Sábado, 3 de Abril de 2010

PÁSCOA - PADRINHOS E AFILHADOS

 

 

Simbolicamente, o «folar» continua a representar o presente dos padrinhos aos afilhados, impondo-se como preceito irem estes recebê-lo a casa daqueles no domingo de Páscoa («ir pedir o bolo»). Praxe precedida pela oferta de um ramo de flores, ou amêndoas, dos afilhados aos padrinhos no domingo de Ramos.
  
                         
                                                          Folar
 
Com o decorrer do tempo, a palavra «folar» deixou de pertencer ao seu primitivo significado, isto é, ao bolo cerimonial da quadra pascal, para passar a designar o presente de Páscoa dos padrinhos, expresso por qualquer objecto, roupas, amêndoas ou dinheiro.
 
Substituído, embora, por outros presentes, a obrigação da oferta do «folar» cessa depois da maioridade ou do casamento dos afilhados. Neste caso, o ritual obriga (ou obrigava) a que os afilhados no dia seguinte ao do casamento, levem aos padrinhos a «fatia» (uma fatia de bolo de noz, de chocolate, pão-de-ló ou outro), enquanto os padrinhos oferecem aos afilhados um último «folar» na Páscoa a seguir à boda. Este procedimento continua a verificar-se em muitas localidades do nosso país.
            
                   
                     Pia baptismal do Mosteiro de Leça do Balio, Matosinhos.
 
Menos relevante do que antigamente, o parentesco cerimonial entre padrinhos e afilhados, assume, ainda hoje, aspectos de protecção familiar, determinando que famílias com menores posses assegurem bons padrinhos para os seus filhos, menosprezando, até, os laços do parentesco e da amizade.
 
Outrora, em Nisa (Alto Alentejo), chamava-se à criança «mourinho» antes do baptismo. O nome, de acordo com o preceito, era escolhido pelos padrinhos. Presentemente, e de um modo geral, são os próprios pais a fazer a escolha. O uso obrigava também que os primeiros filhos de um casal tivessem como padrinhos os avós, os tios ou parentes mais próximos. Eram igualmente os padrinhos do baptismo os escolhidos para padrinhos do casamento.
  
               
                                                Vela de baptismo.
 
Os dias preferidos para os baptizados recaíam, por norma, um pouco como hoje, no dia de Natal, no dia de Ano Novo e no domingo de Páscoa. No dia do baptismo, era hábito os padrinhos virem à janela ou à porta para distribuir pelas crianças que ali se juntavam, maçãs, castanhas, nozes e bolos.
 
Actualmente, em Nisa, as crianças continuam a ir «pedir o bolo» a casa dos padrinhos no domingo de Páscoa. Levam uma bolsa própria para este dia, na qual recolhem depois o pão e o bolo. O primeiro, um pão normal, mas de formato grande, feito propositadamente para esta data, o segundo, o chamado «bolo dormido», com uma cruz funda ao centro, marcada com a mão no acto da cozedura, a substituir o antigo «bolo de sementinhas» (anis ou erva-doce).
 
A bolsa, passada em muitas famílias de geração em geração, é feita com pedacinhos de damasco (sobras de colchas), leva um folho de organdi em volta e um cordão de seda para apertar. Nas casas mais pobres, em vez de seda, eram utilizados quadradinhos de pano. Quem a não tem, chega a pedi-la emprestada, para que os filhos possam cumprir a tradição
           
                       
                                                         
                                                Trouxas de ovos
  
Em Beja (Baixo Alentejo) era uso os padrinhos, na festa do baptismo, oferecerem um prato com «trouxas-de-ovos» e outro com doce de gila e fios de ovos, constituindo a oferta «um doce de rigor nestas ocasiões».
 
                             
                                             «Bolo Ferradura»
 
Nos arredores de Idanha-a-Nova (Beira Baixa), o «folar dos padrinhos» continua a ser simbolizado por um bolo em forma de ferradura, untado por cima com azeite para «ficar bonito e brilhante».
            
            
 
Na serra de Arga (Caminha, Minho), antigamente, no dia do baptizado, deixava-se o lume aceso toda a noite e pregava-se («serrava-se», no dizer local) um prego no chão da cozinha «para ali nunca se entornar vinho», sinal de mau augúrio. Guiados por velhas superstições, competia à mãe acender uma candeia e fazer no chão uma cruz com milho painço (miúdo) «para que as «meigas» (bruxas) não atormentassem o filho até ao dia do baptismo». Enquanto não chegasse esse dia, as pessoas da casa não podiam dar esmola a ninguém.
 
Na mesma localidade (onde as crianças continuam a ser baptizadas apenas ao domingo), na altura do banho molhavam os dedos na água, colocavam-nos junto da boca da criança e diziam o salmo: «um bocadinho de água para o meu menino beber, outro bocadinho para o meu menino crescer, outro bocadinho para o meu menino falar, para chamar pelo pai, pela mãe, pelo padrinho, pela madrinha e por toda a gentinha».
                 
               
                         «Madona Solly», Rafael, Gemaldegalerie, Berlim.
 
Esta prática andará associada à tradição de que a Sagrada Família, ao regressar a Israel e ao chegar a Belém, terá tido conhecimento da peste que grassava por lá e que atacava os olhos das crianças. Os pais levavam então os filhos a Maria. A Virgem dava-lhes a beber um pouco da água onde o Menino tinha tomado banho e as crianças ficavam curadas. Daí, talvez o antigo uso no Algarve de darem a beber às crianças a água que servira ao banho «para que o mal não entrasse no seu corpo».
 
Na freguesia de Mar (Esposende, Minho) era costume as mães só entrarem na igreja depois do baptizado do filho, a lembrar os antigos ritos de purificação. Ainda ali, ao saírem da igreja, enquanto os sinos repicavam festivamente, os padrinhos ofereciam guloseimas à garotada que os esperava no adro, fazendo o mesmo depois, ao longo do percurso até à casa dos pais do recém-baptizado.
                                                                    
Soledade Martinho Costa
  
                                                
                                                                                                   
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas». Vol. III
Ed. Círculo de Leitores
 
publicado por sarrabal às 15:30
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6 comentários:
De garatujando a 4 de Abril de 2010 às 19:49
SOLEDADE
Fiel leitor do SARRABAL, tenho seguido com o interesse de sempre os seus escritos, nomeadamente estes últimos que nos falam das tradições próprias da quadra da Páscoa.
São de leitura obrigatória, pela clareza da narrativa, pelas esclarecedoras imagens com que os enriquece e pela amplitude geográfica que abarcam, do norte a sul do País.
Realmente só uma obra de fôlego como "Festas e Tradições Portuguesas" com que dotou o país, poderia conter tantas e tão valiosas referências etnográficas.
A sua capacidade de investigação e de interpretação dos factos que descreve, aliada à sua têmpera de jornalista de eleição, tornaram possível a valiosíssima obra de oito volumes que, além de servirem -e de que maneira ! - os estudiosos do ramo, e não só, lhe servem agora, minha querida Amiga, de inexaurível recurso para o SARRABAL, excelente meio de divulgação do seu apreciável trabalho.

Aceite o amistoso abraço de sempre do

Carlos Ferreira


De sarrabal a 8 de Abril de 2010 às 00:16
É verdade, Carlos, este trabalho, volta não volta, serve-me para os blogs do Sarrabal. Só desejo que divulguem as muitas tradições que se mantêm ainda um pouco por este nosso Portugal e que nem toda a gente conhece. Ainda teria alguma coisa a acrescentar sobre a Pascoela - prolongamento da Páscoa. Tanto os baptizados como o «Compasso» (Visita Pascal), abrangem mais esta semana. Talvez para a próxima Páscoa, ou Pascoela, tenhamos outras tradições para contar.

Como já vai sendo costume, as suas palavras são sempre muito bondosas. De um leal Amigo e leitor fiel. Uma vez que conhece a Colecção das »Festas e Tradições Portuguesas», sei que fala com alguma autoridade. Ainda bem que contribui para toda essa divulgação. Muita coisa estava esquecida e outra ignorada. Mereceu a pena.

Por agora, volto às crónicas...
Outro abraço amigo da Sol


De IBEL a 5 de Abril de 2010 às 17:24
Faço minhas as palavras do Garatujando(nome bem engraçado!) e só acrecento que tenho pena de não ter padrinhos em Beja porque sou muito gulosa e adoro" trouxas-de-ovos".
Espero que tenha tido uma Santa Páscoa. A minha está a ser vivida em total repouso, porque estava à beira de um esgotamento.
Beijinho, Sol


De sarrabal a 8 de Abril de 2010 às 00:36
Fiquei preocupada com o que me diz. À beira de um esgotamento? Felizmente que Páscoa é sinónimo de férias! Terá mesmo de repousar enquanto pode, Ibel.

Também o meu filho adora trouxas-de-ovos, ovos-moles, fios-de-ovos e por aí. Como fez anos no dia 3 (Sábado Santo), a prenda da Soli foi mesmo uma caixinha com esses doces «só para o pai»!

Já agora, Beja, no que respeita aos manjares cerimoniais da nossa doçaria, tem papel de grande relevância, tanto no que se refere ao passado, como nos dias actuais. Também peguei as tradições por esse lado: o dos pratos cerimoniais, incluindo os doces. Tenho, até, algumas receitas ao longo dos oito volumes, todas elas associadas às diferentes festividades representadas.

Bom repouso, Ibel, com o meu beijinho

Sol


De Mario Alves a 16 de Abril de 2016 às 23:53
"Meigas" no Norte significa bruxas, e não melgas. Ou seja, a tradição minhota servia para proteger o menino das bruxas até ao dia do baptizado.


De sarrabal a 21 de Maio de 2016 às 03:30
Mario Alves, fico-lhe grata pela informação (preciosa!). Na pesquisa que fiz, ao ler «meigas», julguei que se tratava de uma gralha e «emendei»!. Sou de Lisboa, sabe? E os autores, mesmo os que gostam de etnografia, não sabem tudo. Muito obrigada. Saudações!


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