Quinta-feira, 16 de Março de 2017

CALENDÁRIO - MARÇO

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Descobre
A borboleta
As pétalas das flores.

Na herança dos muros
Trepam as folhas de hera
É Março com notícias
De ninhos e esponsais.

Há verdes 
Que se cruzam 
Nos matizes das cores 

Espreitam as andorinhas
À janela dos beirais.

Soledade Martinho Costa


publicado por sarrabal às 02:00
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2017

CARNAVAL - A MÁSCARA

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Revela tradições muito remotas. Mesmo nas pinturas rupestres paleolíticas podem observar-se dançarinos meio cobertos com peles de animais, cujas cabeças se sobrepunham às suas, constituindo a representação de tais cenas uma das indicações mais antigas de que se tem conhecimento associada, eventualmente, à origem da máscara. Na Antiguidade, mais do que a diversão, as mascaradas públicas faziam parte de rituais mágicos para “esconjurar os maus espíritos”. Com o cristianismo, essa intenção desapareceu, mantendo-se, embora, o desejo de se apresentar um rosto falso ou uma falsa personalidade, usando a máscara ou o disfarce carnavalesco.

Veneza, considerada a «máscara de Itália», deteve ao longo de décadas a duração máxima do Carnaval – seis meses no ano –, durante a qual o uso da máscara era diário e quase obrigatório.

Símbolo da comédia (o riso) e da tragédia (o choro), a máscara foi de início fabricada em couro, tela, papel e cartão pintado, tendo surgido depois as máscaras executadas em madeira, cortiça, pele, renda ou latão – actualmente, com a predominância das máscaras de plástico –, reproduzindo, na sua maioria, o rosto humano ou a figuração de animais.

As delicadas máscaras de veludo, de seda ou de cetim – as mascarilhas –, concebidas para proteger o rosto feminino dos efeitos do Sol, às quais se dava o nome de «lobos» por assustarem as crianças, acabaram por tornar-se também num outro género, mais requintado, de máscara de Carnaval.

Em Portugal, o uso da máscara (ou da «caraça») remonta a data anterior à Inquisição, tendo a sua utilização, por essa época, dado motivo a que diversas pessoas fossem condenadas à fogueira. Somente no reinado de D. João V (século XVIII) a máscara volta a ser permitida no nosso País, graças aos grandes bailes da corte, a opor o Carnaval de palácio – propiciado pelo ouro do Brasil – ao tradicional, sujo e desordeiro Carnaval de rua.

A função da máscara nas festas da Antiguidade, ao manifestar-se por um cariz profiláctico e expurgatório, fazia com que ao mascarado coubesse a missão de expulsar da Natureza e das populações «os maus espíritos e o mal em geral».

Com o tempo, essa tendência associou-se à própria articulação do Carnaval, onde a intenção de purificar ou libertar os pecados dos homens e do Mundo se pode observar nos jogos carnavalescos de purificação social, adaptados a práticas rituais satíricas e burlescas, numa tentativa de excomungar o mal das comunidades, procedendo à sua punição pelo acto do antigo «arremesso» – atirar cinza, farinha, ovos, laranjas, água, etc. – dos «julgamentos» e afins, pondo a descoberto na praça pública a vida de cada um, até terminar com a «Queima do Entrudo», numa alusão à punição e purificação de toda uma sociedade.

Outra vertente relacionada com a máscara, a cargo dos mascarados, diz respeito ao seu sentido propiciatório ou apelativo em função da fecundidade da própria Natureza, em abono da fertilidade e da abundância no momento da viragem do ciclo agrário: o final do Inverno e a chegada da Primavera. Associada ainda ao antigo culto dos mortos, a máscara mantém até aos nossos dias a sua função profana, articulando-se a sua utilização, paralelamente, com manifestações onde imperam as danças, os repastos, os peditórios, as punições e as apelações.

Desde tempos primitivos ligada também a forças ou intenções extraordinárias ou sobrenaturais, relacionadas com o solstício do Inverno, que acontece a 22 de Dezembro, quando o Sol inicia a sua fase ascendente deixando para trás a obscuridade – fase conotada como propícia ao regresso das almas dos defuntos, para gratificarem ou castigarem os vivos –, cabe nesta ocasião ao mascarado, ou à máscara, o papel de elemento catalisador ou de ligação entre uns e os outros, no sentido da harmonia e do entendimento pela consumação de práticas a que não são alheios o exorcismo e a magia, numa relação entre os vivos e o mundo espiritual.

É nessa perspectiva de elemento superior e fantástico, possuidor de dons especiais, que a presença do mascarado se torna fundamental, por purificadora, quando efectua visitas rituais às casas dos habitantes das localidades, participa em manducações conjuntas, recebe ofertas ou procede a censuras ou julgamentos públicos das pessoas e das respectivas comunidades, assumindo, plenamente, a sua função, tradicionalmente mantida ao longo dos séculos.

Daí, continuarem a verificar-se os «assaltos» combinados entre amigos, em que grupos de mascarados se reúnem em casa de um deles, nos dias de Carnaval, para brincar, comer e beber em conjunto, a manter a intenção profiláctica de tempos imemoriais. Ainda que, estes «assaltos» pacíficos, possam constituir uma lembrança dos efectuados outrora, em que as pessoas ao abrirem incautamente as portas das suas casas aos mascarados, eram espoliadas dos seus bens ou prejudicadas pela sua gratuita destruição ou conspurcação, com a casa cheia de farinha, cal ou cinza.

Baco ou Dioniso, deus do vinho, adorado pelos Romanos e pelos Gregos, era indigitado, igualmente, como deus da máscara. Por outro lado, a máscara é também referida como eventual resquício das «mascaradas de Artémis», deusa grega da caça e da natureza selvagem – assimilada à Diana dos Romanos –, que se realizavam no seu templo, quando decorriam os rituais de iniciação das suas sacerdotisas, em que as jovens se apresentavam mascaradas.

Com o tempo, outra figuração se foi impondo como símbolo de um Carnaval universal: a do «Rei Momo» ou «Rei do Carnaval», não raras vezes acompanhado da sua «Rainha». Sob a égide de Momo, desenrolam-se quase todos os importantes festejos carnavalescos, como os grandes corsos ou cortejos, que desfilam pelas ruas nesta quadra do ano.

Deus da alegria, da folgança e do riso, nascido da Fartura e do Vigor, Momo tinha a função de animar os banquetes dos deuses no Olimpo. O seu companheiro inseparável era Como, deus da comida e da bebida, filho do Apetite e da Sede, que presidia, juntamente com Momo, aos referidos banquetes. Considerados divindades da família, eram invocados na Antiguidade no início dos banquetes. Em primeiro lugar Como, deus dos prazeres da mesa, gastrónomo e bebedor, seguido de Momo, deus das frases oportunas e espirituosas, da troça e dos ditos maliciosos.    

Os adoradores de Como para honrarem a sua devoção, excediam-se nos alimentos e nas bebidas, os seguidores de Momo reuniam-se em grupos mais ou menos numerosos e saíam à rua, organizando brincadeiras e fazendo o maior barulho possível. E, naturalmente, por via da máscara, da alegria, da folgança e do riso, tornou-se Momo o patrono do Carnaval.

 

Soledade Martinho Costa

               

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.II

Ed. Círculo de Leitores

 

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Domingo, 15 de Janeiro de 2017

TODOS OS LUGARES SÃO TEUS

The Rose garden.jpg

Ninguém sabe onde te escondes

Ou aonde te demoras

Todos os lugares são teus

Dás nome a todas as coisas.

 

És o rumo dos caminhos

Entre o destino e a poeira

Mas sempre o ponto de encontro

Que busco à minha maneira.

 

Aqui estou à tua espera

Do lado de cá do muro

Sem passado, sem presente

À mercê do meu futuro.

 

Só tu levas o meu sono

Feito de gelo e fogueira

Quisera estalar os dedos

E esquecer-te sem que eu queira.

 

Dar a mão a outra mão

Mesmo que desconhecida

Dividir o que não tenho

Ser a parte de outra vida.

 

Penhorar o mar e a Terra

Vestir o olhar de Sol

Procurar nas madrugadas

Um poema, uma canção.

 

Encontrar uma razão

Feita de esperas e sonhos

E depois dizer que não

Ao desencontro das horas.

 

Voltar sem pressa outra vez

A percorrer o relógio

E ver-te todas as vezes

Nos quatro cantos do mundo.

 

Quando achar novas de ti

Quem tu és e porque tardas

Visto um hábito de monge

Ato o cordão à cintura

E solto as palavras todas

Caladas, à tua espera

Neste meu poço sem fundo.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro a publicar «Um Piano ao Fim da Tarde» 

Tela: Christian Schloe 

publicado por sarrabal às 20:13
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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017

BOLO-REI - ORIGENS

BOLOREI.jpg

O Dia de Reis baptiza o manjar cerimonial da doçaria alimentar desta data: o «Bolo-rei», espécie de pão doce recheado e enfeitado com frutos secos e cristalizados, cuja tradição se espalhou por quase toda a Europa e alguns países da América (particularmente da América Latina).

 

Supostamente, a resultar do bolo janual, que os Romanos ofereciam e trocavam entre si nas festas do primeiro dia do Ano Novo. Ao bolo juntavam um ramo de verdura colhido num bosque dedicado à deusa Strénia ou Strena.

 

Do nome da deusa resultará o vocábulo francês étrenne  (que significa «presente de Ano Novo») e a palavra «estreias», termo que, em certas localidades do nosso país, continua a utilizar-se para definir o acto de oferecer presentes de «boas festas» («dar as estreias»).

 

Se recuarmos no tempo, deparamos com as «estreias» (atrenua) relacionadas com mascaradas, banquetes, jogos e outras celebrações, realizadas pelos povos pagãos. Daí, no Concílio de Tours, em 567, ter sido sugerido que as «estreias» pagãs dessem lugar «às esmolas de carácter cristão e litúrgico», de modo a atenuar os vestígios do politeísmo.

 

Ao bolo janual e ao ramo de verdura acrescentavam os Romanos pequenas lembranças (tâmaras, figos, mel), com votos de bom ano, paz e felicidade. Este costume tornou-se depois mais exigente, acabando o oiro e a prata por substituir os singelos presentes.

 

Em diversos países foi hábito durante muito tempo introduzir no bolo uma pequena cruz de porcelana (que se juntava à fava, símbolo da fortuna), substituída depois por minúsculas figurinhas humanas.

 

Associados à quadra natalícia, mais propriamente ao chamado «Ciclo dos Doze dias» (que medeia o Natal e o Dia de Reis), vamos encontrar as «janeiras» e os «reis», que representam peditórios cantados na noite de Natal, de Ano Novo e de Reis.

  

Herança provável das próprias strenas romanas, a entoação dos cânticos tem por finalidade receber dádivas, que se revestem de um carácter alusivo e propiciatório, a remeter-nos, como noutras celebrações, para tempos remotos, em que se celebravam deuses e divindades pagãs ou eram pedidas ou oferecidas dádivas no início do ano comum, símbolo de bom augúrio, quer para quem as pedia, quer para quem as doava.  

 

O costume, espalhado por toda a Europa em países como Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha, entre outros, continua a efectuar-se, com os seus seculares cânticos de religiosidade popular e festiva.

  

Formados por grupos de homens e mulheres, os «janeireiros» e «reiseiros», acompanhados ou não por músicos, percorrem os lugares, de porta em porta, a pedir oferendas em troca da entoação das «loas» ao Menino, às Janeiras e aos Reis. «Cantar os Reis», «Esperar os Reis», «Correr os Reis» ou «Tirar os Reis», são as denominações decorrentes destas praxes.

 

Também as «Reisadas» e as «Chocalhadas» se articulam no mesmo contexto, não deixando, ainda hoje, de fazer a sua aparição pelas nossas vilas, aldeias e lugarejos. As primeiras, constituídas por grupos (mais aproximadas às «Janeiras»), apresentam maior incidência na Beira Baixa, Estremadura e Ribatejo, embora façam a sua aparição noutras zonas do país. As segundas, efectuadas igualmente por grupos, têm por finalidade a barulheira e a gritaria festivas, com o bater de latas e outros objectos barulhentos e o soar de campainhas, chocas e chocalhos, enquanto procedem ao tradicional peditório «para os Reis». Noutros casos, o mesmo género de grupo limita-se à barulheira, omitindo as dádivas.

 

Com esta função, pretende-se, uma vez mais, pelo barulho, afugentar o mal e obter benefícios propiciatórios e profilácticos (à semelhança do ritual da noite da passagem de ano, com o bater de latas, de panelas, etc.)  As «Chocalhadas» levam-nos às Sigilárias ou Festas Sigilares de Roma (sigilar de «fechar», em alusão ao «fechar do Ano Velho»), realizadas no primeiro dia de Janeiro, em que se fazia enorme barulho à porta de casa de cada um.

 

Igualmente provável é a celebração dos Reis resultar de antigos rituais ligados ao culto dos politeístas solares e da sua festa de consagração da luz do Sol no solstício de Dezembro, efectuada no Egipto sob o título Festum Osirid nati, ou Inventio Osirid, em data correpondente ao nosso 6 de Janeiro, designada pelos Judeus como Festa das Luzes ou Khanu Ka.

 

Há ainda quem sustente ter a comemoração do «Dia de Reis» origem nas festas romanas em honra de Jano (de onde provém o nome de Janeiro), o deus das duas faces: uma voltada para o passado, a outra para o futuro.

 

Soledade Martinho Costa

 

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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2017

A VIAGEM DOS TRÊS REIS MAGOS

 

A Viagem dos Magos, Jacques-Joseph Tissot.jpg

Segundo São Mateus – o único entre São Marcos, São Lucas e São João que narra o episódio dos Magos no Evangelho –, os três Reis Magos terão tido uma conversa com Heródes, que não se repetiu, visto, em sonhos, terem sido avisados para o não tornarem a fazer.

 

Conforme a tradição, ao chegarem a Jerusalém, os três Reis Magos não hesitaram em perguntar na corte de Heródes pelo recém-nascido, Rei dos Judeus. Pergunta que a todos surpreendeu e sobressaltou. Informados pelo próprio Heródes de que o Menino se encontrava em Belém, para lá se dirigiram, levados, de novo, pela estrela que os havia conduzido até à capital de Israel. Estrela que tinha desaparecido e voltado a surgir, para levá-los, agora, até à humilde casa onde, perante um modesto berço, depositaram os seus presentes.

 

Essa terá sido a conversa a que se refere São Mateus. Quanto ao aviso dos sonhos, apontava para que os Magos «regressassem às suas terras do Oriente, pelo vale e campo dos Pastores, atravessando o rio Jordão, perto da foz, no Mar Morto, de modo a evitar o caminho da capital, pois Heródes tencionava matá-los».

 

Como se sabe, foi Heródes Antipas, tetrarca da Galileia, quem julgou e condenou Jesus Cristo – que lhe fora mandado para esse fim por Pôncio Pilatos, governador da Judeia –, embora sabendo que Jesus Cristo não era culpado de crime algum.

 

Para fazer compreender aos judeus que lhes deixava a responsabilidade pela morte de Jesus, Pilatos mandou vir água, nela lavou as mãos e disse: «Estou inocente da morte desse homem.» Resultando dessa frase a expressão «lavo daí as minhas mãos», sempre que alguém declina responsabilidades face a determinado acto.

 

E foi por caminho inverso àquele que os levou até Jerusalém, que os três Reis Magos regressaram aos seus países de origem, para depois mais honrarem e glorificarem a Cristo, pregando e transmitindo a sua fé aos respectivos povos.

 

Segundo se supõe, os Magos, certamente gentios, adoravam o verdadeiro Deus, conhecendo também algo da religião do Antigo Testamento. Viviam, tudo o indica, no plano elevado do espírito, preparados no amor a Deus e à verdade que buscavam, os fortalecia e alentava, pois só assim se compreende que tenham iniciado uma tão longa viagem a terra estranha, onde o perigo constantemente os ameaçava.

 

Da sua verdadeira proveniência, com rigor e exactidão, pouco se sabe, nem os documentos antigos nos garantem coisa alguma. Uma das hipóteses para a sua pátria provável será a Arábia, célebre pelo incenso e pela mirra. Numa outra versão, por certo mais lendária, os Três Reis Magos seriam três irmãos vindos não apenas do Médio Oriente, mas também do Egipto e da Índia.

 

Em várias catacumbas romanas é frequente a representação dos Magos em pintura, embora sem identificação de nacionalidade ou de carácter pessoal. Na catacumba romana de Priscila, numa pintura do século II, aparecem de cabeça descoberta, transportando os seus presentes, junto a Nossa Senhora. Umas vezes figuram com longas capas ou mantos e outras de túnicas curtas e com gorros frígios (da antiga região do Centro da Ásia Menor) nas cabeças, sempre em grupo de três.

 

Mito ou veracidade, terá existido um livro, pertença de um povo radicado no Oriente, no qual se falava numa estrela e nos presentes que deveriam ser oferecidos a um Menino que viria a nascer.

 

Foram então escolhidos doze dos mais sábios homens desse povo, ligados à observação dos astros e ao estudo dos mistérios celestes, da adivinhação e da interpretação dos sonhos, que se constituíam numa respeitada classe sacerdotal da Média (antiga região da Ásia) e da Pérsia, para que se encarregassem de vigiar e aguardar a estrela anunciada.

 

Este facto vem confirmar as palavras de São Mateus: «Os Magos são homens sábios, zelosos, executores da justiça e da virtude, investigadores curiosos dos fenómenos celestes e praticantes sinceros da religião e do culto verdadeiro de Deus».

 

Apelidados de Magos, a sua vida a partir daí foi passada a orar e a esperar. Se um deles falecia, logo era substituído por um dos seus filhos, assim acontecendo até ao dia em que, finalmente, uma estrela surgiu no céu diferente das outras em tamanho e luz. Por sua indicação seguiram os Magos até Belém, na Judeia, onde adoraram a Cristo recém-nascido, num tosco estábulo, deitado sobre palhas, entre pastores e mansos animais.

  

O número de Magos foi entretanto reduzido de doze para três, por São Leão, o Grande – papa que salvou Roma da invasão de Átila, rei dos Hunos, povo bárbaro das margens do mar Cáspio. Por seu lado, Tertuliano, doutor da Igreja, acrescentava, no século III, à sua designação de Magos o título de Reis.

 

Soledade Martinho Costa

 

Tela: Jacques-Joseph Tissot

publicado por sarrabal às 23:51
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016

FELIZ NATAL E BOM NOVO ANO 2017

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 São os meus votos a todos os leitores do «Sarrabal».

SMC

publicado por sarrabal às 02:17
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OUTROS NATAIS

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Onde a magia dos Natais de outrora

O presépio dos olhos da infância

São José, a Virgem, o Menino

Figuras modeladas

Quase gente

A mostrar-se ao espanto

Dos pastores que vinham

Em fila pelo musgo dos caminhos

Para ofertar cordeiros e presentes.

 

Onde a azáfama do rumor das mãos

Nos alguidares de barro onde a farinha

A abóbora, os ovos, o fermento

Tomavam forma e gosto tão distantes.

 

Aonde o sono arredio que não vinha

Nessa Noite Sagrada em que os pinheiros

Choram saudades de bosques e de estrelas

Sob a caruma de luzes e de enfeites.

 

Onde o mistério que seguia os passos

Dos adultos no ranger das tábuas

Em nossos passos furtivos de criança

Na ânsia de encontrar em qualquer canto

De barbas e de saco o Pai Natal.

 

Quantos Natais assim em que a Família

Se reunia inteira à grande mesa

Da sala de jantar tão velha e gasta

Mas que nessa noite por magia

Transformava em cristal os vidros baços.

 

Quantos presépios retidos na memória

Quantos aromas ainda a Consoada

Quantos sons a deixar nos meus ouvidos

Os risos, os beijos, os abraços.

 

Quantas imagens cingidas na penumbra

Desta lembrança que se fez saudade

Dos rostos, dos gestos, das palavras

Na lonjura das vozes e da Casa.

 

Noite Divina em que torno a ser criança

Ante o meu olhar adulto e me desperto

Na emoção que nos traz os anos:

 

O meu Natal é hoje mais concreto

Mas muito menos belo e mais deserto.

 

Soledade Martinho Costa

 

publicado por sarrabal às 02:12
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UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - O AZEVINHO

Ilex1.jpg

A manhã alonga o passo pelos campos fora. E não se detém. Na pressa de chegar ao fim do dia nem sequer repara no tapete de azedinha e de trevilho, lado a lado, como dois bons amigos que muito se prezam. Onde está um, está o outro. O trevo-dos-prados no anseio de nascer com quatro folhas, para dar sorte à mão que o descobrir. As azedas a enfeitá-lo de amarelo, nas pétalas que fecham ao entardecer.

Mas o azevinho também marca encontro nesta altura do ano. Num emaranhado de picos e segredos, contente por se saber esperado, desponta pelas toiças a mostrar as bagas vermelhas na folha envernizada – que há-de enfeitar Dezembro, quando for Natal.

À noite, colocado sobre a mesa da Consoada, simboliza «o espírito da reunião familiar» e «a celebração da união da família». E ele sabe. E fica feliz por merecer uma tal distinção!

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 02:05
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OUTRO MILAGRE

Aleppo, Zordi Bernabeu Farrús.jpg

De pedra

Colmo

Tábuas

Papelão

Sob telhados de zinco

Ou telha vã

Eis os estábulos

As grutas

Os abrigos

Onde nascem e dormem

Os meninos nus

Há mais de dois milénios.

 

Herdeiros de um legado

Instituído por decreto-lei

Réplicas

De outro Menino

Que o Anjo anunciou

Nascido na lapinha de Belém

Não têm a seus pés

Pastores nem reis

Dormem

Dormem, simplesmente

Pelos presépios

Adorados por ninguém.

 

Nas reservas surdas

Ao apelo das florestas

No fogo das areias

Onde a terra se nutre

Das almas e dos corpos

Nos ghettos onde o leite

Nos seios seca

Ao explodir das bombas

Nos bairros marginais

Nos prédios em ruínas

Nos quartos alugados

Nos tugúrios onde não chega

A Estrela Peregrina.

 

Templos sagrados

Onde as mães

Esvaído o ulo vaginal

Debruçam sobre o ventre as mãos

Cortando aos filhos

Esquecidos

Humilhados

Sem pão

Amparo ou pátria

O cordão umbilical.

 

Talvez para que fujam

E repetido seja outro milagre

À revelia dos homens

Como então.

 

Soledade Martinho Costa

 

Foto: Zordi Bernabeu Farrús (Aleppo)

publicado por sarrabal às 01:55
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«SEARINHAS» DE NATAL

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Associadas à quadra natalícia, as «searinhas», «cabeleiras», «centeiinhas», «tacinhas de Adónis» ou «searas de Jesus», aparecem, sobretudo, nas zonas rurais, colocadas junto dos oratórios e presépios erguidos em casa, nas capelas e igrejas, oferecidas ao Menino Deus com o pedido de «boas colheitas».

 

Semeadas três semanas ou um mês antes do Natal, utilizam-se para a sua germinação bagos de trigo, milho, aveia e outros cereais, humedecidos em pequenos recipientes mantidos, quer ou não, ao abrigo da luz.

 

Mas também em terras de gente do mar (caso de Olhão, e um pouco por todo o Algarve) a tradição se mantém, procedendo-se à sementeira das «searinhas», em pratos ou taças, no dia 8 de Dezembro (com trigo, centeio, linhaça, ervilhaca ou grão-de-bico). Na véspera de Natal as «searinhas» estão prontas e «arma-se o Menino», ou seja, dispõem-se, quase sempre sobre uma mesa, coberta com uma toalha branca, bordada ou de renda,  várias caixas em degrau, de cartão ou de madeira, forradas conforme o gosto, ou enfeitadas com paninhos brancos bordados.

 

No lugar mais alto dessa espécie de trono coloca-se então a imagem do Deus Menino e pelos degraus do trono dispersam-se as «searinhas», alternadas com laranjas. Este, o presépio mais tradicional, embora surjam outras variantes ao gosto de cada um. O mesmo género de presépio verifica-se na ilha da Madeira, tomando ali o popular nome de «lapinha».

   

As «searinhas» aparecem ligadas a diversas ocasiões cíclicas festivas, religiosas ou não, caso das celebrações do Divino Espírito Santo, dos Santos de Junho (particularmente a São João) e do Carnaval – a lembrar que já na Antiguidade as mulheres da Frigia as semeavam por alturas especiais, levando-as em recipientes a germinarem ao sol, para ficarem verdes, enquanto entre nós, se apresentam, por vezes, esbranquiçadas, devido à germinação ter o seu processo em local sem luz.

 

Soledade Martinho Costa

  

 

publicado por sarrabal às 01:49
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