Domingo, 1 de Outubro de 2017

CALENDÁRIO - OUTUBRO

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O dourado das copas            

Desnuda o arvoredo

Hibernam os ouriços

Para dormir um sono.

 

O frio

Já se apronta

Na hora da chegada.

 

Outubro vem lembrar

Recados do Outono

Preparam-se os gravetos

Que a lenha está guardada.

 

Soledade Martinho Costa

 

Foto: Fernando Ribeiro

publicado por sarrabal às 23:11
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1 DE OUTUBRO - DIA MUNDIAL DO IDOSO - LAR DE TERCEIRA IDADE

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Quem impôs aqui tamanha solidão

Quem impediu o sol de atravessar estas vidraças

Quem recusou a palavra

O gesto

No momento exacto

Quem impediu a vida nas veias sedentadas?

 

Quem se esconde para além deste silêncio

Destas portas trancadas

Destas cadeiras de rodas

Destas mesas de ferro

Deste cheiro a urina

Que se agarra ao encerado?

 

Quem paga estas paredes nuas

Estes cobertores tecidos de vigílias

Este abandono que flagela os corpos rejeitados?

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “A Palavra Nua”

Ed. Vela Branca

publicado por sarrabal às 23:04
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Quinta-feira, 28 de Setembro de 2017

«O NOME DOS POEMAS»

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Do escritor, poeta, jornalista e crítico literário José do Carmo Francisco, esta apreciação sobre o meu novo livro «O Nome dos Poemas»:

 

«O Nome dos Poemas» de Soledade Martinho Costa

 

Toda a Poesia (mistura de canção e reflexão) procura a síntese e no caso de Soledade Martinho Costa essa busca existe desde 1973 quando publicou o livro «Reduto». O projecto inicial da autora do livro era um desafio («Publicar poesia numa revista semanal») e data de 1999 quando os primeiros 20 poemas do volume foram publicados na Revista «Notícias/Magazine», do «Diário de Notícias». Os restantes 33 poemas estão inéditos. Dos iniciais 20 poemas, como sugestão de leitura, damos citação a dois deles: «João de Melo - Coloque-se a infância / No meio de uma ilha / Acorde-se a distância / No olhar. / Tome-se nas mãos / A neblina / Dê-se o coração / À voz do mar» ou «Isabel Silvestre – Água / Serias rio ou fonte / Regato que murmura / Entre dois lírios. / Ave / Um noitibó / Escondido / Entre as dobras de um lençol / Mas porque assim te queres / Terra e raiz / E tanto aquece / o matiz da tua voz / Só posso comparar-te / Ao próprio sol.»

Dos restantes 33 poemas uma nota especial para os poemas de Rodrigo Leão e de Maria Velho da Costa. O primeiro: «A música da chuva / Dos regatos /Das aves / E do vento / Do mar em fúria /Amante das maresias. / Ao homem /Coube ouvi-la / E copiá-la. / Juntou-lhe o coração / A alma / O génio / E conseguiu a fórmula / De todas as magias». A segunda: «Porque os tempos não eram / O que hoje são / Mais a voz se elevou / A inundar de luz a escuridão. / Rompeu feita coragem / Sem medo ao medo / a fustigar as normas / E o preconceito que regia a mulher e a Nação / No mesmo jeito / Três Marias souberam / Denunciar a palavra / Calada e ofendida / Como se fora um só nome / E uma só mão.»

Estamos em 2017, quase 20 anos passaram e os poemas continuam a surpreender como em 1999 conforme Sofia Barrocas escreve no prefácio: «Arriscaria mesmo dizer que daqui a vinte anos estaremos a lê-los com o mesmo espanto e prazer com que o fizemos da primeira vez.» Tal como no título do seu primeiro livro («Reduto») estes poemas de Soledade Martinho Costa resistem num reduto ao tempo que passa. À sua erosão, ao seu desgaste e ao seu esquecimento.

 

(Editora: Vela Branca, Prefácio: Sofia Barrocas, Revisão: L. Baptista Coelho, Capa: Victor Gabriel Gilbert, Separador interior: Peter Mork Monsted)

 

José do Carmo Francisco

 

 

publicado por sarrabal às 21:33
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Sábado, 23 de Setembro de 2017

HISTORINHA - O MOCHO E A CORUJA (Para os mais pequenos)

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- Ora, boa noite, bons olhos o vejam! – diz a coruja para o mocho, seu companheiro e ave de rapina nocturna como ela – Há muito que não aparece por estas bandas. Por onde tem andado, se não é segredo?

- Olhe, minha amiga, mudei de casa.

- Mudou de casa!? Não sabia! – espanta-se a coruja, num pio prolongado.

- Pois é verdade. – continua o mocho – O buraco onde vivia, no tronco de uma azinheira, começou a ser pequeno. Então, mudei-me para um outro maior, na fraga do monte.

- E fica longe? – interessa-se a coruja.

- Oh! amiga Coruja, essa pergunta nem parece sua! Para quem possui asas como nós, acha que a distância é coisa importante!?

- Claro, tem razão! – exclama a coruja embaraçada.

É a vez de o mocho perguntar:

- E por aqui, como vai a caça?

- Assim-assim. No Outono, é o costume. Os ratos do campo começaram a procurar refúgio nos currais e nos celeiros. Os arganazes escavam as galerias onde vão dormir um sono até chegar Abril. Os lagartos, agora mais friorentos, já aparecem pouco. Restam os insectos e os morcegos… – informa a coruja, que logo quer saber: - E lá pelos seus lados, compadre, há mais fartura?

- A mesma coisa. É o Outono, como a comadre disse – replica o mocho. – Eu bem adejo as asas sem fazer barulho; graças à leveza das minhas penas, sou tão silencioso que ninguém dá por mim. Mas estes meses, são meses ruins – acrescenta no seu piar sonoro e sempre triste.

- Lá isso, é verdade – pia a coruja, numa aprovação.

E seguem ambos, de ramo em ramo, num adejar feito de lendas e segredos. Ouvidos atentos, olhos a investigar a noite. Que tanto a coruja como o mocho têm boa visão, embora não suportem muito bem a luz do dia.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Histórias que o Outono me Contou”

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 01:57
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Sexta-feira, 15 de Setembro de 2017

A CONTRACAPA DE «O NOME DOS POEMAS»

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 Dois dos nomes destes poemas. Espero que gostem! (Não ficou na foto a barrinha em baixo. Paciência!)

 

SMC

publicado por sarrabal às 22:47
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O MEU NOVO LIVRO «O NOME DOS POEMAS»

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Reune 53 «retratos poéticos» de figuras públicas consagradas, das artes e das letras. Iclui um depoimento inédito de Amália Rodrigues. Estará nas livrarias a partir do dia 10 de Outubro.

 

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 22:40
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A VOZ DO VENTO CHAMA PELO TEU NOME

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Se algum dia chegasse a libertar-me

Deste laço a tornar-me prisioneira

Voltaria de certeza a enlear-me

No teu braço que me traz nesta cegueira.

 

Tão certa do que digo e do que faço

Espero por ti parada frente ao tempo

Como um retrato antigo de menina

Com um bouquet de rosas no regaço.

 

Sem esperança de esquecer-te

E de encontrar-me

Meu coração aos pés

Da tua imagem

Sou a pedra que mora sob o rio

Mas com ele não parte de viagem.

 

E quando o dia morre na voragem

Das horas que se apressam sem retorno

Acendem-se as estrelas na paisagem

E a voz do vento chama pelo teu nome.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «O Tempo (En)cantado»

 

publicado por sarrabal às 22:35
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Domingo, 3 de Setembro de 2017

ALGUMA COISA ACONTECE

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Se o dia vier ao Mundo

Em que o gelo nos aqueça

E o Sol no céu arrefeça

O calor das nossas veias

Esse será o sinal;

Decerto que a nosso lado

Alguma coisa acontece.

 

E se o riso

Que ontem vinha

Alegrar a nossa face

Morre aos poucos

Esmorece.

 

Nesse dia pedirei

A quem tiver

Por dentro de cada dia

Nada ter

A força que tem o vento

Que atravessa o pensamento

E liberta a nossa voz.

 

Nesse dia pedirei

À pressa que tem a vida

Que modere essa corrida

Da nascente até à foz.

 

E se ao longe há um veleiro

Que se perde atrás do mar

Que se afunda em nosso olhar

Onde a água é nevoeiro.

 

Chamarei

Companheiro desta dor

E da raiva cada vez maior

Aperta na minha mão

O que a tristeza juntou.

 

Na estrada que percorremos

A desdita é coisa pouca

Comparada ao que sobrou.

 

Nesse dia pedirei

A quem tiver

Por dentro de cada dia

O amor.

 

Soledade Martinho Costa

publicado por sarrabal às 16:45
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Domingo, 27 de Agosto de 2017

HISTORINHA - A TOUPEIRA E O GRILO (Para os mais pequenos)

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― Está tão abafada a tarde! – queixa-se a toutinegra, penas cor de fogo, empoleirada num ramo do pessegueiro. 
― O mais certo é vir por aí forte trovoada. No Verão é assim: chuva e trovoada quando menos se espera! – resmunga a toupeira, olhinhos piscos, cabeça fora do buraco, a remover detritos e entulho, num asseio.
― Para si é capaz de ser uma maçada, não, senhora Toupeira? Como vive debaixo do chão… – arrisca a toutinegra.
― Oh!, não, está enganada. A chuva no Verão não incomoda os bichos como eu. A terra está quente e seca e a água depressa evapora.
― E eu a julgar que ficava com a casa inundada! – cacareja a galinha-pedrês.
― Isso acontece no Inverno, quando a água corre que parece um ribeiro nas câmaras e nas galerias que escavo. Nessas ocasiões, redobra o meu trabalho. Com as minhas unhas afiadas, abro logo outras, mais acima, onde me abrigo.
― Coitada! Que grande perigo! Tem de ter cuidado… – aconselha a pedrês.
― Cuidado tenho, em procurar no Inverno os sítios abrigados e secos, nas encostas, e não nas zonas baixas e alagadas. Agora no Verão, como não vejo quase nada, se estiver fora do buraco, à noitinha, e não der depressa com ele, o mais que me pode acontecer, se começa a chover, é apanhar um banho! – exclama a toupeira, divertida.
― O que seria um inconveniente! – comenta a toutinegra.
― Ou uma vantagem. – contrapõe a galinha-pedrês.
O grilo, vindo do seu passeio, dá um salto e aquieta-se sobre uma pedra.
― Vantagens e inconvenientes fazem lembrar a dona Toupeira em pessoa! – diz, intrometido, o insecto saltador.
― Ora essa! – abespinha-se a toupeira, num amuo – Que eu saiba, a conversa não é consigo, ó senhor Grilo!
― Mas passa a ser agora, se me dá licença! – grigrila o grilo grilão, todo aprumado no seu fato preto.
― Nesse caso, queira explicar-se, porque eu não gosto de graças. – respinga a toupeira, virando na direcção do grilo os bigodes, que lhe fornecem a orientação e todas as informações que os olhos não lhe podem dar.
A galinha-pedrês põe a crista à banda, atenta à explicação. A toutinegra pula para um ramo mais baixo, ouvido à escuta.
― É simples. – esclarece o grilo – O trabalho aqui da dona Toupeira é de toda a utilidade, porque destrói as larvas, as lesmas, os insectos nocivos…
― Olha a novidade! – interrompe a toupeira, a fungar de troça.
― Pois é – continua o grilo –, mas em contrapartida, como vive debaixo da terra, entretém-se a roer as raízes das árvores e das plantas, o que se torna num grande inconveniente. Principalmente, nesta altura do ano, quando se muda para os pomares e para as hortas, à procura de terrenos macios!
― Isso é verdade! – comentam, entre si, a toutinegra e a galinha-pedrês, olhando a companheira de soslaio.
― Mas não é por mal! – defende-se a toupeira, focinhito a disfarçar, num montinho de terra. – Preciso de escavar as minhas galerias à procura de alimento: larvas, minhocas, bichos-de-conta, formigas…
E logo o grilo, trocista, asinhas levantadas:
― Já se vê que não é por mal, dona Toupeira. Afinal, não há ninguém perfeito!
A toutinegra e a galinha-pedrês voltam a estar de acordo:
― Isso é verdade! – repetem as duas, muito bem ensaiadas.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Histórias que o Verão me Contou»
Ed. Publicações Europa-América

publicado por sarrabal às 23:48
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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2017

CALENDÁRIO - AGOSTO

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Aprende

O verde da rã

A margem do riacho.

 

As abóboras

Assomam

Ao bordo dos telhados

Viajam as raposas

A senda dos trigais.

 

A sede

Das roseiras

Demora-se em Agosto.

 

Repetem-se nos figos

As asas dos pardais.

 

Soledade Martinho Costa

 

publicado por sarrabal às 00:58
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