Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

CANTO DO VENTO

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No sibilar do vento

Um nome paira

E se enamora

Da vastidão morena

Alentejana.

 

Flor…Flor…

Murmura o vento

E implora

Que escutem o seu canto

E o decorem.

 

E as giestas

Amantes e saudosas

Senhoras do silêncio

Das charnecas

Ao ouvi-lo cantar implorando

À planície fecundada pelo sol

Agitam exaltadas as corolas

E repetem

Transformadas em perfume

As sílabas amadas desse nome.

 

Bela…Bela…

Insiste o vento

E no seu canto persiste

E se demora.

 

E todo o Alentejo

Quente e branco

Acorre a consolá-lo

Nessa hora:

 

Descansa, vento

Descansa e cala

A saudade apaixonada do teu canto

Que Florbela é nossa

E aqui mora.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Poemas do Sol e da Cal»

(Editorial Presença)

 

publicado por sarrabal às 16:03
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Terça-feira, 25 de Abril de 2017

ZECA AFONSO

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Ao soar do adufe em tua mão

Abre em esplendor

Um cravo rubro

Que teima

Que resiste

A renascer da espera

Do teu povo

Na raiz da esperança

Que se fez canção.

 

Mas se a mudança tarda

Se não foi além

Nela respira

O apelo que sonhaste

Ainda junto a nós

Nessa herança apetecida

Que nos traz

Os teus poemas no som da tua voz.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro «O Nome dos Poemas», a publicar brevemente 

Foto: Inácio Ludgero

publicado por sarrabal às 02:03
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Sábado, 22 de Abril de 2017

23 DE ABRIL - DIA MUNDIAL DO LIVRO

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 SMC

publicado por sarrabal às 19:27
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Quinta-feira, 20 de Abril de 2017

DEDICATÓRIA

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Que mais posso fazer por ti, agora

A não ser compor este poema

E dedicar-to?

 

Escrever estas palavras que me imponho

E queria fossem belas

Como o canto do vento

Nas searas breves?

 

Sim, eu sei

É tarde.

 

Tarde para estender para ti

O meu regaço

Materno de acudir ao teu cansaço

Feito da espera dos dias sem resposta.

 

Tarde de mais, eu sei

Para qualquer gesto.

 

Por isso

No silêncio que me trouxe

O ciciar amaro do teu nome

Em ti recuso a flor e o luto

O rito pelos mortos.

 

Tua lembrança

Em carne viva está e permanece

 

És tu, ainda

A chama

A força

O grito.

 

Obstinadamente

A voz que se não esquece.

 

Soledade Martinho Costa

Do livro a publicar «Um Piano ao Fim da Tarde»

publicado por sarrabal às 17:14
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Quarta-feira, 12 de Abril de 2017

SEMANA SANTA - O GALO DAS TREVAS»

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Os ofícios celebrados antigamente ao princípio da noite de Quarta, Quinta e Sexta-Feira da Semana Santa eram designados por «ofícios das trevas» – em que a luz não entra nos templos. Esta denominação, conhecida desde o século XII, deriva, talvez, do costume introduzido nas Gálias (nome antigo de regiões protegidas pelos Romanos), de apagar, progressivamente, as velas nos lugares de culto, de forma a terminar o ofício na escuridão total.  

A prática manteve-se até à reforma litúrgica, quando os ofícios passaram a celebrar-se na manhã destes dias, desaparecendo, então, oficialmente, o nome de «trevas». Apesar disso, a designação continua ainda hoje a ser popularmente empregue. Daí, nestes mesmos dias, fazer parte do antigo ritual litúrgico, colocar-se nas igrejas, perto do altar, o «candeeiro das trevas», de madeira, em forma de triângulo, com treze velas, uma maior do que as restantes (seis de cada lado, de cera amarela, e uma no centro, de cera branca) – a remeter-nos para Jesus Cristo e os apóstolos. 

Consistia o ritual, caído entretanto em desuso, que entre as «matinas» (primeira parte do ofício divino rezado antes de romper a manhã, ou logo após a meia-noite) e as «laudes» (salmos de David, em louvor de Deus, que se seguem às «matinas»), se acendessem as treze velas do tocheiro, apagadas depois, ora de um lado, ora do outro do candeeiro, uma por cada um dos salmos que se cantava. No último salmo (Miserere), a vela maior, colocada no centro do candeeiro, era retirada e posta, escondida, ao lado da Epístola (lado direito do altar, à direita do celebrante). Ao terminar o ofício, a vela voltava a ser colocada no «candeeiro das trevas», representando este ritual «Cristo, cuja divindade esteve oculta durante a Paixão». E só depois a chama da vela era extinta. 

No Minho davam a esta vela – a mais alta do candeeiro de três bicos, representando a Santíssima Trindade – o nome de «galo das trevas», ou «vela Maria». É possível que a primeira designação se refira às palavras que Jesus disse a Pedro no final da Sagrada Ceia: «Antes que o galo cante negar-Me-às três vezes» (sendo certo que só depois de o galo ter cantado «se fez luz em Pedro»). A segunda poderá significar a Mãe de Cristo, como imagem da derradeira esperança, da última luz que se apaga, perante o filho agonizante. Na Beira Alta designavam o tocheiro por «candeeiro das trévoas». 

Igrejas há que guardam e utilizam ainda o «candeeiro das trevas», como relíquia a preservar, enquanto noutras o seu destino terá sido o lume ou outro fim qualquer, uma vez que não se sabe já do seu paradeiro. Caso exemplar é o da Sé de Braga, onde este cerimonial litúrgico nunca deixou de realizar-se. 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol. III

Ed. Círculo de Leitores

publicado por sarrabal às 19:17
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Segunda-feira, 3 de Abril de 2017

CELEBRAÇÕES DA QUARESMA - DOMINGO DE RAMOS

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A missa de domingo de Ramos – durante a qual se faz referência à Paixão e Morte de Jesus – foi chamada, em tempos, Missa Seca. Segundo uns, missa sem música (órgão e cânticos), na versão de outros, celebração em que não há comunhão (consagração do pão e do vinho).    

Uma das tradições deste dia, das mais populares entre nós, consiste na «bênção dos ramos» ou dos «palmitos», prática comum a todos os povos católicos, relacionada com os vários aspectos das comemorações da quadra pascal.

Ao dar início à Semana Santa, neste domingo se recorda e reconstitui um dos episódios mais marcantes da vida de Jesus Cristo: a sua entrada messiânica em Jerusalém para celebrar a Páscoa Judaica, tendo sido recebido, conforme se lê no Evangelho, «com gritos de alegria e o maior entusiasmo da multidão», que buscou folhas de palmeira para com elas O aclamarem.

Atados, por vezes,  com fitas de cores e compostos por folhas de palmeira, alecrim, oliveira, loureiro, rosmaninho e mimosas, os ramos, benzidos antes da missa (ou de véspera, na missa da tarde), guardam-se depois em casa durante todo o ano.  Nas vilas e aldeias continuam a ser pendurados na cozinha ou à cabeceira da cama para «proteger dos maus ares». É também costume colocar-se o ramo na sala, na altura da visita pascal (o «compasso»), ao lado de uma imagem religiosa ou pendente de um crucifixo.     

Na Beira Baixa leva-se à Igreja, juntamente com o ramo, um pão para ser benzido antes da missa, conferindo-lhe a crença popular «poderes divinos e profilácticos». Em diversas localidades eram os «mordomos» que ofereciam ao padre um «palmito», sempre maior e mais enfeitado do que os outros, que o pároco, por sua vez, oferecia, simbolicamente, depositando-o sobre o altar.

Outras vezes é colocado à porta ou no meio da igreja um enorme ramo de oliveira, enfeitado com fitas, flores e alecrim, que o padre benze na ocasião em que procede à bênção dos «palmitos». 

Havia ainda o preceito de utilizar-se um ramo de oliveira, ornamentado apenas com um laço de seda, entregue ao pároco pelo sacristão ou pelas «mordomas». Após benzido o ramo era dividido em pequenos ramos e distribuído aos fiéis pelo padre, prosseguindo o ritual com os devotos a desfolharem, ao redor da igreja, um galho do ramo oferecido, rezando um pai-nosso e uma ave-maria por cada uma das suas folhinhas. Prática caída em desuso, continua, mesmo assim, a verificar-se em determinadas localidades.  

O que sobrava deste ramo, o grande ramo de oliveira, o próprio ramo do padre e as palmas que enfeitavam a igreja eram guardadas nas sacristias até à quarta-feira de Cinzas do ano seguinte. Ainda hoje as palmas e os ramos que ficam nas igrejas são queimados neste dia, servindo as suas cinzas para impor o Sinal-da-Cruz na fronte dos fiéis que comparecem à Missa das Cinzas.

 Em Nisa, além das palmas, leva-se à igreja um ramo de alecrim e oliveira (antigamente enfeitado com pequeninas flores roxas), a que se dá o nome de «vassouras», por apresentarem essa configuração. Depois de benzidas, as «vassouras» – que se vendem neste dia pelas ruas – são penduradas na sala de entrada das casas, sempre «em lugar bem à vista». 

Em diversas aldeias da Beira Alta, o ramo é feito de loureiro e oliveira e enfeitado com alecrim, camélias, laranjas, figos secos, doces, bolos, etc., chegando a atingir a altura da pessoa que o transporta.  Do Minho ao Algarve continua também a manter-se o uso de queimar algumas das folhas do ramo bento «para afastar as grandes trovoadas». Com igual propósito, colocam-se raminhos de oliveira sobre as portas e janelas ou dá-se a comer ao gado um pedacinho do pão bento. 

Supostamente a representar resquícios dos sacrifícios humanos praticados no antigo Egipto, a «cerimónia das cinzas» remonta aos primeiros séculos da era cristã, inicialmente para admitir os crentes na comunidade, enquanto no século X d. C. toda a congregação católica romana, pessoas fora dela e os próprios sacerdotes passaram a tomar parte no ritual religioso da imposição das cinzas.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro  “Festas e Tradições Portuguesas”, Vol. III

Ed. Círculo de Leitores

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Quinta-feira, 16 de Março de 2017

CALENDÁRIO - MARÇO

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Descobre
A borboleta
As pétalas das flores.

Na herança dos muros
Trepam as folhas de hera
É Março com notícias
De ninhos e esponsais.

Há verdes 
Que se cruzam 
Nos matizes das cores 

Espreitam as andorinhas
À janela dos beirais.

Soledade Martinho Costa


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Domingo, 26 de Fevereiro de 2017

CARNAVAL - A MÁSCARA

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Revela tradições muito remotas. Mesmo nas pinturas rupestres paleolíticas podem observar-se dançarinos meio cobertos com peles de animais, cujas cabeças se sobrepunham às suas, constituindo a representação de tais cenas uma das indicações mais antigas de que se tem conhecimento associada, eventualmente, à origem da máscara. Na Antiguidade, mais do que a diversão, as mascaradas públicas faziam parte de rituais mágicos para “esconjurar os maus espíritos”. Com o cristianismo, essa intenção desapareceu, mantendo-se, embora, o desejo de se apresentar um rosto falso ou uma falsa personalidade, usando a máscara ou o disfarce carnavalesco.

Veneza, considerada a «máscara de Itália», deteve ao longo de décadas a duração máxima do Carnaval – seis meses no ano –, durante a qual o uso da máscara era diário e quase obrigatório.

Símbolo da comédia (o riso) e da tragédia (o choro), a máscara foi de início fabricada em couro, tela, papel e cartão pintado, tendo surgido depois as máscaras executadas em madeira, cortiça, pele, renda ou latão – actualmente, com a predominância das máscaras de plástico –, reproduzindo, na sua maioria, o rosto humano ou a figuração de animais.

As delicadas máscaras de veludo, de seda ou de cetim – as mascarilhas –, concebidas para proteger o rosto feminino dos efeitos do Sol, às quais se dava o nome de «lobos» por assustarem as crianças, acabaram por tornar-se também num outro género, mais requintado, de máscara de Carnaval.

Em Portugal, o uso da máscara (ou da «caraça») remonta a data anterior à Inquisição, tendo a sua utilização, por essa época, dado motivo a que diversas pessoas fossem condenadas à fogueira. Somente no reinado de D. João V (século XVIII) a máscara volta a ser permitida no nosso País, graças aos grandes bailes da corte, a opor o Carnaval de palácio – propiciado pelo ouro do Brasil – ao tradicional, sujo e desordeiro Carnaval de rua.

A função da máscara nas festas da Antiguidade, ao manifestar-se por um cariz profiláctico e expurgatório, fazia com que ao mascarado coubesse a missão de expulsar da Natureza e das populações «os maus espíritos e o mal em geral».

Com o tempo, essa tendência associou-se à própria articulação do Carnaval, onde a intenção de purificar ou libertar os pecados dos homens e do Mundo se pode observar nos jogos carnavalescos de purificação social, adaptados a práticas rituais satíricas e burlescas, numa tentativa de excomungar o mal das comunidades, procedendo à sua punição pelo acto do antigo «arremesso» – atirar cinza, farinha, ovos, laranjas, água, etc. – dos «julgamentos» e afins, pondo a descoberto na praça pública a vida de cada um, até terminar com a «Queima do Entrudo», numa alusão à punição e purificação de toda uma sociedade.

Outra vertente relacionada com a máscara, a cargo dos mascarados, diz respeito ao seu sentido propiciatório ou apelativo em função da fecundidade da própria Natureza, em abono da fertilidade e da abundância no momento da viragem do ciclo agrário: o final do Inverno e a chegada da Primavera. Associada ainda ao antigo culto dos mortos, a máscara mantém até aos nossos dias a sua função profana, articulando-se a sua utilização, paralelamente, com manifestações onde imperam as danças, os repastos, os peditórios, as punições e as apelações.

Desde tempos primitivos ligada também a forças ou intenções extraordinárias ou sobrenaturais, relacionadas com o solstício do Inverno, que acontece a 22 de Dezembro, quando o Sol inicia a sua fase ascendente deixando para trás a obscuridade – fase conotada como propícia ao regresso das almas dos defuntos, para gratificarem ou castigarem os vivos –, cabe nesta ocasião ao mascarado, ou à máscara, o papel de elemento catalisador ou de ligação entre uns e os outros, no sentido da harmonia e do entendimento pela consumação de práticas a que não são alheios o exorcismo e a magia, numa relação entre os vivos e o mundo espiritual.

É nessa perspectiva de elemento superior e fantástico, possuidor de dons especiais, que a presença do mascarado se torna fundamental, por purificadora, quando efectua visitas rituais às casas dos habitantes das localidades, participa em manducações conjuntas, recebe ofertas ou procede a censuras ou julgamentos públicos das pessoas e das respectivas comunidades, assumindo, plenamente, a sua função, tradicionalmente mantida ao longo dos séculos.

Daí, continuarem a verificar-se os «assaltos» combinados entre amigos, em que grupos de mascarados se reúnem em casa de um deles, nos dias de Carnaval, para brincar, comer e beber em conjunto, a manter a intenção profiláctica de tempos imemoriais. Ainda que, estes «assaltos» pacíficos, possam constituir uma lembrança dos efectuados outrora, em que as pessoas ao abrirem incautamente as portas das suas casas aos mascarados, eram espoliadas dos seus bens ou prejudicadas pela sua gratuita destruição ou conspurcação, com a casa cheia de farinha, cal ou cinza.

Baco ou Dioniso, deus do vinho, adorado pelos Romanos e pelos Gregos, era indigitado, igualmente, como deus da máscara. Por outro lado, a máscara é também referida como eventual resquício das «mascaradas de Artémis», deusa grega da caça e da natureza selvagem – assimilada à Diana dos Romanos –, que se realizavam no seu templo, quando decorriam os rituais de iniciação das suas sacerdotisas, em que as jovens se apresentavam mascaradas.

Com o tempo, outra figuração se foi impondo como símbolo de um Carnaval universal: a do «Rei Momo» ou «Rei do Carnaval», não raras vezes acompanhado da sua «Rainha». Sob a égide de Momo, desenrolam-se quase todos os importantes festejos carnavalescos, como os grandes corsos ou cortejos, que desfilam pelas ruas nesta quadra do ano.

Deus da alegria, da folgança e do riso, nascido da Fartura e do Vigor, Momo tinha a função de animar os banquetes dos deuses no Olimpo. O seu companheiro inseparável era Como, deus da comida e da bebida, filho do Apetite e da Sede, que presidia, juntamente com Momo, aos referidos banquetes. Considerados divindades da família, eram invocados na Antiguidade no início dos banquetes. Em primeiro lugar Como, deus dos prazeres da mesa, gastrónomo e bebedor, seguido de Momo, deus das frases oportunas e espirituosas, da troça e dos ditos maliciosos.    

Os adoradores de Como para honrarem a sua devoção, excediam-se nos alimentos e nas bebidas, os seguidores de Momo reuniam-se em grupos mais ou menos numerosos e saíam à rua, organizando brincadeiras e fazendo o maior barulho possível. E, naturalmente, por via da máscara, da alegria, da folgança e do riso, tornou-se Momo o patrono do Carnaval.

 

Soledade Martinho Costa

               

Do livro «Festas e Tradições Portuguesas», Vol.II

Ed. Círculo de Leitores

 

publicado por sarrabal às 02:24
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Domingo, 15 de Janeiro de 2017

TODOS OS LUGARES SÃO TEUS

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Ninguém sabe onde te escondes

Ou aonde te demoras

Todos os lugares são teus

Dás nome a todas as coisas.

 

És o rumo dos caminhos

Entre o destino e a poeira

Mas sempre o ponto de encontro

Que busco à minha maneira.

 

Aqui estou à tua espera

Do lado de cá do muro

Sem passado, sem presente

À mercê do meu futuro.

 

Só tu levas o meu sono

Feito de gelo e fogueira

Quisera estalar os dedos

E esquecer-te sem que eu queira.

 

Dar a mão a outra mão

Mesmo que desconhecida

Dividir o que não tenho

Ser a parte de outra vida.

 

Penhorar o mar e a Terra

Vestir o olhar de Sol

Procurar nas madrugadas

Um poema, uma canção.

 

Encontrar uma razão

Feita de esperas e sonhos

E depois dizer que não

Ao desencontro das horas.

 

Voltar sem pressa outra vez

A percorrer o relógio

E ver-te todas as vezes

Nos quatro cantos do mundo.

 

Quando achar novas de ti

Quem tu és e porque tardas

Visto um hábito de monge

Ato o cordão à cintura

E solto as palavras todas

Caladas, à tua espera

Neste meu poço sem fundo.

 

Soledade Martinho Costa

 

Do livro a publicar «Um Piano ao Fim da Tarde» 

Tela: Christian Schloe 

publicado por sarrabal às 20:13
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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017

BOLO-REI - ORIGENS

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O Dia de Reis baptiza o manjar cerimonial da doçaria alimentar desta data: o «Bolo-rei», espécie de pão doce recheado e enfeitado com frutos secos e cristalizados, cuja tradição se espalhou por quase toda a Europa e alguns países da América (particularmente da América Latina).

 

Supostamente, a resultar do bolo janual, que os Romanos ofereciam e trocavam entre si nas festas do primeiro dia do Ano Novo. Ao bolo juntavam um ramo de verdura colhido num bosque dedicado à deusa Strénia ou Strena.

 

Do nome da deusa resultará o vocábulo francês étrenne  (que significa «presente de Ano Novo») e a palavra «estreias», termo que, em certas localidades do nosso país, continua a utilizar-se para definir o acto de oferecer presentes de «boas festas» («dar as estreias»).

 

Se recuarmos no tempo, deparamos com as «estreias» (atrenua) relacionadas com mascaradas, banquetes, jogos e outras celebrações, realizadas pelos povos pagãos. Daí, no Concílio de Tours, em 567, ter sido sugerido que as «estreias» pagãs dessem lugar «às esmolas de carácter cristão e litúrgico», de modo a atenuar os vestígios do politeísmo.

 

Ao bolo janual e ao ramo de verdura acrescentavam os Romanos pequenas lembranças (tâmaras, figos, mel), com votos de bom ano, paz e felicidade. Este costume tornou-se depois mais exigente, acabando o oiro e a prata por substituir os singelos presentes.

 

Em diversos países foi hábito durante muito tempo introduzir no bolo uma pequena cruz de porcelana (que se juntava à fava, símbolo da fortuna), substituída depois por minúsculas figurinhas humanas.

 

Associados à quadra natalícia, mais propriamente ao chamado «Ciclo dos Doze dias» (que medeia o Natal e o Dia de Reis), vamos encontrar as «janeiras» e os «reis», que representam peditórios cantados na noite de Natal, de Ano Novo e de Reis.

  

Herança provável das próprias strenas romanas, a entoação dos cânticos tem por finalidade receber dádivas, que se revestem de um carácter alusivo e propiciatório, a remeter-nos, como noutras celebrações, para tempos remotos, em que se celebravam deuses e divindades pagãs ou eram pedidas ou oferecidas dádivas no início do ano comum, símbolo de bom augúrio, quer para quem as pedia, quer para quem as doava.  

 

O costume, espalhado por toda a Europa em países como Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha, entre outros, continua a efectuar-se, com os seus seculares cânticos de religiosidade popular e festiva.

  

Formados por grupos de homens e mulheres, os «janeireiros» e «reiseiros», acompanhados ou não por músicos, percorrem os lugares, de porta em porta, a pedir oferendas em troca da entoação das «loas» ao Menino, às Janeiras e aos Reis. «Cantar os Reis», «Esperar os Reis», «Correr os Reis» ou «Tirar os Reis», são as denominações decorrentes destas praxes.

 

Também as «Reisadas» e as «Chocalhadas» se articulam no mesmo contexto, não deixando, ainda hoje, de fazer a sua aparição pelas nossas vilas, aldeias e lugarejos. As primeiras, constituídas por grupos (mais aproximadas às «Janeiras»), apresentam maior incidência na Beira Baixa, Estremadura e Ribatejo, embora façam a sua aparição noutras zonas do país. As segundas, efectuadas igualmente por grupos, têm por finalidade a barulheira e a gritaria festivas, com o bater de latas e outros objectos barulhentos e o soar de campainhas, chocas e chocalhos, enquanto procedem ao tradicional peditório «para os Reis». Noutros casos, o mesmo género de grupo limita-se à barulheira, omitindo as dádivas.

 

Com esta função, pretende-se, uma vez mais, pelo barulho, afugentar o mal e obter benefícios propiciatórios e profilácticos (à semelhança do ritual da noite da passagem de ano, com o bater de latas, de panelas, etc.)  As «Chocalhadas» levam-nos às Sigilárias ou Festas Sigilares de Roma (sigilar de «fechar», em alusão ao «fechar do Ano Velho»), realizadas no primeiro dia de Janeiro, em que se fazia enorme barulho à porta de casa de cada um.

 

Igualmente provável é a celebração dos Reis resultar de antigos rituais ligados ao culto dos politeístas solares e da sua festa de consagração da luz do Sol no solstício de Dezembro, efectuada no Egipto sob o título Festum Osirid nati, ou Inventio Osirid, em data correpondente ao nosso 6 de Janeiro, designada pelos Judeus como Festa das Luzes ou Khanu Ka.

 

Há ainda quem sustente ter a comemoração do «Dia de Reis» origem nas festas romanas em honra de Jano (de onde provém o nome de Janeiro), o deus das duas faces: uma voltada para o passado, a outra para o futuro.

 

Soledade Martinho Costa

 

publicado por sarrabal às 00:53
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