Domingo, 21 de Fevereiro de 2010

ABRE-LATAS - ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE ESCRITORES - FILHOS E ENTEADOS (I)

                                                    

 
Meses atrás, fui a iniciadora da petição «Eu não sou Cúmplice – Meninos Escravos do Gana». Na altura, convidei mais cinco elementos para integrar a Comissão, entre eles três escritores.
 
Contactei, então, a Associação Portuguesa de Escritores, na pessoa do seu presidente da Direcção José Manuel Mendes. Fi-lo duas vezes, ambas por e-mail. O primeiro enviado em 20/11/2009, dando conhecimento da petição e pedindo a colaboração da APE: «Tomamos a liberdade de solicitar a colaboração da APE, no sentido de angariar assinaturas destinadas a um abaixo-assinado que tem por objectivo ajudar as crianças escravas do lago Volta, no Gana.» O segundo, em 28/11/2009, repetindo a informação e o pedido: «Encontra-se em online a petição «Eu não sou Cúmplice» (seguia-se o link). Solicitamos a V. Exª que a divulgue pelos membros dessa Associação. Os escritores portugueses devem tomar conhecimento. Assiná-la e divulgá-la é uma obrigação moral de todos nós. Juntamos o texto da petição». Até hoje não obtive resposta.
 
É de lamentar que José Manuel Mendes tenha ignorado esta solicitação de um membro da APE (assinei pela Comissão), a justificar, plenamente e a todos os níveis, que os membros da Associação Portuguesa de Escritores fossem informados da urgência que se impõe tomar perante este caso gritante de genocídio e impunidade praticados sobre crianças indefesas.
 
Se a assinatura da petição por cada um de nós significa não ser cúmplice deste drama, desta crueldade sem limites que se abate sobre as crianças do Gana, direi que José Manuel Mendes ao silenciá-la, praticando um acto prepotente, ditatorial e censório, mais não faz do que ser cúmplice desta atrocidade que nos envergonha como seres humanos.
 
Na minha caixa de correio electrónico, encontro, diariamente, dois ou três e-mails enviados pela Associação Portuguesa de Escritores. As informações são  diversificadas. Daí, a minha surpresa, decepção e desagrado, ao constatar que a divulgação de uma petição como a que atrás se refere, não tenha sido feita, quando a APE divulga, prontamente, tudo o que aparece lá pelas bandas da Rua de São Domingos à Lapa.
 
Sou membro da Associação Portuguesa de Escritores desde 1973. Pago, no início de cada ano, pontualmente, as minhas quotas. Sou do tempo em que, para ser sócio da APE, era necessário ter, pelo menos, um livro publicado e dois sócios preponentes. No meu caso, foram eles o escritor Fernando Reis e o poeta Ruy Cinatti. Hoje, ignoro se vigoram estas condições.
 
Sei, isso, sim, dos escritores (nomes consagrados) que deixaram de ser membros da Associação. Por desentendimentos, desinteresse, ou por não concordarem com o «clima» e as directrizes, políticas ou não, que são ali tomadas.
 
Nunca dá bom resultado ver a mesma pessoa a exercer determinado cargo anos a fio. Há quanto tempo ocupa José Manuel Mendes o lugar de presidente da Direcção da APE? Precisamente, há 18 anos. São demasiados anos. A rotatividade é sempre desejável. Já tivemos alguém que ocupou durante 48 anos a cadeira do poder. Não desejamos réplicas.
 
Dir-se-à (a quem convém) que não se apresentam candidatos à eleição. É natural. Poderemos, assim, encontrar a resposta certa para fazer o balanço desta quase vintena de anos: o afastamento de nomes consagrados da nossa Literatura de uma Casa que sempre foi lugar privilegiado da Cultura Portuguesa.
 
A atitude censurável de José Manuel Mendes leva a que recorde outros tempos da APE. Tempos em que grandes nomes das nossas Letras faziam da Associação local de encontro e de confraternização. Entrei aquando da vigência de José Gomes Ferreira (o meu cartão de sócia tem a sua assinatura). Acompanhei os mandatos de Maria Velho da Costa (com a qual colaborei), de Manuel Ferreira (meu grande Amigo), de Urbano Tavares Rodrigues. Todos eles a exercerem o seu mandato dentro do tempo considerado certo.
 
Tenho a certeza que na vigência de qualquer um destes escritores a petição «Eu não sou Cúmplice» teria tido o melhor acolhimento e divulgação. Não foi o caso. No entanto, a APE, com a concordância de José Manuel Mendes, acolhe e divulga textos como este (por motivos óbvios, omito qualquer identificação de obras e autores):
 
«Caros amigos
No dia dos meus anos resolvi dar-vos um presente: o meu segundo livro de poesia. (…) Como não faz sentido fazer uma sessão de lançamento de um livro “virtual”, convido-vos a visitarem o site (…). O vosso feedback é, naturalmente, desejado.»
 
Como este:
«Solicito à APE a divulgação do facto de eu ter ganho o 3º prémio na modalidade conto, no concurso nacional “Arte para a Dignidade”. (…) Por ser uma notícia de interesse cultural peço a difusão da mesma.»
Este:
«A biblioteca do (…) e (…) têm o prazer de convidar para a inauguração da exposição de pintura de (…). CC estará a pintar ao vivo, onde cada quadro terá um pensamento seu.»
Ou, ainda, este:
«Desta vez estarei na (…) para o lançamento do meu livro (…). Gostaria de vos ver por lá (…). No entanto quem não puder comparecer e queira adquirir um exemplar agradeço que me responda a esta mensagem com o vosso nome completo, morada. Cada exemplar tem o valor de 10 euros mais os portes de envio. Aguardo por todos vós ou das vossas mensagens. Jinhos com carinho.»
Aconselho, vivamente, José Manuel Mendes a ser mais cuidadoso. Em boa verdade, sempre se trata de proteger o nome de uma Associação de pessoas que sabem escrever. Caso contrário, resta-lhe a opção de contratar um revisor, ou alguém que saiba corrigir um texto, de modo a que fique «escorreito», em bom português. Só depois deverá tomar a iniciativa de enviá-lo aos sócios da APE.
 
É confrangedora a maneira demasiado «descontraída», mercantil ou rudimentar destes textos, que não fazem, propriamente, o orgulho de uma classe, ou a dignificação de uma Associação de Escritores. Mas são estes que costumo receber.
 
José Manuel Mendes, presidente da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores só não publicou este texto:
 
«Sei dos muitos casos gritantes de crueldade exercida sobre as crianças em todo o Mundo. Sei da impossibilidade de lhes acudir. Mas sei que posso acudir aos Meninos Escravos do lago Volta no Gana. Basta escrever aqui apenas o meu nome. A minha assinatura representa a Esperança para milhares de crianças prisioneiras, com 3, 4 e 6 anos de idade. Meninos que trabalham 14 horas por dia na pesca do poluído lago Volta, escravos dos pescadores que os compram por 30 euros. Que morrem no lago, porque muitas dessas crianças não sabem nadar. Eu vou ajudar a salvá-las. Porque quero pôr termo a este genocídio.
Os Meninos Escravos do lago Volta trabalham 14 horas por dia durante os 7 dias da semana. Pagam-lhes com fome e maus-tratos – têm o corpo coberto de cicatrizes. Todos eles sofrem de doenças graves. Não lhes assiste, sequer, o direito a sentar-se.
Sei que desde 2005 vigora no Gana uma lei que proíbe o tráfico humano. Mas a lei não se cumpre. Não quero ser CÚMPLICE deste crime! Não quero ser CÚMPLICE desta impunidade!
O meu nome vai ajudar a libertar estas crianças. Para que, quem pode, tome decisões. Para que um massacre destes não volte a acontecer no Gana nem noutra parte do Mundo.
O meu nome representa a imagem das Crianças Escravas do lago Volta como se fossem filhos meus!»
 
Vários escritores assinaram esta petição (que continua activa), mesmo sem o apoio da APE. Muitos mais poderiam assinar se tivessem conhecimento dela.
 
Não há dúvida: uns são filhos, outros, enteados – caso indesmentível dos Meninos Escravos do Gana.
 
Nota – Voltarei ao assunto no próximo post.
 
Soledade Martinho Costa
publicado por sarrabal às 21:49
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2 comentários:
De Ibel a 24 de Fevereiro de 2010 às 21:33
Soledade,

Dou-lhe os meus patrabéns pela sua coragem e pelo seu espírito humanitário, revelador da alma de uma mulher, cuja sensibilidade não se esgota na poesia. Penso que assinei essa petição.Ainda está a decorrer? Em caso afrmativo, vou divulgá-la junto dos alunos, professores e encarregados de educação da minha escola. Ainda há tempos falei dos meninos do lago Volta.A reportagem da televisão fez-me chorar de comoção. A gente sabe que estas coisas acontecem, mas não podemos ser cúmplices desta violação grotesca e bárbara dos Direitos Humanos.

Beijinho.


De sarrabal a 25 de Fevereiro de 2010 às 18:47

Coragem demonstra, também, a Ibel por comentar este post. E que bonitas e humanas as suaqs palavras!

Há coisas que devem ser ditas (escritas) com a verdade que se impõe. Essa deveria ser a obrigação de todos os jornalistas. Sabemos que não é assim. No que me diz respeito, felizmente ou infelizmente, sempre escrevi nos jornais artigos de opinião semelhantes a este. No Expresso e nos extintos Diário de Lisboa e Diário Popular. Muita gente me tem chamado «corajosa». Não sei se o sou. Sei que a minha consciência fica em paz. Como dizia o Poeta Sidónio Muralha, meu saudoso e muito querido Amigo: «Calar é ser conivente». Por vezes não temos explicação para certos factos, Talvez seja o caso - ou talvez não...

Sim, a petição está activa. Agora numa 2ª «folha». É muito fácil assinar. Neste momento, é a primeira da lista. Basta ir a www.peticaopublica.com, «clicar» em Política e Governo (Categorias - coluna da direita), voltar a «clicar» no título da petição e depois em «Assinar Petição» (em cima).

Agradeço em nome dos Meninos do Gana a sua colaboração ao divulgar a existência desta petição na sua escola. Bem-haja!

Beijinho da Sol


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