, a comoção de Tóssan era visível. Mesmo em público: as lágrimas assomavam aos seus olhos sem pedir licença. Assim aconteceu no «Zip-Zip».
 
Homem sensível, nem sequer abria a televisão para ouvir os noticiários. Ficava «incomodado, doente», dizia. A sua saúde, sempre precária, e a de Manuela não lhes permitia essa imprudência.
 
Recebi ambos, algumas vezes, na minha casa, em Alverca do Ribatejo. A seguir ao sumo de laranja, feito na altura, vinha a poesia: a dele e a minha, a animar os serões. Com uma diferença: enquanto Tóssan sabia de cor todos os seus poemas, eu, necessitava de ter os meus livros à mão! Serões inesquecíveis, esses, que recordo com muita saudade. Também os visitava na sua casa em Lisboa e no Algarve (Albufeira), onde possuíam um apartamento.
 
Depois do falecimento de Tóssan, em 1991, Manuela decidiu ingressar num lar, em Lisboa. Os amigos não a abandonaram, longe disso! No quarto com varanda para o jardim, vivia rodeada das obras do marido: textos manuscritos e quadros pelas paredes, muitos quadros e ilustrações assinados por Tóssan. Mas não sobreviveu muito tempo. A falta do marido fez com que o coração de Manuela, desde sempre debilitado, deixasse de bater.
 
Em 1992, Mário Viegas, põe em cena um espectáculo a partir de textos em prosa e poesia da autoria de Tóssan.
 
Lembro-me de um facto com muita graça. Tóssan foi o autor da capa do meu segundo livro de poesia: «A Palavra Nua». Inspirou-se no título e concebeu o trabalho de uma forma muito pessoal e criativa. Dentro de uma «janela» cercada por dois tons de verde, a palavra «nua», ao centro, aparece a branco, em relevo.
 
Conforme Tóssan me contou depois, assim que a capa ficou pronta, resolveu telefonar-me de modo a irmos os dois entregá-la na gráfica. Ligou para o meu número (julgou ele) e ouviu a voz de um jovem. Tóssan perguntou: «És o Luís Miguel?» (meu filho) A resposta foi afirmativa: «Sim, sou.» E torna Tóssan: «A tua mãe, está em casa?» E do outro lado do fio: «Não, a minha mãe saiu». Porque algo lhe pareceu estranho, Tóssan insistiu: «Mas és mesmo o Luís Miguel?» A confirmação, de novo: «Sim, sou eu.» Tóssan pediu: «Quando a tua mãe chegar, dá-lhe um recado: diz-lhe que ligou o Tóssan e que a plavra nua já está vestida.» Silêncio do outro lado.
 
Dias depois, recebo um telefonema: «Soledade? É o Tóssan. Então, não diz nada? O Luís Miguel não lhe deu o recado?» Respondi: «Recado, que recado? Não, o Luís Miguel não me disse nada!» E logo a reacção de Tóssan: «Eu bem me parecia que alguma coisa estava errada! Aquele não podia ser o seu filho!» (pudera!)
 
A história, já a adivinharam. Enganara-se no número do telefone e o jovem que atendeu tinha, por coincidência, o nome do meu filho. Daí, a sua reacção de estranheza: «Tóssan?!» O nome, decerto, não lhe dizia nada – e que dissesse, não seria, imagino, pessoa das relações da casa. «A palavra nua já está vestida?!» Para o pobre rapaz esta frase terá constituído uma autêntica charada. Agora, imaginemos para a mãe!
 
Passaram anos. Aquela família, ainda hoje, se deve perguntar a razão de tal recado. Quem sabe se alguém conhecedor da história é leitor do Sarrabal? Ficava o mistério resolvido.
 
Com o relato deste episódio, termino a modesta homenagem que desejei prestar a Tóssan. Eu sei que foi muito pouco para quem tanto nos deu. Lembrar esse vulto da nossa Cultura foi a minha intenção. A memória é curta.
 
Pena que os textos inéditos de Tóssan não estejam reunidos em livro. Tóssan bem o merecia. Alguém (uma figura pública e política) ficou de fazê-lo. Até hoje o projecto não se realizou. É com muita pena que o digo. Quem sabe se essa pessoa, à semelhança da mãe do surpreendido Luís Miguel, lê, por estes dias, o Sarrabal? Às vezes, os milagres acontecem…
 
Soledade Martinho Costa
  
                                               
                                                        Desenho de Tóssan
 
publicado por sarrabal às 01:28
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5 comentários:
De Margarida A F Romão Santos a 14 de Fevereiro de 2012 às 12:31
muito me encantou as suas palavras, só recentemente descobri enumeros blogs relativos ao meu Tio Avô António, por quem meu Avô, seu irmão Emílio, tinha um enorme amor e carinho. Já tinha ouvido falar da Soledade, mas não conhecia nem conheci histórias muito de perto pois era pequenina quando infelizmente meu tio faleceu, conheci mais devido ao enorme encanto que meu avô tinha por ele e pelas obras espalhadas pelas nossas casas e os livros infantis que meu pai me comprou com desenhos deles e que meu avo me contava e me mostrava as ilustrações com traços de verdadeiro artista. Um grande bem haja e cumprimentos


De sarrabal a 17 de Fevereiro de 2012 às 01:16
Prezada Margarida A F Romão Santos, foi um prazer enorme para mim ler as suas palavras! Sim, fui muito amiga do seu Tio Avô António. Era um homem excepcional. E um grande artista. Aquilo que conto na crónica é a realidade. Costumava visitar a Manuela no lar onde se encontrava. Era estimada e respeitada por todos, ali.
Quando me fala no seu Avô, sei que cheguei a falar com um irmão do Tóssan. Seria, certamente, o seu Avô. Que me lembre, morava em Lisboa. Tanto quanto me recordo, só teria este irmão, de quem era muito amigo. Acho que tinha uma quinta no Algarve onde o Tóssan e a Manuela passavam temporadas. Estarei enganada? Penso que não...
Quando quiser, venha até ao Sarrabal Terei muito prazer. Pelo menos, algo permanece. Não sei a sua idade, mas presumo que seja ainda jovem...
Beijinho da Soledade Martinho Costa


De Margarida A F Romão Santos a 17 de Fevereiro de 2012 às 12:02
Olá novamente, realmente aindo sou novinha tenho os meus jovens 28 anos a caminho dos 29, o meu Tio António que eu tivesse conhecimento, era muito amigo do seu irmão Gervásio e Emílio, o Gervásio tinha uma quinta e casa em Albufeira e o Emílio vivia mesmo no Algarve, eles eram mais, (Aramando(que saltitava entre angola e algarve e o José Henrique, médico em Campo Maior), mas tudo homens quanto a mim com personalidades muito fortes e feitio. Eu sinceramente gostava de todos, realmente eram todos excelentes humoristas, e uma alegria enorme de viver, mas o meu Avô para mim foi o melhor do mundo e uma perda que ainda hoje (com falecimento recente, em janeiro deste ano) lido com dificuldade. O meu tio António era sempre muito lembrado por ele com carinho e saudade não me lembro muito dele só, (palavra um pouco ingrata), mesmo dos belos trabalhos de artista que ele nos deixou e histórias que meu avô sempre me contou. obrigado pelo retorno do meu comentário, um grande bem haja vou sempre pansando por aqui.
Beijinhos Maria Margarida Andrade Ferreira Romão Santos


De sarrabal a 17 de Fevereiro de 2012 às 22:37
Realmente, o Tóssan falava-me mais do irmão que tinha a quinta no Algarve. É possível que me tenha falado também dos outros (nem imaginava que fossem tantos). A capa que fez para o meu livro é muito criativa. E a história com o meu filho exactamente como a contei. Não calcula a graça que achámos a tudo isso. Restam as recordações... Na minha casa de Alverca tenho duas peças que representam «o general e a mulher»., da autoria de dois rapazes de Ágata (Prado). A primeira vez que o seu tio as viu ficou deslumbrado: «Muito bom. Muito bom mesmo, este trabalho!», disse. E era verdade, os rapazes até já tinham ganho uns prémios no estrangeiro. Quando o Tóssan vinha aqui a casa ia sempre mirar as duas figuras. Com isto, quero dizer que, quando olho o «par» vem sempre ao meu pensamento a imagem do meu grande Amigo. E é mais uma história, Margarida.
Beijinho, e apareça!


De rui sena a 16 de Dezembro de 2013 às 13:14
D. Soledade:
Bom Dia,
Estou a contactá-la, em virtude de ter em mãos a CMLOulé e eu, o projecto de fazer um doc. sobre o TÓSSAN.
Como s sabe não é fácil a partir do Algarve conseguir os elementos necessários a tal empresa:
1º - porque Tóssan deixou o seu espólio disperso. Há na casa do irmão Emílio bastante material, pois aquando das filmagens para o DOC do Antº Aleixo (2009), lá filmámos algumas das suas obras. Ora a viúva do sr. Emílio Santos, D. Mª das Neves que contactei a semana passada via telefone pareceu-me um tanto evasiva quanto a colaborar neste DOC sobre o cunhado, o que aliás é natural, visto viver sozinha;
2º A grande maioria dos seu amigos vive em Lisboa e Coimbra, sendo por isso difícil o seu contacto, o único que consegui, até agora, foi o do consultório do Dr. Camacho Viera, a quem voltarei a ligar amanhã.
Pelo que encarecidamente lhe peço, caso tenha alguma informação acerca do Tóssan que me contacte pelo TM: 964 453 367, Tel.: 289 395 045 (a partir das 18 horas ou ruisena@sapo.pt
Rui Sena
produtor/realizador


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