Domingo, 15 de Janeiro de 2017

TODOS OS LUGARES SÃO TEUS

The Rose garden.jpg

Ninguém sabe onde te escondes

Ou aonde te demoras

Todos os lugares são teus

Dás nome a todas as coisas.

 

És o rumo dos caminhos

Entre o destino e a poeira

Mas sempre o ponto de encontro

Que busco à minha maneira.

 

Aqui estou à tua espera

Do lado de cá do muro

Sem passado, sem presente

À mercê do meu futuro.

 

Só tu levas o meu sono

Feito de gelo e fogueira

Quisera estalar os dedos

E esquecer-te sem que eu queira.

 

Dar a mão a outra mão

Mesmo que desconhecida

Dividir o que não tenho

Ser a parte de outra vida.

 

Penhorar o mar e a Terra

Vestir o olhar de Sol

Procurar nas madrugadas

Um poema, uma canção.

 

Encontrar uma razão

Feita de esperas e sonhos

E depois dizer que não

Ao desencontro das horas.

 

Voltar sem pressa outra vez

A percorrer o relógio

E ver-te todas as vezes

Nos quatro cantos do mundo.

 

Quando achar novas de ti

Quem tu és e porque tardas

Visto um hábito de monge

Ato o cordão à cintura

E solto as palavras todas

Caladas, à tua espera

Neste meu poço sem fundo.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro a publicar «Um Piano ao Fim da Tarde» 

Tela: Christian Schloe 

publicado por sarrabal às 20:13
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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017

BOLO-REI - ORIGENS

BOLOREI.jpg

O Dia de Reis baptiza o manjar cerimonial da doçaria alimentar desta data: o «Bolo-rei», espécie de pão doce recheado e enfeitado com frutos secos e cristalizados, cuja tradição se espalhou por quase toda a Europa e alguns países da América (particularmente da América Latina).

 

Supostamente, a resultar do bolo janual, que os Romanos ofereciam e trocavam entre si nas festas do primeiro dia do Ano Novo. Ao bolo juntavam um ramo de verdura colhido num bosque dedicado à deusa Strénia ou Strena.

 

Do nome da deusa resultará o vocábulo francês étrenne  (que significa «presente de Ano Novo») e a palavra «estreias», termo que, em certas localidades do nosso país, continua a utilizar-se para definir o acto de oferecer presentes de «boas festas» («dar as estreias»).

 

Se recuarmos no tempo, deparamos com as «estreias» (atrenua) relacionadas com mascaradas, banquetes, jogos e outras celebrações, realizadas pelos povos pagãos. Daí, no Concílio de Tours, em 567, ter sido sugerido que as «estreias» pagãs dessem lugar «às esmolas de carácter cristão e litúrgico», de modo a atenuar os vestígios do politeísmo.

 

Ao bolo janual e ao ramo de verdura acrescentavam os Romanos pequenas lembranças (tâmaras, figos, mel), com votos de bom ano, paz e felicidade. Este costume tornou-se depois mais exigente, acabando o oiro e a prata por substituir os singelos presentes.

 

Em diversos países foi hábito durante muito tempo introduzir no bolo uma pequena cruz de porcelana (que se juntava à fava, símbolo da fortuna), substituída depois por minúsculas figurinhas humanas.

 

Associados à quadra natalícia, mais propriamente ao chamado «Ciclo dos Doze dias» (que medeia o Natal e o Dia de Reis), vamos encontrar as «janeiras» e os «reis», que representam peditórios cantados na noite de Natal, de Ano Novo e de Reis.

  

Herança provável das próprias strenas romanas, a entoação dos cânticos tem por finalidade receber dádivas, que se revestem de um carácter alusivo e propiciatório, a remeter-nos, como noutras celebrações, para tempos remotos, em que se celebravam deuses e divindades pagãs ou eram pedidas ou oferecidas dádivas no início do ano comum, símbolo de bom augúrio, quer para quem as pedia, quer para quem as doava.  

 

O costume, espalhado por toda a Europa em países como Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha, entre outros, continua a efectuar-se, com os seus seculares cânticos de religiosidade popular e festiva.

  

Formados por grupos de homens e mulheres, os «janeireiros» e «reiseiros», acompanhados ou não por músicos, percorrem os lugares, de porta em porta, a pedir oferendas em troca da entoação das «loas» ao Menino, às Janeiras e aos Reis. «Cantar os Reis», «Esperar os Reis», «Correr os Reis» ou «Tirar os Reis», são as denominações decorrentes destas praxes.

 

Também as «Reisadas» e as «Chocalhadas» se articulam no mesmo contexto, não deixando, ainda hoje, de fazer a sua aparição pelas nossas vilas, aldeias e lugarejos. As primeiras, constituídas por grupos (mais aproximadas às «Janeiras»), apresentam maior incidência na Beira Baixa, Estremadura e Ribatejo, embora façam a sua aparição noutras zonas do país. As segundas, efectuadas igualmente por grupos, têm por finalidade a barulheira e a gritaria festivas, com o bater de latas e outros objectos barulhentos e o soar de campainhas, chocas e chocalhos, enquanto procedem ao tradicional peditório «para os Reis». Noutros casos, o mesmo género de grupo limita-se à barulheira, omitindo as dádivas.

 

Com esta função, pretende-se, uma vez mais, pelo barulho, afugentar o mal e obter benefícios propiciatórios e profilácticos (à semelhança do ritual da noite da passagem de ano, com o bater de latas, de panelas, etc.)  As «Chocalhadas» levam-nos às Sigilárias ou Festas Sigilares de Roma (sigilar de «fechar», em alusão ao «fechar do Ano Velho»), realizadas no primeiro dia de Janeiro, em que se fazia enorme barulho à porta de casa de cada um.

 

Igualmente provável é a celebração dos Reis resultar de antigos rituais ligados ao culto dos politeístas solares e da sua festa de consagração da luz do Sol no solstício de Dezembro, efectuada no Egipto sob o título Festum Osirid nati, ou Inventio Osirid, em data correpondente ao nosso 6 de Janeiro, designada pelos Judeus como Festa das Luzes ou Khanu Ka.

 

Há ainda quem sustente ter a comemoração do «Dia de Reis» origem nas festas romanas em honra de Jano (de onde provém o nome de Janeiro), o deus das duas faces: uma voltada para o passado, a outra para o futuro.

 

Soledade Martinho Costa

 

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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2017

A VIAGEM DOS TRÊS REIS MAGOS

 

A Viagem dos Magos, Jacques-Joseph Tissot.jpg

Segundo São Mateus – o único entre São Marcos, São Lucas e São João que narra o episódio dos Magos no Evangelho –, os três Reis Magos terão tido uma conversa com Heródes, que não se repetiu, visto, em sonhos, terem sido avisados para o não tornarem a fazer.

 

Conforme a tradição, ao chegarem a Jerusalém, os três Reis Magos não hesitaram em perguntar na corte de Heródes pelo recém-nascido, Rei dos Judeus. Pergunta que a todos surpreendeu e sobressaltou. Informados pelo próprio Heródes de que o Menino se encontrava em Belém, para lá se dirigiram, levados, de novo, pela estrela que os havia conduzido até à capital de Israel. Estrela que tinha desaparecido e voltado a surgir, para levá-los, agora, até à humilde casa onde, perante um modesto berço, depositaram os seus presentes.

 

Essa terá sido a conversa a que se refere São Mateus. Quanto ao aviso dos sonhos, apontava para que os Magos «regressassem às suas terras do Oriente, pelo vale e campo dos Pastores, atravessando o rio Jordão, perto da foz, no Mar Morto, de modo a evitar o caminho da capital, pois Heródes tencionava matá-los».

 

Como se sabe, foi Heródes Antipas, tetrarca da Galileia, quem julgou e condenou Jesus Cristo – que lhe fora mandado para esse fim por Pôncio Pilatos, governador da Judeia –, embora sabendo que Jesus Cristo não era culpado de crime algum.

 

Para fazer compreender aos judeus que lhes deixava a responsabilidade pela morte de Jesus, Pilatos mandou vir água, nela lavou as mãos e disse: «Estou inocente da morte desse homem.» Resultando dessa frase a expressão «lavo daí as minhas mãos», sempre que alguém declina responsabilidades face a determinado acto.

 

E foi por caminho inverso àquele que os levou até Jerusalém, que os três Reis Magos regressaram aos seus países de origem, para depois mais honrarem e glorificarem a Cristo, pregando e transmitindo a sua fé aos respectivos povos.

 

Segundo se supõe, os Magos, certamente gentios, adoravam o verdadeiro Deus, conhecendo também algo da religião do Antigo Testamento. Viviam, tudo o indica, no plano elevado do espírito, preparados no amor a Deus e à verdade que buscavam, os fortalecia e alentava, pois só assim se compreende que tenham iniciado uma tão longa viagem a terra estranha, onde o perigo constantemente os ameaçava.

 

Da sua verdadeira proveniência, com rigor e exactidão, pouco se sabe, nem os documentos antigos nos garantem coisa alguma. Uma das hipóteses para a sua pátria provável será a Arábia, célebre pelo incenso e pela mirra. Numa outra versão, por certo mais lendária, os Três Reis Magos seriam três irmãos vindos não apenas do Médio Oriente, mas também do Egipto e da Índia.

 

Em várias catacumbas romanas é frequente a representação dos Magos em pintura, embora sem identificação de nacionalidade ou de carácter pessoal. Na catacumba romana de Priscila, numa pintura do século II, aparecem de cabeça descoberta, transportando os seus presentes, junto a Nossa Senhora. Umas vezes figuram com longas capas ou mantos e outras de túnicas curtas e com gorros frígios (da antiga região do Centro da Ásia Menor) nas cabeças, sempre em grupo de três.

 

Mito ou veracidade, terá existido um livro, pertença de um povo radicado no Oriente, no qual se falava numa estrela e nos presentes que deveriam ser oferecidos a um Menino que viria a nascer.

 

Foram então escolhidos doze dos mais sábios homens desse povo, ligados à observação dos astros e ao estudo dos mistérios celestes, da adivinhação e da interpretação dos sonhos, que se constituíam numa respeitada classe sacerdotal da Média (antiga região da Ásia) e da Pérsia, para que se encarregassem de vigiar e aguardar a estrela anunciada.

 

Este facto vem confirmar as palavras de São Mateus: «Os Magos são homens sábios, zelosos, executores da justiça e da virtude, investigadores curiosos dos fenómenos celestes e praticantes sinceros da religião e do culto verdadeiro de Deus».

 

Apelidados de Magos, a sua vida a partir daí foi passada a orar e a esperar. Se um deles falecia, logo era substituído por um dos seus filhos, assim acontecendo até ao dia em que, finalmente, uma estrela surgiu no céu diferente das outras em tamanho e luz. Por sua indicação seguiram os Magos até Belém, na Judeia, onde adoraram a Cristo recém-nascido, num tosco estábulo, deitado sobre palhas, entre pastores e mansos animais.

  

O número de Magos foi entretanto reduzido de doze para três, por São Leão, o Grande – papa que salvou Roma da invasão de Átila, rei dos Hunos, povo bárbaro das margens do mar Cáspio. Por seu lado, Tertuliano, doutor da Igreja, acrescentava, no século III, à sua designação de Magos o título de Reis.

 

Soledade Martinho Costa

 

Tela: Jacques-Joseph Tissot

publicado por sarrabal às 23:51
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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016

FELIZ NATAL E BOM NOVO ANO 2017

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 São os meus votos a todos os leitores do «Sarrabal».

SMC

publicado por sarrabal às 02:17
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OUTROS NATAIS

Cópia de Cópia de IMG_3686.jpg

Onde a magia dos Natais de outrora

O presépio dos olhos da infância

São José, a Virgem, o Menino

Figuras modeladas

Quase gente

A mostrar-se ao espanto

Dos pastores que vinham

Em fila pelo musgo dos caminhos

Para ofertar cordeiros e presentes.

 

Onde a azáfama do rumor das mãos

Nos alguidares de barro onde a farinha

A abóbora, os ovos, o fermento

Tomavam forma e gosto tão distantes.

 

Aonde o sono arredio que não vinha

Nessa Noite Sagrada em que os pinheiros

Choram saudades de bosques e de estrelas

Sob a caruma de luzes e de enfeites.

 

Onde o mistério que seguia os passos

Dos adultos no ranger das tábuas

Em nossos passos furtivos de criança

Na ânsia de encontrar em qualquer canto

De barbas e de saco o Pai Natal.

 

Quantos Natais assim em que a Família

Se reunia inteira à grande mesa

Da sala de jantar tão velha e gasta

Mas que nessa noite por magia

Transformava em cristal os vidros baços.

 

Quantos presépios retidos na memória

Quantos aromas ainda a Consoada

Quantos sons a deixar nos meus ouvidos

Os risos, os beijos, os abraços.

 

Quantas imagens cingidas na penumbra

Desta lembrança que se fez saudade

Dos rostos, dos gestos, das palavras

Na lonjura das vozes e da Casa.

 

Noite Divina em que torno a ser criança

Ante o meu olhar adulto e me desperto

Na emoção que nos traz os anos:

 

O meu Natal é hoje mais concreto

Mas muito menos belo e mais deserto.

 

Soledade Martinho Costa

 

publicado por sarrabal às 02:12
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UM OLHAR SOBRE A PAISAGEM - O AZEVINHO

Ilex1.jpg

A manhã alonga o passo pelos campos fora. E não se detém. Na pressa de chegar ao fim do dia nem sequer repara no tapete de azedinha e de trevilho, lado a lado, como dois bons amigos que muito se prezam. Onde está um, está o outro. O trevo-dos-prados no anseio de nascer com quatro folhas, para dar sorte à mão que o descobrir. As azedas a enfeitá-lo de amarelo, nas pétalas que fecham ao entardecer.

Mas o azevinho também marca encontro nesta altura do ano. Num emaranhado de picos e segredos, contente por se saber esperado, desponta pelas toiças a mostrar as bagas vermelhas na folha envernizada – que há-de enfeitar Dezembro, quando for Natal.

À noite, colocado sobre a mesa da Consoada, simboliza «o espírito da reunião familiar» e «a celebração da união da família». E ele sabe. E fica feliz por merecer uma tal distinção!

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Histórias que o Inverno me Contou”

Ed. Publicações Europa-América

 

publicado por sarrabal às 02:05
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OUTRO MILAGRE

Aleppo, Zordi Bernabeu Farrús.jpg

De pedra

Colmo

Tábuas

Papelão

Sob telhados de zinco

Ou telha vã

Eis os estábulos

As grutas

Os abrigos

Onde nascem e dormem

Os meninos nus

Há mais de dois milénios.

 

Herdeiros de um legado

Instituído por decreto-lei

Réplicas

De outro Menino

Que o Anjo anunciou

Nascido na lapinha de Belém

Não têm a seus pés

Pastores nem reis

Dormem

Dormem, simplesmente

Pelos presépios

Adorados por ninguém.

 

Nas reservas surdas

Ao apelo das florestas

No fogo das areias

Onde a terra se nutre

Das almas e dos corpos

Nos ghettos onde o leite

Nos seios seca

Ao explodir das bombas

Nos bairros marginais

Nos prédios em ruínas

Nos quartos alugados

Nos tugúrios onde não chega

A Estrela Peregrina.

 

Templos sagrados

Onde as mães

Esvaído o ulo vaginal

Debruçam sobre o ventre as mãos

Cortando aos filhos

Esquecidos

Humilhados

Sem pão

Amparo ou pátria

O cordão umbilical.

 

Talvez para que fujam

E repetido seja outro milagre

À revelia dos homens

Como então.

 

Soledade Martinho Costa

 

Foto: Zordi Bernabeu Farrús (Aleppo)

publicado por sarrabal às 01:55
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«SEARINHAS» DE NATAL

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Associadas à quadra natalícia, as «searinhas», «cabeleiras», «centeiinhas», «tacinhas de Adónis» ou «searas de Jesus», aparecem, sobretudo, nas zonas rurais, colocadas junto dos oratórios e presépios erguidos em casa, nas capelas e igrejas, oferecidas ao Menino Deus com o pedido de «boas colheitas».

 

Semeadas três semanas ou um mês antes do Natal, utilizam-se para a sua germinação bagos de trigo, milho, aveia e outros cereais, humedecidos em pequenos recipientes mantidos, quer ou não, ao abrigo da luz.

 

Mas também em terras de gente do mar (caso de Olhão, e um pouco por todo o Algarve) a tradição se mantém, procedendo-se à sementeira das «searinhas», em pratos ou taças, no dia 8 de Dezembro (com trigo, centeio, linhaça, ervilhaca ou grão-de-bico). Na véspera de Natal as «searinhas» estão prontas e «arma-se o Menino», ou seja, dispõem-se, quase sempre sobre uma mesa, coberta com uma toalha branca, bordada ou de renda,  várias caixas em degrau, de cartão ou de madeira, forradas conforme o gosto, ou enfeitadas com paninhos brancos bordados.

 

No lugar mais alto dessa espécie de trono coloca-se então a imagem do Deus Menino e pelos degraus do trono dispersam-se as «searinhas», alternadas com laranjas. Este, o presépio mais tradicional, embora surjam outras variantes ao gosto de cada um. O mesmo género de presépio verifica-se na ilha da Madeira, tomando ali o popular nome de «lapinha».

   

As «searinhas» aparecem ligadas a diversas ocasiões cíclicas festivas, religiosas ou não, caso das celebrações do Divino Espírito Santo, dos Santos de Junho (particularmente a São João) e do Carnaval – a lembrar que já na Antiguidade as mulheres da Frigia as semeavam por alturas especiais, levando-as em recipientes a germinarem ao sol, para ficarem verdes, enquanto entre nós, se apresentam, por vezes, esbranquiçadas, devido à germinação ter o seu processo em local sem luz.

 

Soledade Martinho Costa

  

 

publicado por sarrabal às 01:49
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COMO SE FOSSE HERODES O MOTIVO

«Madona e menino» (Pormenor), sandro Botticelli. 

Que foi que aconteceu

Jesus?

Eu peço que me digas.

 

Se o meu olhar agora

É mais profundo

Se a minha esperança

É quase uma saudade

E se instalou o medo

Pelo Mundo.

 

Que foi que aconteceu

Jesus

Nesta Noite de Incenso

E Liturgias?

 

Onde estão os pastores

E os seus afagos

Porque vestem de luto

Os Três Reis Magos

Que te oferecem no berço

As mãos vazias?

 

Que foi que aconteceu

Jesus?

Eu peço que me digas.

 

A razão desta angústia

Deste peso

Que em mim se fez prisão

E fez cativo.

 

Desta mágoa

Que me chega ao coração

Como se fosse Heródes o motivo.

 

Desta mágoa

Que me chega ao coração

Em línguas que não falo

Nem conheço.

 

Em línguas

Onde apenas reconheço

Em cada direito violado

Em cada morte

Em cada grito

O choro das crianças

Universal e aflito.

 

Soledade Martinho Costa

 

Tela: «Madona e o Menino» (pormenor), Sandro Botticelli

publicado por sarrabal às 01:47
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Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2016

NATAL - AS FOGUEIRAS DO MENINO

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Um dos rituais que perdura até aos nossos dias, principalmente em Trás-os-Montes, Alto Douro, Beira Alta e Beira Baixa, mas também no Nordeste Transmontano, sendo menor ou mesmo nula a sua tradição a Sul, diz respeito às «Fogueiras do Menino», «Fogueiras da Consoada» ou «Fogueiras do Galo».

 

Sob a influência da Igreja, a fogueira profana de adoração solar dos Romanos, passou a ser cristianizada e a servir de ritual cristão ao culto divino, testemunhado na quadra natalícia a Jesus Cristo – considerado o «verdadeiro símbolo do Sol que vai nascer, para iluminar todo o homem que vem ao Mundo».

 

Costume que se processa quase sempre durante a noite, cabe ainda hoje às raparigas enfeitar as igrejas para a Missa do Galo, enquanto aos rapazes corresponde a tarefa do roubo ritual do «madeiro», do «cepo» ou do «canhoto» – noutros tempos com os interessados em colaborar a serem chamados por essas aldeias com o auxílio de um búzio e a envolverem as rodas dos carros de bois com «baraços» de palha de modo a evitar o barulho, para que tudo se processasse no maior silêncio.   O transporte, conforme a tradição, continua a ser feito, por vezes, em carro roubado ou utilizado sem autorização dos respectivos donos, puxado por animais, ou empurrado pelos próprios rapazes, num específico rito sagrado, embora, actualmente, seja mais vulgar a utilização dos tractores com o respectivo reboque.  Noutros casos, a lenha é roubada dias antes do Natal, ou ao longo do ano, leiloada ou oferecida em promessa. Há mesmo quem a deposite à porta de casa, na intenção de que seja «roubada» pelo grupo que chama a si essa tarefa.

 

Nas fogueiras acesas em casa durante estes dias, verifica-se, na maioria dos casos, idêntico preceito: o de utilizar-se apenas lenha roubada, segundo a crença «para que a lenha assim ardida proteja o lar e a família».

 

Ateadas ao entardecer da véspera de Natal, as fogueiras ardem, geralmente, até ao dia de Reis, no adro das igrejas, segundo o povo «para aquecer o Menino», ficando todos os habitantes do lugar encarregues de manter o lume sempre aceso.

 

Em muitas aldeias e lugares do nosso País, as populações continuam a juntar-se ao redor das «Fogueiras do Menino» para cantar, dançar e comer filhoses, aproveitando o lume do braseiro para assar as febras do porco e saborear as batatas tostadas (cozidas primeiro em potes de barro), como se fazia (ou faz ainda) no Sabugal (Beira Alta).

 

O rito das fogueiras de Natal encontra-se espalhado em muitos países da Europa, casos da França, da Itália e da Inglaterra, entre outros.  Na Antiguidade, o ritual sagrado do fogo, ou lume novo, acontecia por ocasião do solstício do Inverno, com as fogueiras acesas, tendo por intenção que o Sol voltasse a brilhar com maior intensidade, temendo-se, particularmente nas comunidades rurais, que as trevas afastassem definitivamente a luz e o calor, situação que correspondia a um acentuado declínio da luz solar e respectiva diminuição gradual do sistema diurno, até culminar no dia menor do ano – o dia de Natal.

 

Resquícios de festas solsticiais gentílicas, muitas delas acabaram por conservar-se na tradição dos povos, a par das celebrações da liturgia cristã, ocupando um espaço importante que nos foi legado pelas religiões e civilizações antigas, cabendo-nos defendê-lo e preservá-lo, não apenas no que respeita às fogueiras de Natal, mas ainda a outros ritos e festas de carácter etnográfico cíclico, onde se misturam e confundem rituais cristãos e práticas de raiz politeísta e pagã.

 

Por outro lado, segundo alguns autores, sendo o galo considerado um animal solar, é natural que se dê o nome de «Fogueiras do Galo» às fogueiras do Natal e a designação de Missa do Galo à primeira missa da noite de 24 para 25 de Dezembro. Ainda assim, e numa forma mais simplicista, se diz também que muitas pessoas se deslocavam de lugares distantes para assistirem à Missa do Galo. De modo a evitar que voltassem a fazer a caminhada de regresso sem grande repouso e porque não tivessem onde pernoitar, acendia-se para elas o «madeiro». Aconchegadas ao seu calor passavam então o resto da noite, quase sempre muito fria, petiscavam, bebiam, cantavam ao Menino Deus e, mal a manhã rompia, voltavam a suas casas.  

 

Simbolicamente, o «madeiro» poderá representar ainda o próprio Inverno, na intenção de aquecer o Menino Jesus; o «madeiro da Cruz de Cristo» ou «o fogo que desceu dos Céus», referente à iluminação dos Apóstolos pelo Espírito Santo, sob a forma de línguas de fogo, depois da elevação de Jesus Cristo aos Céus.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. VIII

Ed. Círculo de Leitores

Foto:  Pomares, Arganil

publicado por sarrabal às 02:03
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