Quinta-feira, 11 de Março de 2010
TRADIÇÕES DA QUARESMA - «AMENTAÇÃO DAS ALMAS» em VINHAL / LAJEOSA DO DÃO

       

  

Tradição mantida desde há séculos pelas gentes da Lajeosa do Dão e das localidades vizinhas, Vinhal, Teomil, São Gemil e Corujeiro (Tondela, Beira Alta), a «amentação das almas» significa um ritual cristão destinado a pedir, durante a Quaresma, pelo eterno descanso dos defuntos.
 
Enquanto na Lajeosa, Teomil, São Gemil e Corujeiro a celebração deixou de realizar-se, em Vinhal o ritual continua a verificar-se, cumprido com a  mesma fidelidade, respeito e devoção seculares, transmitido de pais a filhos.
 
                              Anta da Arquinha da Moira, Lajeosa do Dão
 
Com início quinze dias após o começo da Quaresma, em dias alternados e até ao Domingo de Ramos, mal anoitece, um grupo constituído por sete ou nove elementos, homens e mulheres, meio encapuçados, numa imagem de secretismo, levando uma Cruz e velas, reza até noite avançada orações em verso, próprias da quadra quaresmal («Versos da Quaresma»), por intenção e a lembrar os fiés defuntos.  Chegados aos cruzamentos, acendem as velas, ajoelham e dão início aos cânticos, que se repetem em todas as encruzilhadas da aldeia.
 
               
                                             Cruz do adro da igreja
 
Durante a Semana Santa, o grupo, acompanhado por alguns habitantes do lugar (16 a 20 pessoas), transporta a «cadeira», levada por dois dos participantes na «amentação». Trata-se de uma cadeira antiga, adornada com fitas negras (de «luto», no dizer local) levando a Cruz de Cristo. Chegados a cada uma das encruzilhadas, a «cadeira» é colocada no chão, como se fosse um altar, os encapuçados dispõem as velas acesas, ajoelham em semi-círculo, e entoam agora os «Martírios» - longos e seculares cânticos religiosos evocando a vida de Cristo e a Crucificação.
   
                                                         Cruzeiro
 
Na noite de sexta para Sábado Santo, com a «cadeira» levando a Cruz de Cristo, mas enfeitada com fitas brancas, velas, flores e objectos de oiro (pedido emprestado para o efeito), o grupo, trajando de branco (utilizando lençóis), prolonga pelas encruzilhadas os cânticos e as preces até ao romper do dia. Nessa altura, junta-se-lhes o resto da população para entoarem em conjunto os cânticos de «aleluias» de ressurreição. Estalam os foguetes e os morteiros e os componentes do grupo dão-se finalmente a conhecer, descobrindo o rosto.
     
                        
                                    Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo
 
Após este cerimonial, a «cadeira» é levada para o interior da Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo, onde tem lugar a celebração da missa, ali permanecendo até ao encerramento das comemorações da quadra pascal. Ainda pela manhã, sai uma procissão, a dar apenas uma volta ao redor da igreja e do Cruzeiro que lhe fica ao lado, composta por estandartes e a Santa Custódia, transportados por aqueles que tomaram parte na «amentação das almas».
 
Soledade Martinho Costa
                                              
                                                                        
 
Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol III
Ed. Círculo de Leitores

                        



publicado por sarrabal às 00:29
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4 comentários:
De Armando Pinto a 14 de Março de 2010 às 00:10
Mais um grande testemunho dando a conhecer tão curiosa e grata tradição, que na verdade, não sendo muito conhecida na generalidade, merece preservação e divulgação. É destas curiosidades que a alma popular é rica, felizmente. E é de admirar o seu trabalho de pesquisa, com efeito.
Bem-haja, amiga D. Soledade.


De sarrabal a 14 de Março de 2010 às 00:48
Caro Armando Pinto:

Quem, melhor do que o meu Amigo, para apreciar este género de texto? Sim, as tradições como esta devem ser preservadas; a dificuldade está em fazê-lo. Dizem-me algumas pessoas que teimam em mantê-las nas suas terras que «os mais jovens não estão para aí virados». E dizem-no com pena. Enfim, vou continuar, aqui no Sarrabal, a divulgar aquelas que se mantêm por este nosso Portugal. A próxima será o «Terço Cantado» em São Miguel de Acha; tradição da quadra que atravesssamos: a Quaresma.

Abraço da Sol


De Ibel a 14 de Março de 2010 às 23:42
Os seus textos têm sido de grande utilidade para os trabalhos que os alunos andam a fazer sobre as tradições populares. Como se chega a tanto conhecimento sobre as nossas raízes mais ancestrais? Investigação, deslocação aos lugares, recolha de testemunhos?
Respira-se ancestralidade e devoção nesta e noutras grandes toalhas de prosa que estende com puro linho.
Que bom tê-la encontrado!

PS. No meu blog, os comentários só aparecem depois de eu os submeter. As suas visitas são luz preciosa .
Obrigada, Sol.


De sarrabal a 15 de Março de 2010 às 20:26
Eu já tinha ido ver no seu blog se o meu comentário estava lá...e estava! Sim, notei que só aparecem depois de aprovados. Das outras vezes não fiz reparo.

Fiquei contente por saber que está a trabalhar as «tradições» com os seus alunos. Os meus textos são a soma de tudo isso: investigação, deslocações (por vezes) e recolha de testemunhos (muitas). Principalmente as pessoas mais idosas adoram falar das tradições das suas terras. O meu trabalho para o Círculo de Leitores abriu-me muitíssimas portas: tenho amigos de norte a sul de Portugal, incluindo os Açores e a Madeira (e muitos convites para assistir a festividades e a provar petiscos próprios de algumas delas)! Se surgem dúvidas, basta-me contactar as pessoas indicadas. Como calcula, as coisas, por vezes, mudam e é necessário actualizá-las. É isso que faço. Ainda agora, neste texto e nos que se vão seguir, aproveitando a quadra que atravessamos, fiz algumas rectificações, embora ligeiras.

Ibel, que bom foi tê-la encontrado a si também! Não se trata de troca de galhardetes, mas da verdade, creia. Temos muito em comum. As suas palavras são sempre bonitas!

Beijinho da Sol


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